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Ser de direita

É bom o [texto do Dennis](http://justifymytaste. blog blog journal spot.com/2006/05/ambidestria.html); bom porque a idéia de que a esquerda é estruturalmente atolada pela mesma razão de _physics envy_ que Yudkowsky propõe como causa do atolamento da AI — o que não é inteiramente novo, mas é um ângulo legal — mas também porque é uma defesa-Macintosh do progressismo de direita, algo como o que a [Larissa](http://merelyanotherplayer. blog blog journal spot.com) diria do mercado de computadores, em defesa da Apple. Palavras de Dennis:

> Desta forma, sem muito me foder para a política, acho a direita mais simpática: humana, comedida, funcional.

Dennis é de direita porque é agnóstico e pragmático; Larissa é de direita porque nela vê um futuro melhor para uma personalidade mais individualista; Aline é de direita por uma espécie de meritocracia, sem deixar de defender certas plataformas de esquerda como o ambientalismo e as causas do terceiro setor; eu sou de direita porque por mais complicado que seja estruturar um “eu”, o conceito de “coletivo” é muito mais complicado, e provou-se que faltam-lhe certas propriedades que na linguagem vulgar nos lhe atribuímos.

Na prática, não importa que uma posição política não seja um escalar, ou mesmo um vetor bidimensional como propõem certas teorias. Quando eu começo a falar de uma porção de jovens de direita, eu ponho como pressuposto que o fato de que são jovens e convivem comigo deixa claro que são progressistas. Progressistas porque não acham que o mundo esteja indo à breca, porque o contato com a vida acadêmica lhes deu a idéia de que existem várias coisas isoladas que podem ser melhoradas de várias formas, talvez até porque não tenham nenhuma ligação emocional com um mundo em desintegração.

A verdade é que o progressismo de direita não pode mais se incomodar com o conservadorismo de direita — não mais que o petismo noventista pôde se preocupar com o crepúsculo do socialismo no mundo. No fim, o conservadorismo de direita se mantém no poder nos Estados Unidos há quase uma década porque sabe falar alto e claro e jogar pra platéia, sim, mas principalmente porque o partido republicano se tornou o partido das idéias — desde _vouchers_ educacionais até o mercado de futuros para atentados terroristas, não importando que na prática tenham afundado o país com um Estado aspirador de recursos, um sistema oligoplutocrático que empurrou a nação para duas guerras e uma absurda retração nas liberdades mais intrinsecamente _americanas_ do cidadão comum. Em outras palavras, o partido republicano se mantém no poder posando de progressista e oferecendo soluções — por mais conservadores que acabem sendo os seus atos.

Em algum ponto, o progressismo de direita deve dizer a um Olavo de Carvalho que seu tê-éfe-pê-ísmo com um punho raivoso tremendo no ar não nos importa, e a um Reinaldo Azevedo — que nos seus melhores momentos sabe argumentar de forma dura com fatos contundentes e nos piores é um olavo que substitui a fúria pelo _ennui_ — que ou ele joga do nosso lado, ou joga do lado do olavismo.

Mas o que daria ao progressismo de direita o poder de cobrar atitudes e passar descomposturas aos expoentes do conservadorismo de direita no país? Ora, o fato de que provavelmente somos a geração com a menor presença da esquerda em décadas, seja por pragmatismo, individualismo existencial, questões percebidas de justiça ou de possibilidade ou, no final, _zeitgeist_.

Aliás, por que o progressismo de direita faria isso? Por que não colocar ao nosso favor, o peso mais ou menos irrelevante mas não desprezível do pensamento de direita conservador (olavista) ou semiconservador (azevedista)? Bom, porque nós não podemos mais continuar respondendo pelos erros deles.

O papel do progressismo de direita não é histórico, é funcional; aliás, o progressismo de direita tende a rejeitar a idéia de funções históricas. Nosso papel é propor soluções — não grandes esquemas, não outros mundos, mas soluções pontuais — contratos sofisticados, esquemas regulatórios, MPB instrumental jazzificada, mecanismos de administração monetária/cambial/financeira e filmes caseiros.

Um ensaio um tanto desorganizado, este. Não tenho tido tempo pra escrever direito, temo. Um amontoado de idéias, mais do que tudo, combinado à idéia de que somos um grupo com interesses convergentes, de alguma forma — e que de alguma forma, precisamos entrar no debate juntos, mesmo que com idéias um tanto diferentes. O Dennis me animou escrevendo do ponto de vista de uma direita bastante diferente da minha, mas _nevertheless_ uma direita que eu posso defender. Espero que a direita que eu esboço seja algo que a Aline, a Larissa, o Dennis, o Cláudio Téllez, enfim, possam defender.

De alguma forma, o país está entrando numa era de desespero político total (como um banqueiro aparece na capa do maior semanário do pais dizendo que tem provas irrefutáveis de que o presidente Lula tem contas no exterior e ninguém faz nada?), e é a hora de que a ceninha que eu sei que existe porque leio os blog blog journal ue diários e conheço pessoalmente se pronuncie de algum jeito.

Discussion

One comment for “Ser de direita”

  1. Eu acho que também sou de direita porque sou inquieta. É que eu caminhei por maturidade e coerência crescentes, deixando a utopia pra trás.

    Posted by Aline | September 24, 2006, 8:20 pm

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