// you’re reading...

Simplicidade, complexidade

Como qualquer [cientista](http://cepa.newschool.edu/het/), eu tenho uma aversão natural ao discurso do _self-improvement_, com sua bagagem de [métodos](http://www.5s.com.br/) ad hoc de alcance supostamente muito amplo e no entanto quase _content-free_, 98% água, 2% poliéster. Isso inclui boa parte dos métodos de [gestão](http://www.sebraesp.com.br/principal/abrindo%20seu%20negócio/orientações/criação%20de%20empresas/qualidade_total.aspx) que entram e saem de moda — versões corporatizadas do princípio básico da auto-ajuda: a idéia de que o óbvio (que as pessoas já sabem, e que é meramente relembrado nos mais diversos manuais do gênero) basta para enfrentar o desconhecido.

Ainda assim, atrai-me a abordagem de [simplicidade](http://lawsofsimplicity.com/) de [John Maeda](http://www.maedastudio.com/index.php) (bem como seus similares) pela sua ênfase num princípio abstrato generalizável — em oposição às listas desestruturadas de regras da maioria dos sistemas e cultos do gênero — e pela afirmação constante de sua própria falibilidade e limitação.

O mandamento máximo do sistema de Maeda é que simplicidade significa subtrair o óbvio e adicionar o significativo. Com isto, ele limita o alcance do seu mantra e repele os excessos. Mas é significativa a [ilustração](http://www.presentationzen.com/.shared/image.html?/photos/uncategorized/maeda_slide_1.jpg) de Garr Reynolds sobre esse princípio: vê se um aparelho eletrônico qualquer com dois botões binários — um “ordenado vs. misturado” e um “desligado vs ligado”. A idéia seria que a multiplicidade de botões encontrada nos nossos aparelhos eletrônicos é desnecessária, e que tudo o que o controle remoto da minha TV deveria ter é um liga-desliga, um sobe-desce de canais e um sobe-desce de volume — em oposição aos mais de 40 botões que um controle remoto simples como o meu tem.

Ora, o que o mantra da simplicidade propõe é que eu não preciso de 10 opções de configuração de imagem (”jogos”, “esportes”, “filmes”, etc.) na minha TV, bastando, quando muito, uma opção binária “claro vs escuro”. Eu concordo em termos. É fato que o menu do televisor é bizantino, bem como os menus do Windows (e do Mac sem o [Butler](http://www.petermaurer.de/butler/helpers/)). Mas é fato também que mesmo que se possa reduzir a interseção do espaço de configurações desejáveis de cores de uma parcela significativa dos consumidores a uma opção “claro vs escuro”, a transformação tem importantes perdas, e prenuncia a idiotização da cultura.

O sistema de Maeda chega a mencionar num documento secundário às “leis da simplicidade” (intitulado, à moda da auto-ajuda, de “as chaves”) que importa usar menos para ganhar mais. E eu me apóio nele para manter alguma compatibilidade, mesmo que parcial, entre a minha visão do mundo e a dele.

Conquanto eu apóio a reforma do menu do televisor, o que eu proponho é, como contrapartida, que se crie uma interface programável que me dê acesso aos componentes do ajuste de imagem (brilho, contraste, cor, etc.) e à matriz de pixels, permitindo-me escrever um conjunto de regras para um ajuste ótimo de imagem — menos intensidade na cor quando a variância do tom é pequena (por exemplo, nos jogos de futebol), mais contraste quando esta é deficiente na transmissão (problema que acontece muito nos programas noturnos de debate da TVE) e assim por diante.

Em suma, penso eu que o problema das interfaces atuais, muito bem destacado pelos apóstolos da simplicidade, é que tem-se realizado uma fusão de dois momentos muito distintos, o do uso e o da configuração. O lado negativo da análise de simplicidade é que pretende-se esconder do usuário o fato de que o mundo é complexo e as opções de configuração existem e são muitas vezes relevantes.

A minha solução é retirar a aura mística da “programação” que a ascensão do IBM PC levantou — antes, todos os computadores pessoais giravam em torno de uma linguagem de programação e todo usuário conhecia ao menos os rudimentos para fazer pequenas mudanças e personalizar seu ambiente de trabalho — e oferecer interfaces simples de programação específicias ao problema a ser tratado — por exemplo, a configuração da imagem de uma TV — de modo a que as preferências possam vir a ser expressas num primeiro momento e depois seja possível simplesmente usar um controle de poucos botões — não abdicando dos nossos gostos, mas fazendo com que a máquina os reflita.

Discussion

4 comments for “Simplicidade, complexidade”

  1. esse cara não tem MUNDO SKY HBO MAX DIGITAL.
    ele não sabe a importância suma de teclas como o “?” e o mais-que-perfeito “TV”.

    Posted by Dennis. | November 28, 2006, 1:25 am
  2. Rapaz… sabe que essa sua idéia de ajustar a imagem de acordo com as deficiências de transmissão é do caralho?

    Posted by Larissa | November 28, 2006, 9:41 am
  3. _There’s more from where that came from_. Por uma módica tarifa de consultoria ;)

    Posted by Diego | November 29, 2006, 6:24 pm
  4. Você acaba de descrever o iPod Shuffle Segunda Geração. E de descobrir os problemas da tecnologia barroca.

    Você já viu os manuais dos vídeos VHS logo anteriores ao surgimento do DVD? Uma loucura.

    Posted by Hermenauta | December 2, 2006, 4:28 am

Post a comment

You must be logged in to post a comment.