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Immanence

As 3 leis dos blogues

  1. Um blog blog journal ue diário é a expressão de uma visão pessoal e intransferível de uma realidade pessoal e intransferível. Blogue-de-pensamento ou não, um blog blog journal ue diário não é uma monografia, em parte pela boa razão de que não cumpre os rituais de um trabalho científico — o botãozinho de Publish aí do lado, sem orientadores, bancas, _referees_, normas de bibliografia e de linguagem. Além disso, thinking- blog blog journal ou não, o que torna estas coisas fascinantes é como a vida se insinua pelos rebordos, pelas rachaduras entre o pavimento intelectual e cultural construído — a sidenote aleatória de que gosto de calcinhas de algodão branco com slogans engraçados na frente, no meio de uma exposição sobre os problemas de negociação comercial envolvidos no futuro da indústria têxtil.

    Por outro lado, o trabalho científico traz uma obrigação de pesquisa exaustiva que autoriza a se falar de uma “verdade” externa e comum; sem pesquisa, ou com a pesquisa superficial de um post, fala-se de uma experiência de mundo, antes de tudo. Se eu me ponho a falar da queda de Carly Fiorina, falo fundamentalmente dos excessos de uma business philosophy que envolve técnicas “místicas” de marketing, conceitos chochos como “inteligência emocional” para RH, e culminam na escolha de uma mulher sem o menor background técnico ou sem a menor idéia do que é a HP — em suma, de como pragmatismo em inteligência (de verdade, e não apenas política) é suicídio. Mas claro, isso é a visão extremamente carregada de um geek supremacist, coisa que nunca deveria entrar num texto acadêmico de organização industrial ou governança corporativa.

    Aliás, é por isto que não posso escrever um blog blog journal ue diário em inglês, apesar de que provavelmente o público mais interessado no que tenho a dizer não leia português, e de que os blog blog journal ue diários que leio e onde comento são quase todos em inglês. Apesar da Internet, a minha experiência do mundo ainda é em português.

  2. Um blog blog journal ue diário não é a expressão de uma visão pessoal e intransferível de uma realidade pessoal e intransferível. Como disse uma cantora que não é a Gwen Stefani, não há definitivamente lógica nenhuma no nosso human behaviour. As pessoas são verdadeiramente contraditórias, até um ponto em que suas contradições vivas são indizíveis. Uma persona monocórdia, monolítica e _one-sided_ (embora sofisticada, sob pena de cometer excessos de fofuxentice) parece ser fundamental para um bom blog blog journal ue diário, como o da Anne Galloway, do Steve Antler ou este, de autor não-identificado, aparentemente, que acabo de descobrir e que motivou este ensaio todo.

    [Eu sou particularmente culpado, e essa tensão entre a minha complexidade íntima e as possibilidades de um blog blog journal ue diário afundaram os meus dois últimos projetos -- o Anacoluto, que degenerou em silêncio absoluto quando eu entrei na minha bolha de abstração, e o ab/gen, que no fim eram novidades e indiretas para uma dúzia de amigos. Agora mesmo, estou num tipping point esquisitíssimo. Tive uma fase "categórica" muito, muito forte -- uma cena dessas que vão entrar no filme da minha vida, como Sid Vicious tocando baixo sem caixa em uma fétida mansarda em NY, sou eu, sob a luz do sol nascente, fazendo exercícios sobre coequalizadores e fatoração "epi-mono" de morfismos do "Arrows, structures and functors" do Michael Arbib, à 5 da manhã do dia primeiro de janeiro depois de chegar de uma noite alcoólica em Copa da qual tenho grandes brancos de memória, agravados pelo fato de que eu tinha as marcas físicas de uma briga. Eu tive uma fase heavy, em que tentava educar a todos os meus interlocutores sobre o jargão básico e a leitura de diagramas categóricos, enquanto explicava por arrow-chasing em diagramas por que o Irã estava desenvolvendo armas nucleares, dada uma formulação categórica das "Vidas Comparadas" de Plutarco.

    E agora estou à beira de uma revolução deleuziana. Eu rejeitei Deleuze à primeira vista pela política e pela ênfase estúpida na "sociedade de controle" de uma professora que só pode ter ascendido na academia hipnotizando o mundo com suas belas pernas. Mas alguns temas foram ganhando importância na minha vida -- antes do grande reencontro com Deleuze -- à medida que eu ia flertando com sistemas dinâmicos, resgatando o conceito de core (que é diferente de um equilíbrio), e Deleuze parece apresentar alguns conceitos muito interessantes sobre poder, duração, essência, território, essas coisinhas.

    O que quer dizer, espere mais instabilidade e flip-flopping. Mas eu tenho uma boa desculpa: este não é um bom blog blog journal ue diário :-) ]

  3. O tema profundo de um blog blog journal ue diário é o seu autor, embora isto precise ser inteiramente implícito, ou pelo menos muito sutil e delicado para quer o resultado seja bom. Isso quer dizer que o blog blog journal ue diário é um gênero menor, um pouco como as cartas. Aliás, é útil pensar num blog blog journal ue diário como uma carta dirigida a um amigo intelectual, uma coisa Marx & Engels; isso evita o problema do querido-diário e o problema do breaking-news. Mas posto que tudo é recorte, as opções que um autor faz são um retrato dele mesmo.

    Blogues são jornalismo? Não no sentido das newswires da Reuters e da AP, e talvez o outro jornalismo — o da opinião, análise, recapitulação interpretativa — seja uma aberração histórica da Segunda Onda toffleriana, entre a tecnologia de publicação a baixos preços e a tecnologia de publicação a preço zero. A blog blog journal osfera tem narrado com algum entusiasmo — e análises muito similares, em geral apelando aos numerosos fuck-ups da mídia que os blog blog journal ue diários têm descoberto — a aparente jihad que os meios tradicionais (o que se chama em blog blog journal uês MSM, mainstream media) andam a mover contra os blog blog journal ue diários.

    Talvez a coisa seja menos nítida nos países desenvolvidos, mas no Brasil parece que o espaço de opinião e análise dos jornais — que é muito maior do que as páginas explicitamente marcadas como tal — é preenchido de forma relativamente aleatória, ficando uma distribuição medíocre, no melhor sentido, de qualidade. E isso, os blog blog journal ue diários fazem bem.

    Eu tenho dito em comentários aos narradores da jihad que tenho a impressão que os blog blog journal ue diários expõem a nudez do rei e depois tiram a própria roupa para revelar-se mais atraentes. A nudez previamente dignificada do rei se ressente, mas talvez seja questionável o fato de que estamos nus em primeiro lugar, pelo menos do ponto de vista do que se esperaria que o jornalismo seja.

    Talvez o jornalismo dignificado seja estruturalmente impossível, como é impossível a decisão racional por uma maioria sob o teorema de Arrow

    Blogging issues apart, sempre houve uma demanda por personalidades. O conhecimento é melhor servido pelo debate mais impessoal, as idéias no ringue, mas não blog blog journal amos como máquinas intelectuais frias. Suits us well; por um lado, o blog blog journal ue diário é um gênero menor, e faz tanto sentido ser profundamente acadêmico num blog blog journal ue diário como numa porta de banheiro, e por outra, o gênero blog blog journal ue diário lucra com a personalidade como a porta de banheiro lucra com as piadas sujas.

    A grandeza deve ser universal, e no fundo, desconfio que por isso a única grande literatura é o memento mori, como a única grande música é a fuga. Específicos, somos escritores menores — uma legião. A modernidade aplaudiu a emergência da especificidade, da voz delicada e frágil, do revendedor de carros frustrado de Updike ou das bodas bárbaras de Queffelec.

    Talvez tirando o livro-papel, o romance-forma e o editor-guardião do gosto, sejamos mesmo uma legião de escritores menores lendo uns aos outros, como as rodas literárias das Cortazarianas que andaram aparecendo por aqui.

    Flutuam, vagamente, os temas de Eric Raymond da catedral e do bazar. Na nossa renascença de massas, talvez fique difícil ser mid-brow, ser um Saint-Exupéry vendendo doses homeopáticas de bom gosto. Somos hordas, e se um Douglas Hofstadter é um Leonardo, somos todos Borromini.

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