Em _A Estrutura das Revoluções Científicas_, Tommy Kuhn afirma que os cientistas reescrevem a história de seu campo para transformar tudo num fluxo contínuo e acumulativo.
A graduação em economia apresenta o modelo de Bertrand como um modelo de competição em preço, onde o modelo de Cournot é um modelo de competição em quantidade.
Essa distinção, acrescida da intuição marshalliana dos preços se ajustando mais rápido que as quantidades, dá a idéia de que o modelo de Cournot descreve equilíbrios não-cooperativos de longo prazo, onde o modelo de Bertrand descreve guerras de preço no curto prazo. Não é que cheguem a dizer isso formalmente, é só a impressão que fica, dado um universo de conhecimento acumulativo.
O fato é que **não existe** um “modelo de Bertrand”. O artigo de Bertrand no _Journal des Savants_ de 1883 é uma crítica do modelo de Cournot, que seria ineremente instável a uma guerra de preços.
A crítica de Bertrand se tornaria a opinião geral dos economistas pelos 35 anos que se seguiram. Edgeworth, o mesmo da caixa que ilustra o equilíbrio geral sob trocas puras, chega a pôr um ponto final sobre o assunto dizendo que Cournot está **errado** e pronto.
A primeira reabilitação significativa de Cournot só começa com o artigo de Hotelling sobre diferenciação de produtos (estranhamente metaforizada em competição espacial). Ao propor a diferenciação marginal de produtos como forma de obter estabilidade a mudanças marginais de preços, Hotelling diz com efeito que Bertrand está **errado** ao propor seu paradoxo sobre o modelo de Cournot.
A segunda onda de reabilitação de Cournot se deve a aplicações empíricas. Em certo ponto dos anos 40, a necessidade de ferramentas de análise econômica pragmática para situações de oligopólio se sobrepõe à relativa imaturidade teórica da ciência econômica, e funda-se toda uma literatura de caráter empiricista, primeiro com estudos de caso e depois com análise econométrica seccional. Nesse contexto, o modelo de Cournot se mostra útil à fundamentação de metodologias estatísticas mais ou menos _ad hoc_ que constróem índices de concentração industrial; o famoso índice de Herfindahl-Hirschman emerge naturalmente de um equilíbrio cournotiano, o que ajuda a manter flutuando o relativamente ateórico paradigma estrutura-conduta-desempenho.
A terceira onda de reabilitação de Cournot vem com o equilíbrio de Nash e a explosão da teoria dos jogos. O equilíbrio cournotiano em termos de curvas de melhor resposta se torna um exemplo clássico do tipo de raciocínio por trás do conceito do equilíbrio de Nash, e o modelo de Cournot é transformado em um dos exemplos didáticos favoritos dos livros-texto, logo após o dilema do prisioneiro.
O interessante é que o modelo de Cournot conforme proposto em 1838 não sugere um equilíbrio de Nash, mas uma dinâmica de ajustamento de situações arbitrárias para um equilíbrio estável. Dessa maneira, o Cournot clássico é um caso especial dos modelos de derivadas conjecturais da primeira metade do século XX, com reações conjecturais nulas, e está longe da formulação moderna em teoria dos jogos: o que era um modelo de ajustamento dinâmico um tanto míope — e criticada por Bertrand, Edgeworth e outros pela sua miopia — é reescrito como uma história de equilíbrio preternaturalmente definido por agentes estratégicos hiperracionais.
O único dado que dá à história de Cournot um certo conteúdo tradicional de narrativa contínua e acumulativa é o _acknowledgement_ de Walras que credita a introdução de métodos diferenciais na economia ao modelo de 1838 — muito embora Cournot tenha sido largamente ignorado até a crítica de Bertrand.
Nisso tudo, fica difícil de ver uma narrativa linear de história da ciência. Cournot aparece isolado em um contexto de predominância do sistema clássico ricardiano como uma introdução precoce do cálculo na análise econômica, é ignorado até uma crítica feroz, é declarado morto e enterrado por um dos principais teóricos matematizantes do equilíbrio geral e resgatado primeiro pela necessidade de uma economia da organização industrial e depois como mero pastiche de si mesmo em exemplo didático.
A forma como os economistas gostam de apresentar Cournot, no entanto, é como um pioneiro que antecipa a explosão do método marginal em 50 anos e da teoria dos jogos em 100, quando na verdade trata-se de um fantasma que esconde sob seu manto idéias bastante distintas, continuamente absorvendo as modas metodológicas e as necessidades pragmáticas à medida que o tempo passa.
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Mas o Kuhn tá certo! =P
Desculpa te encher o saco, mas não custa nada tentar hehehe.. tenho aula de econometria na facul e apesar de meu prof ser um profissional maravilhoso ele nao tem mta didática…normal…eu gostaria, se vc pudesse, que vc me mandasse um resuminho dizendo o q cada coisa mostra numa analise de estatisca(desvio-padrao etc) _eu sei q isso é mto relativo, mas qlqer ajuda vale, nesse caso- e alguma coisa sobre significância.
Obrigada
Carolina