10. Falta de clareza. O economista heterodoxo tipicamente fará grande esforço para ser suficientemente ambíguo; isto, por um lado, evita a maioria dos ataques teóricos por uma simples questão de preguiça do teórico ortodoxo; por outro, no caso de conseguir formar uma escola e ter seguidores, permiteu o florescimento de sub-escolas, o que garante que seu nome será discutido e rediscutido na literatura enquanto as sub-escolas se digladiam pela interpretação “correta” do autor heterodoxo (veja-se a profusão de livros do tipo “O X-ismo de X”, onde X é o seu autor heterodoxo favorito). É claro, como medida de segurança, toda forma de modelagem formal é uma anátema, e muitas vezes a rejeição ao formalismo é racionalizada por um argumento do tipo “nazismo metodológico” (ver abaixo).
09. Terminologia esotérica. Um autor heterodoxo fará questão de redefinir termos comuns na literatura econômica, trazer termos do cotidiano e dar-lhes um sentido completamente contra-intuitivo, ou melhor ainda, não fazer qualquer esclarecimento quanto ao seu vocabulário obtuso, auxiliando assim também o florescimento de sub-escolas e a adoração de gangues rivais de heterodoxos pelas gerações que se seguem.
08. Ignorância da economia ortodoxa corrente. Esta característica é comum principalmente em escolas organizadas em torno de autores-raiz que se aferram ao estado da economia ortodoxa quando da publicação do magnum opus de seu líder espiritual. O desconhecimento completo do que a corrente econômica principal produziu depois das possivelmente importantes críticas do líder ao qual a escola heterodoxa se apega leva a pensar, na maioria das vezes erradamente, que os questionamentos que geraram essa heterodoxia em específico nunca foram respondidos.
07. Instinto de sobrevivência. Com raríssimas exceções de grandes economistas (e grandes homens) que fizeram carreiras suicidas desconsiderando alianças e surfando ao longo do espectro teórico (penso em John Hicks ou Abba Lerner), as críticas mais radicais a uma escola heterodoxa serão desconsideradas pelos seus defensores. Esta característica motiva muitas das outras irritações que a heterodoxia causa a um economista ortodoxo; por exemplo, pode vir a motivar uma ignorância consciente e/ou afetada do estado da economia ortodoxa corrente.
06. Florestalismo. A economia ortodoxa se faz com homens que se digladiam em busca de uma descrição única da realidade. Assim, existe um grande debate entre a síntese neokeynesiana à Hicks/Modigliani/Tobin e os novos economistas clássicos à Lucas; por sua vez, estes vêm a ser contestados pelos novos economistas keynesianos como Greg Mankiw. As escolas heterodoxas se recusam a sujar suas mãos no debate, preferindo a atitude cooperativa de garantir espaço para todos na confortável floresta acadêmica. Parafraseando uma expressão genial de Scott Adams sobre certas funções numa corporação moderna, um economista heterodoxo é um cupim vivendo tranqüilo numa mansão vitoriana na qual está sempre crescendo mais um quarto. O florestalismo pode inclusive cooptar economistas ortodoxos aos quais é assegurada uma tranqüila existência desde que não venham a incomodar os outros.
05. Sartreanismo metodológico. Não me refiro à filosofia de Sartre propriamente, cujos méritos geram uma polêmica na qual não quero entrar, mas ao seu estilo depressivo-chique, fumando um cigarro numa cave existencialista e arrastando com ar blasé uma certa importância auto-atribuída ao seu mal-do-século atualizadinho. À parte a filosofia, muitas citações do autor francês cabem nesse estereótipo — “o inferno são as outras pessoas”, e assim por diante. Certas linhas heterodoxas partem de bases metodológicas curiosas, justificadas com o recurso a uma axiologia tautologicamente resultante de seu pensamento. Isso torna esse pensamento irredutível a uma formulação mais clara e axiologicamente isenta, posto que essas correntes não constituem apenas um conjunto de idéias sobre a análise da realidade econômica, mas um estilo de vida que inclui uma pose, uma ontologia fragmentária e peculiar, um repertório de frases de efeito e um senso de completa insularidade metodológica. Aliás, não sei como o fértil florestalismo heterodoxo não criou ainda a economia grunge.
04. Nazismo metodológico. No extremo oposto, estão as críticas metodológicas radicais à economia ortodoxa corrente. Este não é um hábito em si destrutivo, e de fato ajuda a levar à frente o avanço do conhecimento econômico como um todo, mas às vezes este radicalismo leva à rejeição completa de uma moldura teórica que apesar de sofrer os defeitos que o nitpickingmetodológico aponta é robusta o suficiente para absorvê-los e/ou empiricamente consistente apesar dos problemas de fundo, promovendo uma política de terra arrasada que serve apenas para substituir um corpo teórico forte com pequenos defeitos metodológicos por um novo corpo teórico, obviamente mais próximo às simpatias do autor, e no entanto freqüentemente menos forte, menos sólido e com mais problemas metodológicos de fundo. O potencial de irritação deste item é potencializado quando combinado com o completo desconhecimento do estado da economia corrente; é freqüente ver autores recentes demolindo a economia ortodoxa de 1925 para propor sua própria moldura teórica alternativa, desconsiderando tudo o que aconteceu nos últimos 80 anos.
03. Superlocalismo. Um fértil chafariz de teorias heterodoxas é a análise detalhada (e completamente desligada da teoria econômica que versa sobre assuntos mais gerais) de um ponto em específico. Florescem, no ambiente favorecido pelo florestalismo e com base em uma oportunidade gerada por alguma instância de nazismo metodológico, teorias gargantuescas para explicar as folhas ímpares das árvores de amendoeira em dias de chuva entre 13 de maio e 15 de julho. Pertencem, de maneira criativa, a este item todas as teorias que supõem que alguns países são tão diferentes que merecem molduras teóricas especiais, sem nenhuma necessidade de crítica ou relação com a teoria econômica geral.
02. Infantilismo empírico. Talvez como garantia de sobrevivência ou para não meter-se em contendas que entrem em conflito com o espírito gregário da sua ecologia florestalista, a economia heterodoxa rechaça sistematicamente toda metodologia minimamente sofisticada de análise empírica, preferido o recurso a tabelas e gráficos persuasivos. Às vezes o infantilismo empírico vem acompanhado de nazismo metodológico quanto à econometria, que é denunciada por oferecer confirmações “para qualquer coisa” dado o suposto obscurantismo da análise econométrica. Nesta política de terra arrasada, um gráfico e um modelo econométrico completo têm o mesmo peso quase nulo.
01. Prepotência. Onze entre dez vezes, a economia heterodoxa pretende-se mais “geral” que a teoria ortodoxa corrente (no limite, “A é igual a A” é uma teoria geral do tudo, sem com isso dizer nada de interessante). Isto muitas vezes — mesmo em grandes meios internacionais especializados em teorias alternativas — é obtido trivialmente, e chega a ser um jogo divertido. Por exemplo, pode-se escolher um assunto superlocal, de preferência sem a menor possibilidade de verificaçao empírica, fazendo uma análise “descritiva” e denunciando (nazismo metodológico) a inadequação da teoria ortodoxa para explicar o problema superlocal devido ao excessivo irrealismo de seus pressupostos; em seguida, formula-se toda uma postura sartreana, de rejeição emocional, visceral à abordagem ortodoxa, desencorajando mais ainda o questionamento crítico com a ameaça de um acesso de fúria. Outra abordagem, dentre um número combinatorialmente explosivo, é inventar um problema superlocal tomando um tópico comum na análise econômica ortodoxa e redefinindo o termo-chave (esoterismo de terminologias) de modo a destroçar todo o corpo de análise existente, postular algumas características “descritivas” muito gerais do conceito da redefinição (na verdade, um conceito completamente diferente daquele existente na teoria ortodoxa) e sobreviver partindo em acessos de fúria sobre qualquer desavisado que venha a notar a futilidade do joguinho semântico e a vacuidade da análise do novo conceito. Em quase todos os casos, o economista heterodoxo pretenderá que toda a teoria corrente a respeito é um caso especial da sua teoria, que trabalha com redefinições mais gerais ou inclui novos aspectos desconsiderados pela teoria corrente. Em todos os casos, o economista ortodoxo é retratado como um ingênuo que professa uma fé ontológica pelas simplificações bisonhas de manuais bobos de graduação, um caipira fascinado pelo formalismo e pela beleza vácua das estruturas matemáticas que dão suporte a teorias inúteis, enfim, um idiota. E assim caminha a humanidade.
:D :D :D
Isso ficou muito engraçado, mocinho. Mas então, eu descobri que vocês heterodoxos (o.k., eles, você ainda é nosso são loucos por matrizes insumo-produto.
enfim, eu gosto dos superlocais.
não no que tange a heterodoxia, q são superlocais qualquer nota.
é a minha mania deleuziana.
Só pra te avisar que no Firefox existem quadros e tamanhos distintos dos quais você me mostrou aí no Safari.
Isso ficou muito engraçado, mocinho. Mas então, eu descobri que vocês heterodoxos (o.k., eles, você ainda é nosso
Hummm.
Isso me faz lembrar que eu sou um economista.
“a lógica reflete o fundamento”