Daniel Yankelovich é o autor de uma descrição clássica do espírito de supremacismo técnico do final dos anos 50 e início dos 60, no que chamava de “falácia de McNamara”:
> O primeiro passo consiste em medir tudo quanto puder ser medido com facilidade. Até aí, tudo bem. O segundo passo consistem em desprezar tudo aquilo que não puder ser medido ou lhe atribuir um valor quantitativo arbitrário. Isto é artificial e tendencioso. O terceiro é presumir que aquilo que não pode ser medido com facilidade não tem muita importância. Isto é cegueira. O quarto passo é dizer que aquilo que não pode ser medido com facilidade na verdade não existe. Isto é suicídio.
Robert McNamara, o prodígio corporativo, administrador militar e brilhante homem de números não estava, obviamente diretamente associado com estas palavras, mas a escolha é icônica, e é indubitável que McNamara tenha sido enganado por sua própria falácia várias vezes no transcurso de sua vida como administrador de grandes eventos.
A estrutura de Yankelovich pode ser reaproveitada para trazer à tona saltos discursivos que se tornam típicos de uma era pela forma como discurso e senso comum fluem entre si e se fundem. Sem mais prolegômenos, apresento-vos a falácia de Tariq Ali.
**Primeiro, postula-se uma dinâmica social teórica**. Um certo senso comum benevolente postula um equilíbrio do dilema do prisioneiro no atual cenário de conflitos entre o mundo árabe e o ocidente: no equilíbrio, ambos lados atacam, numa espiral que pode ser interrompida visto tratar-se de um equilíbrio de Nash sub-ótimo. A visão mais puramente tariq-ali das coisas é ainda mais radical no sentido de propor uma causação mais unidirecional nesse processo — o ocidente ferindo o mundo árabe com um determinado paradigma econômico-cultural, desencadeando uma reação deles que desencadeia uma reação nossa _et cetera_. **Até aí, tudo bem**.
**O segundo passo é dar à dinâmica social teórica o conteúdo de discurso manifesto e plano inescapável de ação — de ambos lados**. Aliás, o marxismo mais ortodoxo compartilha com o tariqalismo deste traço. A dinâmica social teórica proposta na teoria marxista coloca proletários e burgueses em conflito de interesse; a ortodoxia marxista postula que a ação burguesa é sempre no sentido de explorar o proletário, posto que é este o curso de evento sugerido pela dinâmica social teórica. De forma similar, o tariqalismo põe um choque de culturas como determinante necessário e inescapável de ações violentas, reduzindo a realidade mutável do choque ao que Gopal Balakrishnan chama de “algoritmos da guerra”. **Isto é arrogância**.
**O terceiro passo é afirmar a linearidade da realidade social conforme determinada pela dinâmica social teórica**. Este é o ponto onde os marxistas acertam, ao reconhecer a _path-dependence_ fundamental de qualquer modelo dinâmico social. O tariqalismo, no entanto, coloca Saladino, Nasser e Bin Laden no mesmo saco — e as citações aos conflitos árabe-ocidentais da idade média costumam ocupar grande parte das falas públicas de Tariq Ali, nosso ícone para este processo tortuoso de raciocínio. A realidade social dinâmica tem, no tariqalismo, efeitos constantes a choques similares. **Isto é cegueira**.
**O quarto passo é dada a ergodicidade suposta inerente à realidade social determinada algoritmicamente pela teoria dinâmica social, reduzí-la a um modelo estático de causação**. O paradigma de internacionalização econômica e o equilíbrio internacional de poder _geram_ a revolta islâmica, como aquecer uma caldeira _gera_ vapor. **Isto é estupidez**.
**O quinto passo é deduzir que eliminando a causa, elimina-se a conseqüência indesejável**. Assim, retirando o apoio a Israel, as tropas do Iraque e o exército da Chechênia, o mundo ocidental pode eliminar o terrorismo islâmico como quem mexe numa variável no algoritmo da guerra. **Isto é suicídio**.
O exemplo mais recente de raciocínio tariqalista — e o que me motivou a formular este _debunking_ foi um comentário _pasmo e pacóvio_ do [ blog blog journal uinho do Avelar](http://www.idelberavelar.com) aos atentados deste ano em London London, mas revendo o consenso anti-Israel das esquerdas e as reações mais estúpidas ao grande atentado de NY em 2001, vejo com mais clareza qual é exatamente o grupo de neurônios que falha nestas pessoas.
Em todo caso, a falácia de Tariq Ali pode aparecer — e freqüentemente aparece — em qualquer defesa de opções políticas baseada numa teoria social forte — muitas vezes até teorias sociais muito mais sólidas intelectualmente que a do exemplo original do conflito árabe-ocidental, como a economia do equilíbrio geral, a macro keynesiana, ou o Tinhorão way of life.
Sim, sim, a moral da história é aquele velho papo hayekiano de evolucionismo, cautela e cabeça aberta. Pena que somos treinados a igualar análise social intelectualmente sadia a um raciocínio como o da falácia de Tariq Ali. Hábitos a romper, tantos…
You must be logged in to post a comment.
Eu acho que o t?ɬ?tulo deveria continuar alinhado ?ɬ? esquerda com o texto, mas que deveria ficar na mesma linha do “blogue, CV…”, mesma fonte, mesma cor, mas em negrito.