Archive for January, 2007

Crescimento

Thursday, January 25th, 2007

Não há política econômica óptima porque nem todas as políticas são criadas iguais; a intervenção estatal na economia é primeiro um efeito colateral da monetarização das economias nacionais a partir do crescimento do comércio na idade moderna, segundo, da emergência do fenômeno colonial que tem como prioridade submeter o projeto de uma nação ao de outra, terceiro da percepção coletiva de abusos de robber barons quando os rendimentos crescentes de escala da segunda revolução industrial levam a uma concentração industrial desconfortável e, finalmente, da depressão da década de 1930. Em cada um destes momentos,a política econômica tem significados e objetivos diferentes. Apenas dos anos 1980 pra cá, e apenas no Brasil, a política econômica já teve alguns papéis muito diferentes: estimular a produção de bens intensivos em capital, julgados “bons”, administrar a solvência internacional do país, e assim por diante. Um destes modelos de política econômica teve particular sucesso em seus objetivos, o da “estabilização”. Se não resolve muitos problemas, a “estabilização” é ao menos uma questão de bom gosto: em um ambiente mais sadio, a vida econômica pode se processar melhor. Nesse contexto, o anúncio do recente pacote de medidas de política industrial tem um valor simbólico profundo: sai a estabilização e entra esse tal de “crescimento”, vendido pela cultura como uma panacéia para o desconforto econômico. O problema é o seguinte: o crescimento é um mero epifenômeno contábil.

Python is soup-in-a-cup

Wednesday, January 24th, 2007

Introduction: we’ve had smarter language wars than this

Judging from the blog blog journal s — at least from Reddit, which is where I get my daily dose of blog journal — functional programming is frankly on the rise. Part of it probably is due to OOP’s failure to materalize its promise of easy-to-maintain, flexible, reusable code. Part of it is also the rise of FP-centered languages around relatively recent developments in theoretical computer science — like the MLs and Haskell, a little further away from academia, Erlang. There’s finally the visible hand of Moore’s Law making high-level languages ever more practical.

Also judging from the blog blog journal s there’s a distinct zeitgeist of rejecting “static” languages in favor of “dynamic” ones. This is partly an artifact of fast computers finally making serious work in dynamic languages feasible, but also a rejection of the Big Architecture discipline of the C ++/Java weltanschauung.

Being as easy as it is to make noise with a blog blog journal , this has led to a lot of uninformed ranting. Even Steve Yegge, who’s supposed to be a smart programmer with a track record that shames mine, has done his share of pointless rambling on how “static” languages compile to ‘hardware’, to ‘Pinocchio’-like wooden boys that aren’t “real”, while dynamic languages yield “living” software somehow.

This, of course, makes absolutely no sense.

The Either/Or approach to classifying computer languages

First of all, this dichotomy mixes up type-checking strategies with evaluation models. Dynamically-typed languages check types at runtime, while statically-typed languages do some form of type-checking that ensures no type error will arise once a program manages to compile. On the other hand, statically-compiled languages yield an executable that does what it needs to do, while dynamic languages are either interpreted — that is, require a separate runtime environment that parses source in text form — or allow some form of pseudocompiling that mangles source into some form of object code and bundle a runtime environment.

Constância

Monday, January 22nd, 2007

Quase 14 anos já se passaram desde a explosão dos SSRIs — a partir da introdução do Prozac — e da expressão “psicofarmacologia cosmética”, cunhada pelo psiquiatra Peter Kramer para descrever a possibilidade de correção química de traços menores de personalidade com a nova geração de drogas limpas. A questão é latente desde o problema de mente/corpo, mas os graves efeitos colaterais das drogas psiquiátricas a tinham obscurecido (ah, o saudável moralismo da natureza); uma nova geração destes fármacos reabriria a caixa de Pandora da discussão sobre alma/personalidade/mente/corpo. O que aconteceu de fato foi que o uso de antidepressivos para formes frustres explodiu, sem que tenha se visto uma concomitante discussão mais abstrata sobre a questão de dividir traços de personalidade humanos de traços biologicamente determinados por uma disfunção.

Baby steps with Pancito: a simple color filter

Saturday, January 20th, 2007

I was thrilled to find out about Pancito today, a simple-to-use Haskell library for functional image manipulation. In Pancito, images are functions from a Point datatype to a Colour type. Slow, but fun.

As a quick showcase, this is a simple color filter in Pancito:

module Main where
import Pancito2
import Colour
import Common
import Point
import Reprocess
import System
 

jamma j c = rgba  ((r c)/j) ((g c)*j) ((b c)**j) (a c)

getImg fn = readPpm fn square01 white;
writeImg fno func ws im =  ppm square01 ws  fno (func .  im);

main = do { [fn, fno, j]<-getArgs; y<-getImg fn ; writeImg fno (jamma (read j)) (snd y) (fst y); putStr $ "Applied " ++  j ++ "-level Jamma filter to "++fn++"; written to "++fno;}

For convenience, I also wrote a quick shell script that handles conversion from JPEG to PNM and back with NetPBM, and opens original and altered image on OS X’s Preview.

echo "1. Converting JPG to PNM…"
jpegtopnm $1 > t1.pnm
pnmtoplainpnm t1.pnm > t2.pnm
echo "2. Running Jamma plugin.."
./jamma t2.pnm t3.pnm $3
echo
echo "3. Converting back to JPG .."
ppmtojpeg t3.pnm > $2 && open $2 && open $1

This is all a horrible hack, but I’ve only worked in this for half an hour and I’m excited enough to want to share immediately. Here’s a picture of my hand:

original after jamma
manito.jpg manito2.jpg

Here’s a NSFW classic in original.jpg and jammaed version.

Sure, from a Haskell viewpoint this isn’t really that exciting — it’s all rather simple — but I’m very fond of image manipulation, and wrote 30% of a Pancito-type library before dropping it. I might just be excited that someone went through the end of it. It’s at the very least a good framework for image processing research.

Microfascismos

Thursday, January 11th, 2007

eu, honestamente, fico com a original. sou o único?

Um blog blog journal ue aparentemente galego fez-me saber deste calendário composto de fotos de mulheres normais agressivamente fotochopadas até parecerem modelos. A coisa toda tem sobretons de protesto: escolhem uma menina muito bonita, mas explicitamente fora dos moldes da indústria da foto-de-lingerie, e dando-lhe um corpo de modelo, estragam-lhe toda a graça. O comentário implícito é óbvio demais para valer a pena discutir em extensão; postula-se uma certa imposição top-down destes padrões corporais, levando à neurose generalizada. No fundo, não deixo de discordar. Curta pesquisa impromptu com algumas mulheres das minhas relações mostram que a neurose existe, e algumas expressam até vontade de se submeter ao tratamento fotochopante. O meu problema com esta tese é que o declive escorregadio para o regulacionismo generalizado é curto. A mídia de massa cria expectativas infelizes e insalubres sobre o papel da mulher e seu corpo em crianças em idade sensível, ergo regulemos na TV os padrões da Boa Mulher Brasileira?

O que as pessoas parecem ter dificuldade em admitir aqui é que esse é um problema cultural amplo, que tem a ver com o vazio intelectual, moral, ético, filosófico, enfim, no qual flutuamos. Tem a ver não só com as neuroses femininas quanto a seus corpos, mas quanto às expectativas masculinas quanto ao mesmo. Tem a ver com uma cultura exterior, uma cultura da extroversão, que valoriza o esporte mais do que o debate, o performático mais do que o íntimo, o voyeurismo mais do que a descoberta. Tem a ver, em suma, não só com o excesso de estímulos calipígios da mídia, mas principalmente com o estômago vazio em que estas mensagens caem: mentes paralisadas pelo medo de não sermos normais, nos rendemos a todos estes pequenos microfascismos que nos dizem que mais vale competir que produzir, mais vale não ser estranhado mesmo que isto nos tire a habilidade de estranhar, e que acima de tudo mais vale corresponder às mais irreais expectativas que produzimos de nós mesmos, mesmo que isto apague o que é essencial a nós e nos torne arquétipos ambulantes, com barriguinhas saradas de plástico. E quanto a isso, culpar a TV não adianta; o que vale é mudar a vida que se vive. Agora.

Numéricos

Tuesday, January 9th, 2007

O panorama humano do Impa é menos bizarro do que se pensa ordinariamente; há estrangeiros de todos tipos, alguns vindos para programas de maior duração (estes, em geral, latino-americanos) ou apenas para cursos livres no verão (em geral europeus, com interessantes exceções dos países árabes). O verão, em particular, atrai um contingente bastante pragmático — estudantes de engenharia, economia, etc. que se um pouco mais sonhadores provavelmente estariam aproveitando as férias em algum lugar. Evidentemente, há uma proporção maior de gente genuinamente peculiar por aqui, mas estes continuam sendo uma minoria um pouco mais notória.

Dito isso, o curso de Números parece atrair a maior parte das pessoas estranhas. Há aqueles que parecem estar constantemente calculando totientes, raízes primitivas e similares; andam olhando para cima e às vezes parecem deter-se para cheirar um cartaz. Há aqueles que nunca largam um bloquinho de anotações onde rabiscam furiosamente quase o tempo todo. Há os meninos-prodígio — e a teoria dos números é o ramo da matemática mais avançada que provavelmente é mais acessível a estes, pelo menos enquanto eles se familiarizam com análise, topologia e assim por diante.  A fascinação pelos números inteiros parece denunciar algo de gauche que a matemática como um todo já teve e que se perdeu porque esta é tão útil.

Plataforma

Tuesday, January 9th, 2007

A Automattic de Matt Mullenweg está se mexendo rápido em adicionar recursos que tornam seu Wordpress.com uma plataforma de interação social, mas talvez esteja esbarrando na barreira do conceito: apresentando-se ainda como hospedagem de blog blog journal ue diários, concorre com o blog blog journal ger hipster.com”>Blogspot do Google apenas em que seus templates são mais bonitos. É uma história interessante. O Wordpress (não o Wordpress.com) é uma aplicação de administração de blog blog journal ue diários escrita em PHP. Inicialmente uma dissidência do projeto mais popular de então, o Movable Type como ferramenta para publicar blog blog journal ue diários em hospedagem própria. A mindshare do Wordpress tornou-se tão forte que alguns dos fundadores do projeto de software — firmemente inserido no modelo open source, com código licenciado em GPL — decidiu aproveitá-la e criar esta hospedagem onde este blog blog journal ue diário mesmo se encontra, aproveitando o nome construído por tanta gente. Este é em parte o paradoxo das plataformas “sociais”, em geral — seu valor deriva da produção de conteúdo pelos seus usuários, que no entanto permanecem usuários e podem ser chutados ou maltratados de diversas formas a qualquer momento. É também, no entanto, o paradoxo das reputações: muita gente atendeu ao chamado de Mullenweg para desenvolver, como um projeto comunitário, um aplicativo alternativo ao Movable Type, e a maioria destas ganhou apenas no orgulho de ter participado do projeto. A Pyra Labs, criadora original do Blogspot, enfrentou grandes dificuldades durante o seu processo de desenvolvimento e quase faliu duas vezes; alavancando a mão-de-obra do open source, Matt Mullenweg foi mais esperto. E o patético é que quase ninguém na comunidade Wordpress-o-software-livre percebe isto.

O fato é que os novos recursos do Wordpress.com (a hospedagem) distanciam-no um pouco do Blogspot, em direção ao {43 words, estimated 10 secs reading time}

Haskell, bondage-and-discipline and separation-of-concerns programming

Monday, January 8th, 2007

Abstract for Haskellers:

This is a long, involved defense of purity, both in terms of what it affords us in terms of power and in how it enforces “good” programming practices.

Haskell is often defined in terms of what it cannot do: variables can’t be changed once declared, the results of IO computations can’t directly be used in functions, execution flow can’t be controlled, etc. While this characterization is strictly correct, it paints a rather ascetic, when not outright negative, outlook of the language that practitioners not only know to be misleading, but also to be the key to the great power latent in functional programming.

We discuss how and why certain “restrictive” features have become succesful in computer programming while others haven’t, and procceed to explain referential transparency and what it affords us. Finally, we conclude that adopting this particular set of “restrictive” features is useful and positive, even in contrast with the experience of non-useful “restrictions” that seem to have common characteristics.

Abstract for non-Haskellers:

This essay explains why Haskell is cool.

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Debate

Sunday, January 7th, 2007

De alguma maneira, o comportamento das pessoas freqüentemente corresponde a uma certa categoria social a que elas pertencem — diria uma classe, se não fosse um jargão tão carregado. Este é um caminho de duas vias; por outro lado, o contexto em que as pessoas se encontram inseridas determina seus padrões, e por outro estes aos poucos vão forjando a própria vida de classe enquanto tal. Dito isso, eu faço parte de uma certa juventude de classe média que debate: nas mesas, observados de longe com estranheza pelos garçons, grupos de jovens profissionais ou quase-profissionais resolvem os problemas do mundo em um par de horas de citações leves, esquemas conceituais impromptu e divisão de questões. O habitual é que as discussões se pautem sobre questões sociais prementes, levantando a dinâmica aparentemente paradoxal da análise econômica como opinião social balizada tecnicamente: as pessoas aceitam a minha análise de economista como algo autoritativo, mas a rejeitam — em parte por convicções prévias e em parte por sentir que a opinião social nunca deveria se reduzir a um critério técnico.

O grupo de ontem à noite — em si um grupo impromptu, imprevisto — foi um pouco peculiar, dentro da prática corrente desses debates. Parte disso é porque havia mais um economista além de mim à mesa; parte é que a discussão se pautou não por um problema atual, mas pelo discurso de determinados grupos sobre o tema em questão (especificamente, de uma parte vocal da direita chilena que saudou Pinochet como grande homem quando este morreu). Tocou-se, mesmo que superficialmente, o problema da estrutura da relação entre debate, discurso e prática. Há, em determinados grupos, um conceito que simultaneamente rejeito, com base em consideraçõe deontológicas, e admiro, pela coragem de uma certa visão estratégica, mesmo que equivocada, do papel do discurso. O contraponto era a idéia de que o discurso não deve se comprometer prematuramente com práticas específicas, mas visar a construir uma prática mais sofisticada, de razões teóricas mais profundas. Contra isso, eu tinha fatos sobre a dinâmica política dos últimos tempos: as últimas n corridas eleitorais latino-americanas apresentaram uma dualização bastante clara de projetos. O que é paradoxal aqui é que na questão da influência do discurso sobre a ação, a visão dos “estrategistas”, explicitamente baseada em critérios teóricos de fundo, é menos determinística do que a visão daqueles que acham que do ato de discutir deontologicamente qual é o mundo ideal surgirão as soluções políticas pragmáticas para o mundo.

Mato

Friday, January 5th, 2007

Mesmo fechada o dia inteiro, no ar condicionado, a 333 tem aquele cheiro inconfundível de umidade e cimento, de musgo furando o concreto e tomando controle da situação. O Impa foi construído no meio do mato, no topo da cidade; a forma mais fácil de chegar lá é subir indefinidamente até reconhecer o prédio. Quando o dia está bastante nublado, a paisagem lá de cima lembra as montanhas do exterior de Doom; em dias de maior visibilidade, a civilização conquistada ao mato tem uma certa aura de romance de aventura à Julio Verne, de uma pequena sociedade tentando acontecer no meio do nada.

O mato tem, para os habitantes do Impa, uma conotação diferente do que tem para certos regressivistas: o que importa não é o verde, mas o fato de que ele é conquistado para o nobre fim do isolamento ascético. O mato é algo que filtra pela inconveniência, e conquista pelo contraste: à beira do verde apenas interrompido pelas jacas e pelos macaquinhos, do lado de dentro das grandes janelas da sala de café, vive-se a vida no abstrato, fora do mato, do cimento, da cidade e do mundo.

333

Thursday, January 4th, 2007

A 333 é uma salinha pequena, com quadros-negros em paredes perpendiculares, onde decidiram alocar o curso de teoria dos números este verão. É curioso; há poucos cursos nesse horário, e essa é certamente a disciplina mais acessível do mestrado, bastando noções de álgebra “abstrata” — anéis, grupos, etc. Não é que eu não imagine que logo no IMPA sejam incapazes de rodar um bom algoritmo de otimização combinatória que resolva o problema das salas bem, mas, entrando e saindo de cursos em salas grandes com alguns gatos pingados, é surpreendente ver uma salinha escondida no terceiro andar, misturada entre as salas de professores, apinhada de gente dos 12 aos 72 anos, olhando compenetradas para um professor que parece estar apenas um pouquinho fora do ar enquanto prova fatos básicos — ainda surpreendentes para um noviço — sobre o anel dos inteiros módulo um primo.

Tenho a impressão que sub-estimam a demanda pelo curso de números. É bem verdade que é uma disciplina abstrusa e tão distante da matemática dita “aplicada” quanto um corpo amplo de teoria consegue ser. Há aplicações — a robustez da criptografia depende de encontrar primos grandes — mas a teoria da estrutura dos números inteiros a partir de seus componentes primos é antes de tudo um grande passatempo matemático que parece visar a resolver as fantasias de infância de crianças que observam números. Por isso, também, atrai a grande maioria dos cranks; é difícil ver amadores confusos tecendo observações informais inválidas sobre a teoria geométrica das folheações ou os difeomorfismos de Anosov: o que eles têm são atalhos inúteis para a conjectura dos primos gêmeos (números primos que distam dois entre si, como 11 e 13), ou pior, idéias sobre como números altamente compostos podem mudar os rumos da economia mundial. Com problemas aparentemente inúteis, fáceis de entender e dificílimos de resolver, é natural que a teoria dos números seja o ramo mais atraente da matemática pura. Eu não sei se a direção acadêmica do IMPA, que há tempo demais sabe o que é um difeomorfismo, entende a fascinação de um leigo pela estrutura dos números inteiros.

Bourbakismo

Thursday, January 4th, 2007

Uma das cartas do matemático Carl Ludwig Siegel afirmava, com todas as letras, que “a degeneração da matemática começou com as idéias de Riemann, Dedekind e Cantor, que progressivamente reprimiram o gênio confiável de Euler, Lagrange e Gauss”. A matemática — mais ainda que as outras atividades do espectro acadêmico — é dada a fantasiar que sua história é um fluxo contínuo, mas os sabores se deixam sentir — de Euler para Dedekind, deste para Hilbert, deste para Bourbaki. Conversas com matemáticos vagamente desajustados em relação a profissão (um largou a carreira com a graduação, outro com o mestrado, numa profissão onde a expectativa sempre é chegar ao doutorado) mostram, no entanto, que há insatisfação em relação ao bourbakismo — a essa idéia de que um livro de matemática é uma lista de teoremas e o matemático uma máquina de prová-los.

Esta idéia deve ser qualificada dentro do contexto de absoluta centralidade do rigor formal na matemática — coisa que não aparece nem nas ciências mais puras, nem mesmo na física. O trabalho do matemático deve ser formal e demonstrado até a última gota — pelo menos até o melhor que já foi demonstrado anteriormente. Não há passes de mágica. O que se questiona, no entanto, é a teleologia do teorema. Em todo o trabalho de Euler e Gauss, nota-se uma ênfase pela estética (uma espécie de kalokagathía platônica) que desaparece na abordagem mais programática de Dedekind. Euler prova a convergência de séries infinitas hoje clássicas; Dedekind inventa um argumento para a continuidade dos reais cuja beleza é difícil de ver fora de um contexto ultratécnico. Parece mais fácil, com estas qualificações, ver a desilusão com a matemática de alguns matemáticos: mais forte do que qualquer programa teórico da filosofia da matemática é o panorama humano onde a matemática se perde no tecnicismo. Por sorte, não são todos.

Risco

Thursday, January 4th, 2007

Evidentemente, boa parte do que faz o índice EMBI (o popular risco-país) cair tão vertiginosamente é que a ameaça latente das esquerdas não fazerem o dever de casa parece cada vez mais eliminada, à medida em que as vertentes mais ‘desenvolvimentistas’ do pensamento econômico nacional vão ganhando espaço sem que isso em nenhum ponto sinalize uma ruptura do consenso básico de austeridade monetária e fiscal. Não esqueçamo, no entanto, que este índice é um delta: a diferença entre o risco de perder valores em títulos da dívida brasileira e da dívida americana.

O risco de desvalorização nesta, claro, aumenta à medida em que a expansão monetária americana continua. Por um lado, porque a inflação assombra os americanos como uma foice num pêndulo, não tendo chegado ainda em parte porque a parte domesticamente percebida da expansão monetária tem sido dirigida ao investimento em ativos de capital. Por outro, os bancos centrais do mundo estão entupidos de dólares; uma transição gradual deveria permitir que o valor destes se enfraqueça lentamente, mas os mercados financeiros são dados a mudanças bruscas de fase. Em suma, o risco da dívida americana sobe, e no entanto pela metodologia dos índices de risco-país é por definição zero. E eis que a guerra do Iraque produz, mesmo que artificialmente, boas notícias para Lula.

Contexto

Thursday, January 4th, 2007

Se a existência é planar, o contexto é impossível. A idéia de contexto implica em que é possível reconstruir algo a respeito da localização de um ponto de informação, tirado da reta em que dois planos de existência — de duas pessoas — se cruzam.

Em defesa do contexto, é raro que se encontrem duas pessoas sem absolutamente nenhuma referência em comum — sem nenhuma informação a respeito de nenhum outro plano com a qual as das se cruzam. A própria linguagem é um pouco isso; a cultura o é mais, e desconfio que boa parte das crises existenciais da minha geração se devem a uma imensa falta de leituras. Existem, afinal, transformações que levam figuras complicadas para retas, e um pouco através das leituras a gente desata esse problema de sair de casa e encontrar pessoas que vivem num plano existencial todo próprio.

Idéia

Thursday, January 4th, 2007

Não existe uma boa forma de delimitar uma idéia. Tomado em sentido estrito, o problema tem soluções que saem como produto colateral da lógica contemporânea — combinadores S e K, por exemplo. Mas a “idéia” da fala ordinária não é o componente básico do raciocínio enquanto noumenon, mas um bloco de narrativa com um centro de gravidade só: um pacotinho de pensamento com um rótulo curto.

Propor-se a escrever uma idéia de cada vez é, portanto, um exercício amorfo de juízo. Se o problema de delimitar a idéia é indefinido, o ato de escrevê-la enfrenta o problema mais grave da codificação. No fundo, o ato narrativo ocorre na interseção entre dois planos existenciais, duas pessoas completamente diferentes que se encontram e adquirem informação mínima sobre o que se passa na cabeça da outra pessoa.

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