Archive for June, 2005

sobre a terceira esposa de Henrique Sexto

Thursday, June 30th, 2005

Sim, as obras puramente “organísticas” de Rick Wakeman são fake, são kitsch, são patéticas no seu pseudo-bachiano despido de substância, no seu envergar orgulhoso de uma imagem que não corresponde ã substância. Éo eterno destino do roque de feições clássicas. Não que o erudito impregnado de roque (como a parte menos Broadway de _Jesus Christ Superstar_) ou a mitologia roqueira feita erudito (como em Glenn Branca) não sejam possíveis, mas a absorção de uma capa estética filistino-barroca por roqueiros grandiosos como Rick Wakeman ou Yngwie Malmsteen.

Mas o que o grand-rock faz é destilar a _tensão_ presente na grandiosa música dos mestres e apresentá-la crua, pura, sem a compaixão, a profundidade e a ambição à universalidade destes. As tocatas de Bach são uma consolidação da humanidade total, onde as tocatas de Rick Wakeman são obras de tensão absoluta pela tensão absoluta, esquartejando os ouvintes puxando-lhes as extremidades do corpo.

Wakeman, Malmsteen, Johansson extraem do barroco a tensão pura como os melhores fotógrafos e _fashionistas_ do rock extraem a tensão pura do rock da música, e o fazem _pose_. Éa abstração aristotélica — abstrair é arrancar.

Éisso que faz com que eu, que entendo, sim, a música erudita, que sei cantar as vozes do “Stabat Mater” de Giovanni Pergolesi e sei reconhecer as fugas da _Kunst_ de Bach pelo número, aprecie tanto o grand-rock pretensioso de “Catherine Parr” do Rick Wakeman, “Black Star” do Yngwie Malmsteen ou “Eternity” do Stratovarius.

Um dos temas centrais do aprendizado musical da minha vida é que o fato cultural da música é _além_ do seu valor intrínseco. Uma audição benevolente de “Catherine Parr” do Rick Wakeman revelará isso aos leitores com espírito de experimentação.

Wednesday, June 29th, 2005

Give me 10.4.2 or give me death!

delta-dash-delta

Monday, June 27th, 2005

Estou pensando em escrever um widget Dashboard para o delta-bar-delta. Alguém aí usaria isso?

Sunday, June 26th, 2005

O segredo de fazer bons nuggets é ter paciência. Ao tirar do freezer, deixar descongelar por 10 minutos na bancada da cozinha. Depois, colocar no fogão (não fritar!) e usar fogo mínimo, para que o douramento do exterior corresponda ao cozimento interno

A Lei de Hernández

Friday, June 24th, 2005

Quanto mais os compromissos acadêmicos e menor o tempo para cumprí-los, mais o cérebro estimula a produzir pensamento sobre assuntos não-correlatos.

Não tem fonte, acabo de inventar. Ah, Hernández é só um nome qualquer. A Lei de Navarro será um grande teorema.

Dito isso, esta thread apresenta de forma sucinta o que está acontecendo no debate político brasileiro. Não falo do artigo, mas dos comentários, em que discussão não-relacionada se instalou.

Em essência, forma-se um discurso de o-PT-não-pode-errar baseado na curiosa idéia de que os avanços sociais da era Lula incomodam a um velho status quo que agora reage cavando esta crise política como quem cava um pênalti rolando pela grama para empatar o jogo.

Claro, existe uma imaturidade generalizada no problema de democracia-versus-liberdade no debate sobre a configuração e tamanho do Estado, ingenuidade ou desonestidade em associar o projeto supostamente liberal (na prática, uma social-democracia que cede aos princípios modernos de administração econômica) a um determinado conservadorismo oligárquico.

O meu tema continua sendo — como é desde a ascensão de Lula à presidência — a transferência do poder do processo político regular para o Partido. Sim, Lula é culpado de um democratismo que infringe sobre a liberdade e sobre princípios republicanos básicos, mas isso seria uma questão a ser digerida pelo sistema político se não fsse o aparelhamento do Estado e a substituição desse democratismo pelo democrapetismo em que o Partido é a instância maior do poder.

(Sim, mestre OdeC, as semelhanças com o evil empire são espeluznantes)

Audição obrigatória

Friday, June 24th, 2005

Apesar deste post, eu preciso escrever uma notinha sobre Solve et Coagula dos Matema. Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu não gosto de música brasileira por ser brasileira, que de fato é raríssimo eu gostar de algo brasileiro e — pecadilho intelectual confessado em homenagem à liberdade pura de ser parcial e mesquinho e daí? — o português é um turn-off em letras, o que não me permite apreciar coisas que apreciaria em sueco, como as peças cantadas por Jane Duboc para o Bacamarte, ou o Weezer-cum-Strokes do Lunik 9 (não a canção do ministro-gil, mas a banda indie carioca) (Aline, amor, tenho que te dar esse CD. Étão bonito. Juntar meus trapos com os teus; envelhecer sobre os nossos chinelos)

O Matema venceu a barreira do português. Égenuinamente uma das melhores bandas de rock do mundo hoje — o senso dançante quirky de um Franz Ferdinand envolto no zimmermanismo das citações germânicas em “Espelho”, o desafio anti-humanista e a álgebra pura em ironia aberta à sua própria dinâmica-reggae de um “Square Root”, o desconforto sonicyouthesco (sem nunca fazer referências tonais ou timbrais), pingado de ritmos tão espontaneamente nacionalizados de “Refronica”, o Fripp-que-perdeu-tempo-demais-lendo-teoria-continental de “Virus em Rizoma”, a literariedade de “Lágrima”, a ameaça de esvaziar o sentido em “Pilha”, o manifesto fluido e completo de “Dicionário”.

E apenas incidentalmente, é uma banda brasileira com letras em português. Genuinamente uma das melhores coisas out there neste momento.

Quem não tem colírio

Wednesday, June 22nd, 2005

A rádio Câmara está transmitindo a “festa da posse” de José Dirceu. Quando, ironicamente, o deputado pôs-se a falar de como foi vítima da censura. Nisso, parte do plenário começou a berrar “terrorista, terrorista”.

Estaria o Brasil desesquecendo?

I’m living in films for the sake of Russia

Wednesday, June 22nd, 2005

There's a little white house in the middle of Russia

Éclássica, pisada e repisada a história das fotos de comícios associados à revolução de 1917 da qual uma surpreendente habilitade semi-técnica semi-artística dos censores russos fez desaparecer a imagem de Leon Trotsky, de modo a não contradizer a ortodoxia stalinista quanto aos eventos da revolução.

Dois eventos interessantes de ontem: primeiro, a análise das fitas completas do caso de corrupção na câmara dos deputados de Rondônia revela que o material enviado pelo governador Ivo Cassol ao Fantástico em tom de denúncia na verdade era fortemente editado para eliminar o fato de que o próprio governador era o maior agente do esquema, e o maior culpado. Mais tarde, no seu depoimento à CPI dos Correios, o diretor Maurício Marinho entregou à consideração dos parlamentares um dossiê completo com uma decupagem plano-a-plano das fitas que centraram nele as investigações, revelando forte evidência de adulteração.

Presta atençao nessas coisinhas, amigo Bernardo! Parece estar surgindo um belo mercado na edição cirúrgica de fitas-bomba de modo a inocentar culpados, implicar terceiros ou criar narrativas inteiramente distintas. Um prato cheio pra quem sabe Final Cut ou Avid.

em nome da História

Saturday, June 18th, 2005

Seria bom se Lula se reelegesse. Não conseguindo, ficará a marca de um período de bom desempenho econômico derrotado pela vasta conspiração das “elites”. Em ficando no cargo até 2010, é certo que pegue a recessão mundial que a desvalorização do dólar deve trazer, deixando de ser lembrado como “autor” meritório de umm período de crescimento que é de fato impulsionado pela expansão econômica internacional.

A sombra de Lula e do PT precisam sair da história brasileira, e de vez. Não quero deixar esse legado lamacento à próxima geração.

[Update: um gráfico ilustrando o meu ponto.]

Saturday, June 18th, 2005

Talvez seja algo completamente incompatível com o espírito mesmo dos blog blog journal ue diários, mas [três](http://oglobo.globo.com/online/ blog blog journal s/moreno/) jornalistas [estabelecidos](http://oglobo.globo.com/online/ blog blog journal s/helena/) andam escrevendo blog blog journal ue diários, e têm feito uma cobertura razoável da crise política em Brasília, bem acima daquela vista na imprensa.

Bons analistas ou não, eles têm os contatos, e têm soltado muita informação em seus sites pessoais. Vale conferir.

Wednesday, June 15th, 2005

Não sendo adepto da propagação de links sem comentário, tenho que me render a este texto do e-agora: Lula é o culpado

À maneira de resumo-da-ópera, a minha análise preliminar dos eventos ligados ao episódio Roberto Jefferson enfatiza dois pontos que têm aparecido repetidas vezes por aqui:

  • A corrupção explícita me tranqüiliza quanto à persistência invisível da corrupção sutil. A Era Lula é, desde o início, marcada por autoritarismo e venalidade que nunca param de se insinuar nos rebordos — da escolha arbitrária de um Conselho com funções legislativas aos episódios violentos de censura ao jornalista Larry Rother — essencialmente deportado pelas suas críticas — e aos anônimos participantes da googlebombing do “déspota cachaceiro” — presos depois de investigação que envolveu a Abin.

  • Em particular, a instância perturbadora de corrupção sutil é a silenciosa transferência de poder do governo ao partido. O mensalão é apenas a contrapartida do dízimo parlamentar — uma transferência da intermediação política do processo público regular para as câmaras internas do partido. Isso já se viu no início de 2003, quando se fez o expurgo de incontáveis técnicos em cargos não-políticos ao longo de toda a administração pública federal para substituí-los por pedrinhas petistas.

As coisas nunca foram “normais” assim na era Lula. Ébom que algo mais auto-evidente na sua venalidade venha à tona. Me tranqüiliza, mesmo.

Tuesday, June 14th, 2005

Há uma poesia indescritível em ouvir seqüencialmente as versões original e orquestral de “Icct Hedral”. No momento do contraste, aparece o caráter épico da tese da Fronteira Eletrônica. Vêm-me à mente a Declaração de Independência do Ciberespaço de John Barlow, ex-Grateful Dead e fundador da Electronic Fronteer Foundation, a aposta de Ray Kurzweil com Mitchell “Lotus” Kapor sobre a viabilidade da inteligência artificial, o sentido profundo de política quando se remove o limite físico da produção, enfim.

Provavelmente por acidente, Richard “Aphex Twin” James e Philip Glass dão à metáfora da Fronteira Eletrônica uma força sensível que esta por si só — talvez pelo sobreuso — não tem.

No fundo, a bolha de 1999 foi apenas o resultado de capitalistas não entendendo o significado de Fronteira. Certamente não a última vez que procuram o ouro da Califórnia no lugar errado.

Tuesday, June 14th, 2005

Conforme prometido neste post, as transparências do meu modelo de massa crítica for dummies.

diários de patinete

Monday, June 13th, 2005

O escândalo das mesadas partidárias é simétrico ao do dízimo dos parlamentares petelhos ao partido. O problema não é nem tanto a corrupção (John, I’m only dancing), mas a transferência de poder do governo para o partido.

Dito isso, a administração municipal de São Paulo me parece bem mais madura que a nossa. Difícil saber quanto disso é efeito da “integração vertical” da era Marta, cuja dissolução foi reginaduarteada no tempo da campanha (mais um episódio simbólico de poder-para-o-partido) e quanto disso é maior uniformidade social e maior maturidade política dos paulistanos.

Pensando bem, os paulistanos coroaram Sílvio Santos e levaram a máquina carioca de produção cultural a produzir um equivalente genérico, gordo e pizzaiolo, simbolicamente produzido em SP.

Talvez seja de aplaudir que apesar da praia (e da falta de metrô), nós ainda temos um SESC, um CCBB e um Laura Alvim. Ou talvez SP tenha essas coisas tentando outcariocar o Rio. Autovalores, save me!

Saturday, June 11th, 2005

A diferença de fato entre o affair Delúbio e o de Paulo César Farias é que Collor, como construto teórico (tm Marina Figueira de Mello) que era, não tinha a profundidade do apoio de Lula.

Quase-manifesto

Monday, June 6th, 2005

Por um ponto de vista um tanto míope, é fácil me ver como um crítico das “humanidades”, de sua autocomiseração de saber gnóstico subestimado pela grosseria do vulgo movido a melhorias de padrão material de vida e shiny new toys, ou, de sua tolerância auto-indulgente com sua própria falta de rigor analítico e com a injustificável fé depositada em sistemas teóricos virtualmente arbitrários. Esse ponto de vista me acusa de tecno-otimismo, de supremacismo matemático e a fortiori de materialismo simples.

Tolero a confusão provocada nas mentes simplórias do professorado marxista encastelado numa torre de marfim autocongratulatória. E sim, isto em parte é provocado por opções estéticas pessoais, resmidas roqueiramente pela fórmula do “fim da dialética / venha a álgebra pura” dos Matema, talvez como contrapeso ao viés antimatemático de um ambiente intelectual onde pesa contra os agentes o chato fato de que não sabem matemática, incentivando o cover-up. E por isso devo esclarecer um par de coisas.

Em primeiro lugar, a necessidade de um programa duro de rigor analítico no tratamento das questões dessa academia de “humanidades” é, sim, antibiótica ao gozo da liberdade intelectual de especular com frameworks interessantes e diferentes, mas é uma necessidade urgente de auditoria intelectual da simples desonestidade teórica que grassa pela academia afora. E se uma auditoria intelectual é urgente em nome do projeto civilizatório mais amplo no qual a própria academia de humanidades se insere (e mesmo quando no seu âmago teórico critica o programa civilizatório forte, constrói-se sociologicamente como parte dele) sem culpas, é ainda mais grosseiramente premente a prestação social de contas da torre de marfim autocongratulatória e autorregulada.

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