À parte todas as abordagens ultraheterodoxas (pós-keynesianas, neoricardianas, etc. etc.), existe um razoável contingente de brasileiros afetados por esse problema dos juros escorchantes que nos assola que se pergunta por que, em pleno inÃcio de deflação, não parece haver nenhuma sinalização de uma queda menos gradualista e mais expressiva da meta para a taxa SELIC — quando a inflação acumulada de janeiro até junho é de 1,5% e a meta corresponde a três vezes esse valor.
O fluxo de queixumes só não é maior porque os jornalistas não conhecem de forma muito clara como funciona o sistema de polÃtica monetária de paÃses desenvolvidos como os Estados Unidos; se fossem ler um artigo como “Discretion versus Policy Rules in Practice” (de John B. Taylor, 1993), que propõe a famosa Regra de Taylor que o Comitê da Reserva Federal parece seguir nos Estados Unidos, fariam algumas continhas rápidas e começaria uma campanha de imprensa insuportável contra a condução atual da polÃtica monetária.
No entanto, não é possÃvel afrouxar mais a polÃtica monetária. A razão para isso é uma lição sobre como um pouco de conhecimento pode ser perigoso.
O leigo, cuja mais estridente voz é a do jornalista, forma um modelo econômico. Entre sua experiência do mundo e as consistentes mensagens dos formuladores de polÃtica no governo, ele percebe que existe algum _trade-off_ entre uma polÃtica econômica expansiva e a variação nos nÃveis de preço; alguns terão percebido até uma certa relação entre essa decisão que é tomada pelos _policy-makers_ lá no COPOM mensalmente e um modelo do tipo demanda/oferta ou capacidade ociosa.
O que os formuladores de polÃtica conseguiram nos convencer é de que dado que é inútil fazer uma expansão de demanda para além da capacidade produtiva da economia, é inteligente limitar as variáveis que o governo tem para controlar essa demanda pelo seu efeito sobre os preços — _ergo_ metas de inflação.
Não é de todo um modelo inapropriado; mais ainda, é mais ou menos o que a macroeconomia demorou uns 30 anos para estabelecer com segurança, entre o desafio de John M. Keynes e os artigos maduros de Milton Friedman. No entanto, sabe-se hoje que as coisas são um pouco mais complicadas que isso.
Se o agente — e o agente é majoritariamente o leigo, pela boa razão de que a maioria dos brasileiros tomando decisões econômicas não são economistas — forma um modelo mental da economia como o que acabamos de propor que tipicamente um leigo costuma ter, então o que ele resolve fazer leva em conta um ambiente projetado para o futuro próximo derivado desse modelo da economia. E é aà que o sapo desafina.
Dissemos que as manifestações dos jornalistas parecem expor um trade-off — fora de uma certa área confortável — entre controle da inflação e crescimento. Um exemplo recente: na recente sabatina que o programa _Roda Viva_ promoveu com o candidato à presidência da república Geraldo Alckmin, perguntou-se a ele se não era possÃvel reduzir as taxas de juros dado o momento de baixa inflação que o paÃs vive. Alckmin respondeu algo relacionado a “memória inflacionária”; não seria possÃvel ainda promover uma polÃtica um pouco mais frouxa porque o paÃs ainda tem algo que nesses termos parece uma estranha referência cortazariana a uma memória contida nos objetos materiais do cotidiano.
A referência à memória inflacionária não deixa de estar correta, apesar do termo estranhamente econométrico nesse contexto, mas pára onde a macroeconomia estava no auge de Milton Friedman, que propunha, então, um mecanismo adaptativo de formação de expectativas a partir de observações recentes. Em outras palavras, posto que a maioria de nós viveu perÃodos de alta inflação e aprendeu a lidar com esse ambiente turbulento, uma inflação de, digamos, 10% nos poria em modo inflacionário — em expectativa de alta inflação — e passarÃamos a tabelar nossos serviços, estocar produtos não-perecÃveis e assim por diante, o que pode ser o bastante para acelerar a inflação mais um pouquinho e pôr outros, mais preguiçosos, em modo inflacionário.
Os avanços da macreoconomia a partir dos anos 70 são um tanto libertadores do ponto de vista dessa mecânica de formação de expectativas, mas podem oferecer uma camisa-de-força pior para a polÃtica econômica. O que a macroeconomia passa a dizer a partir de Lucas é que as pessoas formam suas expectativas a partir de tudo o que sabem sobre o ambiente — o passado e o futuro.
Qual é o problema aqui? Ora, que apesar de quatro anos de uma polÃtica econômica bastante conservadora, provavelmente mais que a de seu predecessor tucano, o governo Lula ainda tem sobre sua cabeça a espada de Dâmocles do seu histórico de defesa de uma certa heterodoxia industrialista que não se importa em promover “um pouco de inflação” (esquecendo inteiramente o mecanismo de memória que faz as coisas explodirem) em troca de “um pouco de crescimento”. Movimentos muito bruscos no sentido de uma expansão monetária podem ser interpretados como um abandono do compromisso ortodoxo de manter os preços sob controle.
Adicione a isso a tradicional tentação de realizar polÃticas expansionistas em perÃodos eleitorais, e você tem o esboço de um governo que precisa ser muito mais realista que o rei para fazer com que se acredite que ele é realista em primeiro lugar.
Essa é uma das razões pelas quais é sempre bom eleger figuras públicas que sejam _consistentes_, em primeiro lugar.
