December 22, 2005

→ the title:: fear & loathing in Barra da Tijuca :: → keywords:, , , , , , , , , , , , , , , , , , @ 3:52 pm

Underground, _indie rock_, udigrude mesmo é caminhar pela Barra da Tijuca. Projetado para carros, o bairro exala a fétida evidência do capitalismo da Madison Avenue, do capitalismo dos pessimistas — não o sistema do empreendedor, da Liberdade maiúscula, promotora de um progresso que é humano até as últimas conseqüências, mas o sistema do consumidor abobalhado e desumanizado, homem sem alma que há muito ultrapassou a surrada forma de trocar o ser pelo ter para trocar o ter pelo ostentar.

Não é que o capitalismo deixe de ser _eficiente_, é que deixa de ser _elegante_. Não é que se torne _condenável_, é que **me irrita**.

Há no centro do Rio uma estreita faixa invisível entre a Escola de Música, a Sala Cecília Meirelles e o Municipal na qual transita, sem ser notado, o povo da música clássica. A faixa está contida no centrão mesmo da cidade, cheio de comércio, urina, poluição e mendigos, e contra a onipresença do mainstream do mainstream do mainstream da vida carioca, aquelas vidas humanas acontecem, mastigando partituras e Brahms em meio aos vendedores de pipoca e guaraná em copinho.

Essa “cultura 2″ invisível, no entanto, goza de um senso profundo de _entitlement_. Há o zelotismo e a _self-righteousness_ da comunidade de música clássica; no entanto, mais do que isso é o senso de _intenção_ no projeto do centrão — e em particular, daquela região do centrão. Desde os primórdios de centro de entretenimento de Francisco Serrador (a minha indicação para a série _Rebeldes Brasileiros_ da Caros Amigos), passando pela permanência de uma arquitetura que por se tornar _passé_ se tornou clássica, até a introdução voluntária, mesmo, de elementos como a Sala e a instalação da Escola de Música no prédio do Automóvel Clube. Em outras palavras, embora _outnumbered_ pelo segmento mais vulgar da “cultura 1″ (que talvez devesse por isso chamar-se “cultura 0″), a “cultura 2″ do centrão está em compasso com a evolução de seu entorno; em desarmonia com o panorama humano, a música clássica está em harmonia com a memória material da Faixa.

Não há isso para na Barra da Tijuca. Estrangeiros descrevem o bairro como _sprawling_, termo intraduzível que expressa um campo semântico entre “espaçoso”, “esticado”, “expansivo” e simplesmente “grande”. O desenvolvimento urbano apertado da Zona Sul fez a região crescer para cima; em Copacabana, a cidade chega a escurecer à medida que as ruas se afastam da praia e têm o sol bloqueado pelos prédios, e calcula-se que se todos os habitantes do bairro descerem ao mesmo tempo, não será possível organizá-los em pé por toda a área livre disponível. O projeto arquitetônico inicial da Barra, em contraste, antecipa-se a combater a urbanização vertical através de regulações pontuais de grande efeito sobre a realidade futura do bairro. Traçado por Lucio Costa, o eterno Robin para o Batman de Oscar Niemeyer, o Plano Diretor estipula restrições ao gabarito das construções, a alternância entre conjuntos de prédios e de casas, e mesmo o conceito dos famosos condomínios fechados com pequenos centros comerciais microlocais.

O sucesso dos objetivos do Plano é incontestável — do meu apartamento a três quarteirões da praia (em termos copacabanenses, à altura da rua Toneleros), vê-se bem o mar, a montanha, o horizonte, realidade concreta da intenção declarada de Lucio Costa constante do Plano Diretor de _”conciliar a urbanização, na escala que se impõe, com a salvaguarda, embora parcial, das peculiaridades da natureza e do meio ambiente”_.



os coqueiros da avenida sernambetiba, a quase meio quilômetro de distância



a avenida, o lago, a montanha

A característica expansiva do bairro é viabilizada principalmente pela sua estrutura em torno de duas avenidas, as atuais Américas e Ayrton Senna. O resultado concreto é que a av. das Américas domina a Barra da Tijuca, uma coleção de microcomunidades penduradas em torno da av. das Américas como enfeites de natal pendurados numa salsicha gigante. Desta organização urbanística derivam um certo isolamento dentro do microcosmo, do condomínio fechado — amplamente denunciada pelos ideólogos do Rio profundo, anti-barrense, como gerador de _alienação_ — mas também as formas básicas de expansão e saída do espaço microcomunitário: a praia e o carro.

A praia é um espaço tão natural de vida intermicrocomunitária que não ir à praia é um _statement_, uma rebelião. Nos áureos tempos pré-Linha Amarela, a freqüência às praias tinha o sentido de refletir, linearmente, a distribuição das micro-comunidades ao longo da av. das Américas, com a importante diferença de faltarem as grades protetoras. Fala-se, de fato, da “minha” praia, o espaço difusamente delimitado pela projeção linear do espaço ocupado pelo meu condomínio na estrutura da salsicha das Américas sobre o espaço da avenida à beira-mar, a Sernambetiba.

Onde em Copacabana o banhista seria cioso de pertences triviais como uma toalha ou um chinelo enquanto brinca na água, a praia da Barra tinha cangas esticadas como toalhas de piquenique, trouxinhas, bolsas e cadeiras de praia dobráveis largadas pela areia. Desse senso de vida intermicrocomunitária emerge também uma certa cultura muito característica do surfista diletante, ocasionalmente do vôo de ultraleve (bem distinto da cultura da asa-delta característica de São Conrado) , estruturas de convivência que marcam a maioria esmagadora das pessoas que conheci na vida.

A introdução da Linha Amarela, que liga os bairros do “lado de lá” — da zona norte, em menor grau da baixada — à av. Ayrton Senna em 1997 alterou significativamente a dinâmica da praia da Barra. Houve, de fato, resistência vocal à obra por parte das comunidades antevendo a dissolução de todo um estilo de vida. A Linha Amarela tornou a praia da Barra mais parecida às praias da Zona Sul na medida em que passam a transitar elementos culturais da cidade inteira — estereotipicamente, o morador “do lado de lá” que passa duas horas num ônibus para passar o dia inteiro na praia.

Onde a praia e os significados da praia são resultados da forma urbanística imposta pela avenida das Américas, o carro é imposto pela avenida em si. O carro é indispensável à menor extensão do pescoço para fora das grades da microcomunidade, do condomínio; para ir ao supermercado, ao shopping, aos bares do Downtown, aos cinemas do New York City Center.

Mais do que isso, o carro é essencial à forma fundamental de rebelião contra a Barra da Tijuca, que é freqüentar a Zona Sul; onde quando a Zona Sul se rebela contra si mesma e invade a Lapa para impregnar-se de Rio de Janeiro profundo se serve ricamente do transporte público, o barrense na Zona Sul está tipicamente de carro, em parte por causa da menor densidade da malha rodoviária, em parte por causa da imensa distância entre os pontos de ônibus e em parte por causa do rico sentido de ostentação do carro que não só se torna inconveniente para o zonasulense na Lapa, mas é muito mais profundo na cultura da Barra.

Underground, _indie rock_, udigrude mesmo é andar a pé pela Barra da Tijuca. Não há virtualmente _ninguém_ caminhando ao longo da salsicha, e fazê-lo tem um sentido intenso de rejeição do estilo de vida imposto pela salsicha — um sentido de subversão.

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