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Immanence

entendendo o britpop

Há quem atribua a expressão _Cool Britannia_ à Newsweek, quando esta declarou Londres a capital mais _cool_ do mundo, mas parece que aparece num [disco](http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/B00005AFL2/qid=1130346519/sr=8-5/ref=sr_8_xs_ap_i5_xgl15/103-0952132-3057400?v=glance&s=music&n=507846http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/B00005AFL2/qid=1130346519/sr=8-5/ref=sr_8_xs_ap_i5_xgl15/103-0952132-3057400?v=glance&s=music&n=507846)
dos anos 60, de uma banda psicodélica esquisita chamada _Bonzo Dog Band_ cujos maiores fãs eram os Beatles. Mais do que uma curiosidade histórica inútil, este fato pouco percebido ilustra a origem da estética de onde brotam Oasis, Supergrass, Blur e assim por diante em uma característica mais “paramétrica” da dinâmica social da cultura pop no Reino Unido.

Ora, é consenso trivial que a Inglaterra, talvez acima ou talvez imediatamente depois dos Estados Unidos, é um dos principais centros emanadores de cultura pop. É bem conhecida, também, a curiosa gênese deste processo, com um movimento caracteristicamente inglês de importar o rock’n roll e o blues dos negros americanos (e quando os Stones ouvem discos americanos, ouvem Muddy Waters e Chuck Berry, não Buddy Holly e Elvis Presley), para em seguida explodir e invadir os Estados Unidos na _british invasion_ encabeçada pelos Beatles.

Existe um ensaio a ser feito aqui sobre como o rock inglês é a matriz do rock branco americano subseqüente, sendo abandonado o modelo Elvis/Holly — e pouquíssimo utilizado o modelo Chuck Berry/Jimi Hendrix — mas a dinâmica social da cultura pop americana é conhecida. Em que pesem pontos fora da curva (e Hendrix brilha, sobrando nas décadas subseqüentes um Funkadelic, um Sly and the Family Stone, um Living Colour e um Lenny Kravitz), a música negra se recombina sucessivas vezes ao _gospel_, desenvolvendo gradualmente o som que reconhecemos hoje, e que também teve muito sucesso internacional (sendo às vezes até imitado pelos ingleses ;-)).

Isto é reflexo de uma dinâmica cultura e de uma dinâmica social mais ampla; faz sentido, sem racismo, falar de cultura negra e branca nos EUA porque ambas se mantém separadas pelas suas próprias dinâmicas internas, sem supressão ou imposição de uma sore a outra. Mais ainda, os negros americanos — em termos menos carregados, os consumidores de cultura _black_ — ascenderam em padrão de vida e se tornaram um mercado consumidor significativo.

Desse modo, o rock americano é tipicamente branco, e não há supressão no perfil étnico de um Sonic Youth. Quando surge um Sly Stone ou um Living Colour, não há conflito, mas, pelo contrário, o público de rock (e a platéia num show do Living Colour é predominantemente branca) abraça os pontos fora da curva como um _breath of fresh air_ muito bem-vindo. Pelo contrário, surge uma tensão quando aparece um Vanilla Ice ou um Eminem — em parte por causa de uma estranha percepção de [apropriação cultural](http://en.wikipedia.org/wiki/Cultural_appropriation) recorrente dos brancos sobre o jazz e o rock, mas em parte porque estes realmente soam “intrusos” de um modo que um Living Colour nunca soou.

A dinâmica inglesa é bem diferente. Diferente em parte porque existe uma diversidade étnico-cultural muito menor no agregado, mas também porque existe uma diversidade maior no contingente não-branco, onde fervilha uma evolução cultural muito rica em que se empilham influências geograficamente dispersas — bastando ver a influência do bhangra indiano no ragga, por sua vez uma fusão do hip-hop e do reggae gestado nessa cultura inglesa. Mais do que isso, essa “cultura 2″ é absorvida e reprocessada constantemente pelo próprio consumidor branco — principalmente a chamada _working-class_.

Desse caldeirão, surgem coisas com a cultura skinhead, cujo elemento é incidentalmente branco, mas que funde o reggae jamaicano com o emergente punk inglês (vide the Clash). A “cultura 2″ também absorve uma certa vertente _harder_ da música negra americana saída das fábricas de Detroit, gestando uma vertente de música eletrônica não propriamente europeizada (como o techno de Detroit vai ser em Amsterdam e Berlim), mas injetada no caldeirão de influências da cultura 2.

É por isso que é natural quando algo como as Spice Girls ou o Prodigy têm um integrante negro, coisa ainda não vista nos EUA pós-Hendrix. E é, comparativamente, por isso que o britpop de um Oasis é muito mais ostensivamente branco que, digamos, o Pantera.

Ora, estas duas culturas inglesas (pensemos em uma “cultura 1″ como a da música popular inglesa mais conhecida nos anos 70 e 80 — Led Zep, Pink Floyd, Yes, Elton John, Paul McCartney, Judas Priest, Iron Maiden, New Order, My Bloody Valentine, etc) têm, sim, corrido paralelas desde que se esboça um conflito entre os “mods” almofadinhas que ouviam The Who e os Small Faces (e, diga-se de passagem — apenas para complicar — tipos muito específicos de R&B e soul americanos), e skinheads ouvvindo ska e reggae, mas os momentos de _cross-pollination_ são inúmeros (pense apenas em Eric Clapton e “I shot the Sheriff”, e uma biópsia de “London Calling’ não se fará necessária), e existe — o que _não_ existe nos EUA — um _mainstream_ no qual ambas culturas parecem se suceder.

Estruturada a história musical inglesa recente desta forma, fica fácil explicar a _essência_ do britpop e da _Cool Britannia_. A segunda metade dos anos 80 é marcada pelo auge da popularidade do _acid house_, do hip-hop, do _madchester_ e do _baggy_, rebentos típicos da cultura 2. A reação da cultura 1 começa procurando sua radicalidade (seja pelo lado do _drone_ com o gênero _shoegazer_, ou pelo lado new-wave-of-new-wave), mas só se reencontra com o _mainstream_ ao colidir com o sucesso do _grunge_ americano. O resto da história é bem divulgado; resta apontar detalhes irônicos como o fato de que a Creation Records foi à beira da falência com o imenso custo da gravação do “Loveless” do My Bloody Valentine (máximo expoente do _shoegazer_), e foi salva por acidente ao aceitar gravar um disco de uma desconhecida banda chamada Oasis — cujo líder tinha sido _roadie_ dos Inspiral Carpets, expoente da cena _madchester_ que o britpop viria a suplantar.

Desse modo, a _british invasion_ do britpop é radicalmente diferente da _british invasion_ dos Beatles; onde estes introduziram a versão “branca” definitiva da música negra americana de então, o britpop procura na “brancura” essencial (e inteiramente natural, diga-se de passagem) do grunge americano (em si uma mistura de Black Sabbath, Led Zeppelin e algo de indie-rock americano) os sinais de sua própria “brancura”.

E é a isso que se refere o Asian Dub Foundation — ragga com influxos indianos/paquistaneses e uma pitada de acid house oitentista — quando sobe no palco do _mainstream_ para cantar _”So will the real, the real Great Britain step forward”_.

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Discussion

One comment for “entendendo o britpop”

  1. Cadê as figurinhas, tio? :P

    Posted by Aline | October 27, 2005, 1:04 am

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