Archive for November, 2006

Notas consumistas

Wednesday, November 29th, 2006

Ao preço de R$1,50, o Jornal do Brasil não consegue realmente competir pelo espaço d’O Globo, que apesar de ser 30% mais caro desfruta de uma mindshare muito mais valiosa, além de ser bem mais volumoso — ao menos na aparência, na hora de escolher um jornal na banca.

Quem acertou no alvo do mercado de leitura descartável para passar o tempo foi Maurício de Souza, com suas promoções de 3 revistas da Turma da Mônica por R$2,99. Freqüentemente vejo-me comprando um pacotinho desses para esperar o ônibus do condomínio, em vez de pagar os R$2,30 do ônibus de rua.

A framework mais simplista de elasticidade da demanda não consegue capturar direito o efeito destes nichos de mercado porque abstrai demais o mecanismo de escolha entre bens substitutos que gera as curvas de demanda. No seu preço habitual de entre 5 e 6 reais, as revistas em quadrinhos da família Maurício de Souza competem com revistas informativas e livros de bolso, leitura circunstancial que no entanto pretende-se guardar depois.

No preço da promoção, a competição de fato é com os jornais e outros veículos de entretenimento passageiro — e mesmo com o eventual lanche consumido como passatempo. Ao perceber esta inflexão na sua curva de demanda, a editora Maurício de Souza acertou em cheio.

Simplicidade, complexidade

Monday, November 27th, 2006

Como qualquer cientista, eu tenho uma aversão natural ao discurso do self-improvement, com sua bagagem de métodos ad hoc de alcance supostamente muito amplo e no entanto quase content-free, 98% água, 2% poliéster. Isso inclui boa parte dos métodos de gestão que entram e saem de moda — versões corporatizadas do princípio básico da auto-ajuda: a idéia de que o óbvio (que as pessoas já sabem, e que é meramente relembrado nos mais diversos manuais do gênero) basta para enfrentar o desconhecido.

Ainda assim, atrai-me a abordagem de simplicidade de John Maeda (bem como seus similares) pela sua ênfase num princípio abstrato generalizável — em oposição às listas desestruturadas de regras da maioria dos sistemas e cultos do gênero — e pela afirmação constante de sua própria falibilidade e limitação.

O mandamento máximo do sistema de Maeda é que simplicidade significa subtrair o óbvio e adicionar o significativo. Com isto, ele limita o alcance do seu mantra e repele os excessos. Mas é significativa a ilustração de Garr Reynolds sobre esse princípio: vê se um aparelho eletrônico qualquer com dois botões binários — um “ordenado vs. misturado” e um “desligado vs ligado”. A idéia seria que a multiplicidade de botões encontrada nos nossos aparelhos eletrônicos é desnecessária, e que tudo o que o controle remoto da minha TV deveria ter é um liga-desliga, um sobe-desce de canais e um sobe-desce de volume — em oposição aos mais de 40 botões que um controle remoto simples como o meu tem.

Mais cortes da Pesquisa Blogosfera Brasil

Friday, November 24th, 2006

Um boxplot que ficou muito interessante é o de idade versus tempo dedicado à edição do blog blog journal :

Alguns cortes por idade da Pesquisa Blogosfera Brasil

Thursday, November 23rd, 2006

O site Verbeat realizou, entre 10 e 25 de novembro de 2005, a [Pesquisa Blogosfera Brasil](http://www.verbeat.org/pesquisa blog blog journal osferabrasil/), que constituía em um questionário de 134 perguntas que veio a ser respondido por 685 autores de blog blog journal ue diários. Apresentamos aqui alguns cortes transversais por idade através de uma visualização denominada boxplot, proposta por John Tukey em 1977.

Infra-estrutura (ii)

Wednesday, November 22nd, 2006

Um certo consenso moderado ascendente coloca o problema do colapso da infra-estrutura no Brasil depois de mais ou menos dez anos de administração dita ‘ortodoxa’ como um problema de escopo da análise econômica. Esta é, por exemplo, a posição sustentada pelo Hermenauta, um representante particularmente vocal de uma larga classe de engenheiros-turned-economistas que enxergam na profissão um vício de excessivo apego ao modelo em detrimento da capacidade de lidar com a realidade. É natural: eles estão acostumados a um mundo de escopos científicos disjuntos cuja harmonização cabe ao engenheiro — a física da eletricidade que deixa em ceteris paribus a física da mecânica, e que no entanto devem ser conciliadas.

Infra-estrutura (i)

Tuesday, November 21st, 2006

É o tema da moda; toda sorte de pundits e leigos cheios de confiança proclamam agora que é a razão pela qual o país não cresce. É em parte o cheiro de um apagão geral — aeroportos em colapso, estradas ruindo meses depois de terem sido remodeladas, uma nova crise energética à vista e agora piratas, do tipo que ataca navios e saqueia a carga, agindo nos portos. É também oportunismo político: denunciando o suposto consenso neoliberal, que teria permitido que a situação chegue a esse ponto, cria-se o ambiente para um novo ciclo de política industrial.

Ora, se a situação é assim por causa do arrocho fiscal necessário para cumprir as metas ortodoxas de redução do endividamento estatal, a necessidade de intervenção do Estado, com créditos subsidiados e definição de prioridades, é por sua vez conseqüência da incapacidade do setor privado agir, dado o próprio processo que suga recursos da economia no ciclo de gastos e impostos.

Neste mesmo momento, o governo está emprestando dinheiro até a outros países pela metade da taxa a que ele capta esses recursos. A diferença é coberta pelo aumento consistente da carga tributária, tornando o setor privado mais impotente, e fechando o círculo vicioso.

O possível apagão geral de infra-estrutura que se delineia é, sim, o sintoma de uma prática de política econômica míope, mas não no sentido aparente da falha em coordenar os setores cujo planejamento é essencial, mas no sentido dinâmico do sucesso em asfixiar a capacidade da iniciativa privada de planejar para o longo prazo.

A solução competitiva

Tuesday, November 21st, 2006

Estatísticas T são muito mal utilizadas como sumários descritivos, mesmo ignorando os problemas estatísticos subjacentes ao uso de aproximações assintóticas em amostras pequenas.

Dica

Tuesday, November 21st, 2006

O upcoming.org, agora de propriedade do Yahoo! e pouquíssimo usado no Brasil, é um excelente sistema (inclusive com APIs abertas para programação) para marcar e divulgar eventos. É fácil de usar, e agora usa a conta Yahoo! que você provavelmente já tem.

Milton Friedman (1912-2006)

Friday, November 17th, 2006

Pela sua revolução metodológica, contra os excessos da macroeconometria dos anos 50, um divisor de águas, atrás apenas de Paul Samuelson.

Pela sua atividade pública, um dos grandes divulgadores da ciência, da estatura de um Asimov ou de um Sagan.

Por suas previsões, o economista vencedor do século XX.

O lucro da Vale

Tuesday, November 14th, 2006

O que significam, afinal, os bons números de valor de mercado e lucratividade apresentados pela Vale do Rio Doce nos últimos anos? À esquerda e à direita, os comentaristas usam os dados para defender as teses de seu grupo: aqueles atacando o que vêem como excessos da histeria privatizadora da era FHC, estes em favor da necessidade das privatizações de estatais megalíticas e do sucesso do programa de privatização.

Um [economista saído da mesma escola que eu](http://rodrigoconstantino. blog blog journal spot.com/2006/11/o-lucro-da-vale.html) afirma que o lucro da empresa é 25 vezes o que era no tempo da privatização, onde o valor de mercado é apenas 10 vezes o valor daquela época. Isto, para ele, tornaria o benefício líquido positivo da privatização um daqueles fatos claros e auto-contidos — que todo kantiano sabe que não existem — impermeáveis à análise por serem fatos claros e duros.

Parte do problema é que os argumentos da esquerda e da direita não versam sobre o mesmo problema. Um problema é o status retrospectivo do programa de privatização — se valeu a pena ou não; outro é a celeuma sobre o preço obtido no processo definido pelo governo então vigente.

Ora, é um outro fato claro — e lembrado com boa ironia por [comentaristas à esquerda](http://mesquitajl. blog blog journal spot.com/2006/11/s-di-quando-eu-rio-vale-que-foi-doada.html) — que o preço de venda da empresa é inferior a um terço do lucro obtido este ano. Mesmo não sendo um daqueles fatos claros e auto-contidos — afinal, estes rigorosamente não existem — estes dados tornam claro que não é anaeróbio nem obnubilado, como pretendem os comentaristas à direita, levantar dúvidas sobre os preços obtidos e a sistemática do leilão.

A ducha fria nesta disputa grosseira com fatos parciais é que uma análise correta dos preços obtidos no processo de privatização requer uma complicada estimação de modelos complexos de leilão, do tipo que ocupa a cabeça dos melhores matemáticos. Pior do que isso, os dados apresentados como provas claras de fatos claros não dizem o que os comentaristas de ambos lados pretendem que dizem.

Eles venceram, e o sinal está fechado

Thursday, November 2nd, 2006


para nós, que somos jovens

Vocês conhecem aquela em que Deus está distribuindo as desgraças pelo mundo — furacões pra cá, terremotos pra lá, icebergs acolá — e São Pedro o questiona, perguntando porque ele tinha sido tão piedoso com aquele país na costa atlântica da América do Sul?

Dizem os psicólogos que a aceitação de uma perda vem em etapas: primeiro a negação, depois a raiva, depois a depressão e depois a aceitação. Ora, a história do segundo turno de Geraldo Alckmin é uma crônica de uma morte anunciada; entre o absoluto atabalhoamento com a qual o PSDB administrou a sua campanha presidencial e o constante _memento mori_ das pesquisas por amostragem, apenas um milagre daria um final diferente à história.

É assim que se dá a banalização do mal. Últimas esperanças definitivamente refutadas, voltamos todos à vida normal. O partido vai lamber suas feridas e exumar o cadáver de sua campanha; um breve campo festivo, em nada comparável à histeria de 2002, dançará uma giga e beberá uma taça de vinho.

A divisão social delineada nos cortes transversais das pesquisas eleitorais — educação, renda — fazem com que seja razoável crer que seja natural para os leitores destas linhas o pesadelo kafkiano que encerra o governo Lula. O que houve? É verdade a paráfrase cínica do adágio que se ouve pelos corredores de que cada povinho merece o presidente que tem? O fracasso é de Alckmin, que não soube falar claro, ou é uma característica estrutural das dinâmicas sociais específicas e estruturais a uma sociedade como a nossa?

<

p>Lamber nossas próprias feridas políticas deve significar esboçar respostas a estas e outras questões sobre o panorama político delineado pela derrota do bloco modernizante nas eleições de 2006. Eu ando formulando as minhas.

Free counter and web stats