Não há política econômica óptima porque nem todas as políticas são criadas iguais; a intervenção estatal na economia é primeiro um efeito colateral da monetarização das economias nacionais a partir do crescimento do comércio na idade moderna, segundo, da emergência do fenômeno colonial que tem como prioridade submeter o projeto de uma nação ao de outra, terceiro da percepção coletiva de abusos de robber barons quando os rendimentos crescentes de escala da segunda revolução industrial levam a uma concentração industrial desconfortável e, finalmente, da depressão da década de 1930. Em cada um destes momentos,a política econômica tem significados e objetivos diferentes. Apenas dos anos 1980 pra cá, e apenas no Brasil, a política econômica já teve alguns papéis muito diferentes: estimular a produção de bens intensivos em capital, julgados “bons”, administrar a solvência internacional do país, e assim por diante. Um destes modelos de política econômica teve particular sucesso em seus objetivos, o da “estabilização”. Se não resolve muitos problemas, a “estabilização” é ao menos uma questão de bom gosto: em um ambiente mais sadio, a vida econômica pode se processar melhor. Nesse contexto, o anúncio do recente pacote de medidas de política industrial tem um valor simbólico profundo: sai a estabilização e entra esse tal de “crescimento”, vendido pela cultura como uma panacéia para o desconforto econômico. O problema é o seguinte: o crescimento é um mero epifenômeno contábil.
A metodologia estatística do cálculo do PIB — o agregado contábil que é escolhido como maximizando nesta ideologia — é em si ad hoc, dependendo de uma álgebra pouco formalizada de números-índice; o cálculo do PIB real, que desconta as variações de preços é mais arbitrário ainda, e tomar o que seria uma variável técnica de diagnóstico útil como o objetivo máximo do planejamento econômico do país beira a obscenidade. Crescimento real só significa que está se produzindo mais de coisas que custavam caro ano passado. O fato é que entre a não-ergodicidade da trajetória da estrutura produtiva da economia, a crescente urgência do problema da fixação hedônica de preços e a dificuldade quase psicanalítica de dissociar velhas fantasias semifálicas (”Brasil graande”) dos reais interesses econômicos a que o planejamento central deveria servir, opções políticas profundas estão sendo tomadas, mascaradas na balela do crescimento. O país já fez uma experiência similar antes, vindo a amargar um completo colapso cujo preço pagamos até hoje, além de distorcer as estruturas de incentivos presentes na economia de modo a criar uma cunha dificílima de sobrepor entre ricos e pobres. Em outras palavras, mesmo que só nos preocupemos com a questionável obsessão pelo “social”, projetos de desenvolvimento baseados em setores de ponta geram mercados de trabalho duais — ou seja, Belíndias. Essa TOC do crescimento mascara políticas redistributivas quase explícitas e ignora todas as outras variáveis que compõem o bem-estar material de uma sociedade. O pior é que nós, economistas, estamos no jogo.
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\o/
não sei pq mas me lembra o Veblen (talvez pq foi a única coisa q eu aprendi semestre passado em economia).
pra mim economia só serve para que você perceba como todo ciclo ou é deterministicamente vicioso ou é deterministicamente virtuoso.
eu tb não entendo qual é a do PIB real. tipo, pq corrigir uma coisa já pouco precisa com outra menos precisa e bem duvidosa? é q nem a minha revolta de qdo eu era criança: eu achava um absurdo só falarem qual era a alta e a baixa da bolsa de valores… quer dizer q quem não viu como começou a bolsa nunca vai saber quanto tá de verdade? só se subiu ou desceu? (eu sei, foi uma comparação meio obtusa, mas enfim).
Ahm, pois é, eu comentaria alguns pontos específicos do PAC, mas esse não é o ponto. Eu imagino que uma das distorções conceituais problemáticas envolvidas é a confusão entre “crescimento” e “desenvolvimento” — em especial quando se fala em “crescimento do PIB”, como você bem mencionou. Enquanto o “desenvolvimento” não parece tão explícito em uma agenda “estabilizante”, parece mais evidente noutra de “crescimento” — é um apelo, enfim, e imagino que não seja exclusivamente eleitoral. Há quem acredite genuinamente nisso, como há quem acredite que com taxas de juros menores o país “cresce” e isso é “bom”.
O problema é que eu escrevi esse comentário entre episóidios de seriados idiotas, e não sei se ele continua ou não. A ver.
mas existe uma idéia econômica de “desenvolver” de fato fora da literatura marxista?
Você é um agente provocador. Só o que te salva o pêlo é o fato de que este, evidentemente, é um post conceitual.
Tipo assim, tu já ouviu falar de proxy?
De qualquer modo é um erro falar que o “crescimento” é uma meta (no duro) do PAC (apesar do seu próprio nome). Parte expressiva do programa (incentivo à construção civil) visa claramente a aumentar a proporção dos salários no PIB _ o que pelo menos é de se esperar em um governo “labour”.
Eu concordaria, em aparência, com a parte final, do dualismo. Mas acho que te escapa a parte política. Eu já disse que o programa da TV Digital não tem porra nenhuma a ver com crescimento, e sim com a comunicação social do governo, mas parece que você não acredita, ó herege afastado da Verdadeira Fé.
Outra coisa, o pacote prevê uma agenda de reformas institucionais. Mas elas virão depois a conta-gotas. O sequenciamento das reformas não é determinado só pela racionalidade econômica, mas também pela viabilidade política _ não adianta nada você ter um ótimo programa econômico que será detonado no Congresso.
Eis porque, aliás, “teoria econômica” é diferente de política pública.
hehehe.
Larissa:
A minha agenda é mais “bem-estar econômico” do que “desenvolvimento”; esta última é uma categoria ideologicamente carregada, que assume que precisamos mudar muita coisa, possivelmente de maneira dolorosa, antes de estar “bem”. “Bem-estar” é simples o suficiente para manter em aberto uma série de alternativas que uma sociedade pode, sim, estar disposta a considerar: especialização em matérias primas, estagnação econômica + decréscimo populacional, um welfare state pesado mesmo que com menos crescimento (como é o modelo sueco), enfim.
Dennis:
Bom, como eu estava dizendo, “desenvolvimento” é uma categoria de transformação. Assim sendo, diversas utopias — diversos ideais profundos de sociedade — trazem diversos conceitos de desenvolvimento. Mas para uma abordagem basicamente ortodoxa dessa questão, vide o Amartya Sen.
Hermenauta:
Ei. Você quer aumentar a participação dos salários no PIB? Aumente a taxa de juros.
Antes do Dilúvio eu andava trabalhando com séries temporais pra detectar substituição técnica em resposta ao custo do capital. Espero recuperar a estabilidade (hehe) emocional requerida pra voltar a trabalhar em coisas sérias soon
Bom, pra começar, proxy é algo que você usa ao estimar uma equação quando não tem acesso a um dado difíicl de mensurar. Por exemplo, eu posso usar a participação das mulheres no PIB como uma proxy da liberdade política/moral de que elas gozam num país. Este mesmo exemplo mostra que usar uma proxy como maximizando na esperança de otimizar a variável imensurável é tolice. Você está sendo vítima do que o sociólogo Daniel Bell chamava de Falácia de McNamara.
O fato é que se este é um governo labour tentando aumentar a participação do trabalho no PIB, então deve usar, como uma das variáveis de objetivo, a participação do trabalho no PIB! Quer dizer, para um conceito mais ou menos fuzzy de “desenvolvimento” para o qual se pode argumentar que o PT recebeu o mandato para implementar, dá pra construir uma função de objetivo que pondere desemprego, participação do trabalho no PIB, IDH, variância do IDH, Gini, etc. etc.
Isso é teoria econômica abstrata? Até é. O que este texto faz não é de nenhuma maneira discutir os méritos concretos do PAC, que ainda não analisei porque não tenho estado muito “economista”, mas — como tem sido a linha do blogue ultimamente — tentar desmontar essas caixas-pretas que a cultura apresenta e nós propagamos passivamente.
Mais uma vez, a “política” e a “sociedade” que me interessa são os leitores do blogue, e as pessoas com que estes conversarão sobre o assunto, yadda yadda yadda. O que eu estou fazendo é a crítica micropolítica do ideal do crescimento.
Ahm, sim, concordo que é ideologicamente carregada, mas não que sirva a uma ideologia só — como você mesmo afirma (aliás, o conceito de bem-estar se enquadra na mesma crítica, eu acho, embora sob uma ótica diferente). O próprio Armínio Fraga vive dizendo: “que economista não quer desenvolvimento?”, numa pequena revolta da qual partilho contra a tal auto-denominação heterodoxa.
E discordo também que seja necessária uma mudança “dolorosa” no contexto de desenvolvimento. Quando eu penso, particularmente, em Estado+desenvolvimento+Brasil, penso basicamente em políticas públicas de educação, saúde, infra-estrutura básica, ficando apenas em um nível distributivo de renda, por assim dizer. Isso não tem uma conotação de dor “econômica”; possivelmente política, aí sim.
De qualquer forma, you missed my point. Eu não falei na sua agenda ou na minha agenda, mas numa confusão conceitual que leva à tal fantasia semifálica que você menciona; as pessoas, afinal, não estão interessadas em ver uma meia dúzia de 5 crescendo horrores (minha empregada diz: “esses caras aí todos falam, falam que cresce assim, que cresce assado, mas não muda quase nada na minha vida desde que eu nasci”), mas sim em ter alguma oportunidade de sair de seu próprio buraco. Claro que houve improvements de bem-estar, já que você mencionou a questão: buraco com DVD é melhor do que sem, eu acho. É aí que entra, inclusive, o mérito da tal agenda de “crescimento”: eu ainda estou entre os 10% mais pobres, mas agora eu como frango.
Eu tinha um comentário a fazer no post anterior. Você deveria ter deixado para escrever esse post amanhã ou segunda. Agora estou brocha.
Já parou para pensar que talvez a idéia seja mesmo um “welfare state pesado com baixo crescimento”?
A rigor, não acho isso, mas acho que se o nosso governo tiver que escolher entre crescer e aumentar a desigualdade ou crescer menos e diminuí-la, não piscará.
O PT surpreendeu no primeiro mandato porque muita gente achava que o partido, por causa de seu berço sindical, não estaria nem aí para os desincluídos. Mas criou o bolsa família. Agora, fez um pacote, repito, bem “labour”, com regra de indexaçào do SM, e incentivo à contratação de mão de obra pouco especializada na construção civil.
O IPEA é hoje um tambor que só ecoa um ritmo, o do crescimento pró-pobre, que é o crescimento que atinge principalmente os pobres. E essa é uma decisão política. Eis a razão pela qual acho que seu post mirou nas árvores e perdeu de vista a floresta.
Se quer saber, acho que há dentro do partido quem acredite que esta trajetória cria irreversibilidades que modificarão a função objetivo da política brasileira, no sentido de que pode criar uma resposta eleitoral que inviabilize propostas políticas (= plataformas de governo) concentradoras de renda. É perigoso, é provável, mas pode dar certo.
Só mais uma coisa:
Entendo que sua preocupação com o crescimento é metafísica.
Por isso mesmo, gostaria de ressaltar que independentemente dos voleios metodológicos que se possa ressaltar, a verdade é que do ponto de vista do contemplado pelas políticas pró-pobre o crescimento é palpável, mesmo que sua opinião não seja compartilhada pelas “zelites”.
Focar no pobre em um país onde a maioria é pobre dá nisso.
Larissa,
Eu às vezes tenho a impressão que o desenvolvimento é a “casa no subúrbio” do economista, o sonho compartilhado opressivo — como é o casamento para certas moças sem a menor vocação para tal. Eu imagino o Armínio dizendo isso um pouco como posição compartilhada irrefletida e um pouco como concessão política também. No dia em que um economista sair assinando o nome e o sobrenome em algo dizendo que o desenvolvimento talvez não importe…
Você se agarrou à coisa da “dor”. Esta vinha acompanhada do advérbio “possivelmente”, e eu não penso de fato que “dor” seja uma característica inevitável de um processo de desenvolvimento. O que eu sustento é que “desenvolvimento” é uma categoria de transformação. A palavra sugere um novelo de lã que se desenrola ou um presente que se desembrulha: existem sociedades “desenvolvidas”, que já desfrutam das benesses do progresso, e as sociedades “envolvidas”, que continuam tentando desatar o laço do presente da prosperidade.
Ora, a principal vantagem de uma educação econômica ortodoxa como nós tivemos é desmontar essas explicações fáceis da prosperidade e do bem-estar econômico. O fato é que existe, sim, a possibilidade de que estejamos todos better off se o país passar por um processo de “reenvolvimento” agroexportador. Afinal, algumas mazelas importantes do cenário atual são a incapacidade de um terço da população brasileira de se inserir, mesmo como capacho, nessa economia modernosa que a ditadura plantou, e a dificuldade que temos em competir com parques industriais mais flexíveis, que produzem mais inovação, enfim.
Talvez a ditadura militar tenha posto uma carcaça de Land Rover em cima da bicicleta que era o Brasil; propõe-se agora que o “crescimento” voltou à pauta adicionar direção hidráulica.
Evidentemente, o crescimento econômico é, sim, um dos principais fatores do desenvolvimento, e o desenvolvimento provavelmente é um dos principais propulsores da melhoria do bem-estar econômico e da prosperidade material na nossa sociedade. É neste sentido que eu não vejo problema na autodenominação daquela corrente heterodoxa: eles são economistas que acham que o principal problema aqui é promover o desenvolvimento, onde correntes mais ortodoxas podem achar que o desenvolvimento é um epifenômeno do aumento da eficiência, por exemplo.
Eu espero que a Ma. da Conceição Tavares esteja viva ainda quando a singularidade chegar. Ela vai berrar, berrar, berrar, até os povos dos planetas vizinhos vão conseguir ouvir!
A minha preocupação com “crescimento” é mais cultural do que metafísica. Eu não miro nas árvores, miro nas assumptions dos homens que plantam as árvores. Eu digo, sejamos objetivos, ora. Se o problema é desemprego, alvejem-se metas de desemprego. Aliás, será que algum país “desenvolvido” acompanha dados de crescimento do PIB com mais avidez que os do desemprego?
Dito isso, a crua verdade é que (como não cansa de dizer o José Márcio Camargo) o país pode crescer 50% ao ano pelos próximos 50 anos e continuaremos tendo mais ou menos 30% da nossa população num estado de absoluta miséria. Esse é o efeito da cunha que o “desenvolvimentismo” da ditadura militar plantou em nossa sociedade.
O fato é que a melhora nas estatísticas de distribuição de renda e pobreza não é conseqüência do “crescimento” dos últimos anos, que é pífio, mas de um efeito estatístico conhecido como “alavancagem”: os dados nas pontas afetam muito mais as médias — e outras estatísticas descritivas — do que dados mais próximos do meião. Dê um pão e um litro de leite a esses miseráveis por aí e as estatísticas melhoram muito mais do que se tivéssemos um processo de aprofundamento equivalente do progresso econômico nas zonas urbanas. Nesse sentido, o Bolsa Família — que não é criado por este governo, veja, mas é uma perversão de um antigo programa de erradicação do trabalho infantil — é um golpe estatístico.
O que é curioso é que estando aí nas trincheiras você responde muito mais ao discurso superficial do governo (”crescimento pró-pobre”, “sociedade mais justa”) do que nós aqui fora, que só temos os números pra olhar.
Ah. “Welfare state” não é um Estado redistribuidor de renda, veja. É um Estado que mantém uma rede de proteção social: seguros-desemprego generosos, grande investimento em saúde e educação pública, uma política de assistência social agressiva (eu aposto que na Suécia é mais fácil perder a guarda de um filho que aqui), investimento em cultura — TVs estatais fortes promovendo intermináveis sessões de teleteatro, por exemplo, etc. etc. É toda uma concepção do papel do Estado como um pai-de-todos.
Eu tenho atitudes morais ambíguas em relação ao welfare state. Em dias mais kantianos/foucaultianos, eu sinto que vários dos luxos de um modelo desses são desejáveis, embora o modelo como um todo só seja bom para uma sociedade mais unitária e mais desenvolvida. Em dias mais anarco-capitalistas, claro, eu acho que até o plebiscito das armas foi uma tentativa de oprimir a Liberdade yadda yadda yadda.
Ahnnn…
Sorry, man. Eu não estou respondendo a um discurso superficial, estou respondendo a números tanto quanto você. É só uma questão de olhar os números certos. Dê uma olhadinha lá na página do IPEA faiz favor. Como se não bastasse, aliás, o resultado das eleições.
Depois, não consigo ver como é que um Welfare State pesado não seja um mecanismo de redistribuição de renda. Mas na pior das hipóteses acho que você teria que conceder que o caminho que nos leva do que temos hoje a um welfare state pesado só seria trilhado com redistribuição de renda.
Finalmente, acho que um país como o Brasil, com 200 milhões de almas, só poderia ficar better off a partir de um modelo agroexportador com ampla redistribuição de terras. Uns sete palmos pra maioria.
Diego, eu concordo com você quando você faz sua analogia do Land Rover sobre a bicicleta-Brasil; contudo, veja, isso é um modelo de desenvolvimento top-down, digamos assim, e não bottom-up, como um que tenha distribuição de renda em sua base. Neste ponto, aliás, a não ser que você redefina Welfare State, não há como concordar com você quanto a este não se tratar de um estado redistribuidor de renda; pipocas, saúde e educação pública de qualidade são o quê?
A sua observação sobre o reenvolvimento agroexportador é até interessante a título de exemplo, mas, a respeito disso, estou com o Hermenauta em seu último comentário.
Hermenauta,
Espera. Um welfare state pesado tem um efeito de redistribuir renda, mas não *é* um mecanismo de redistribuição de renda. Como quando você falou de “variável proxy”, você está confundindo correlações com relações causais.
Ora, isto é uma questão importante porque — para um mesmo problema diagnosticado, e eu não tenho certeza de concordar com o diagnóstico — existem dois tratamentos bastante diferentes aqui, um mediado pelo welfare state conforme descrito acima e um de distribuição de dinheiro tout court. Aliás, existem boas razões de teoria ortodoxa para preferir esta segunda alternativa.
Quer dizer, é evidente que a distribuição de renda modificou-se nos últimos anos, mas “crescimento pró-pobre” é só um slogan. Ora, por um lado, estatísticas de sumário (quantis do tipo “20% mais pobres/20% mais ricos”, Gini, médias, dispersões, enfim) têm uma tendência a ser hipersensíveis aos dados nas pontas, e os trinta merréis do Bolsa Família entraram *bem* alterando os dados nas pontas. Por outro, o crescimento dos últimos anos é basicamente exportador, apoiado na demanda internacional aquecida, e tem sido suprido pelos mecanismos habituais do mercado de especializar-se onde há vantagens comparativas — no Brasil, em linhas de produção mais intensivas em mão-de-obra de baixa qualificação.
O fato é que um projeto planejado de crescimento baseado em setores de “ponta” (de “alto valor agregado”, como você disse no seu blogue) tende a privilegiar setores intensivos em capital e mão-de-obra muito qualificada — que é de onde sai a “economia dual” que vivemos no Brasil agora! Eu pergunto, o que faz você pensar que interromper o mecanismo que tem produzido o tal do “crescimento pró-pobre” é em si um plano pró-pobre? As migalhas jogadas à construção civil? Mesmo esse um setor é bem mais intensivo em capital do que essas linhas exportadoras de botão de osso que têm empurrado o crescimento até aqui.
Quer dizer, esta sub-discussão surge porque você parece querer dizer que o projeto específico de desenvolvimento pelo qual se opta através do PAC é o “natural” dado “o resultado das eleições”.
C’mon, Hermenauta, eu sei que você não está missing the point entirely.
Hey, man.
Na semana próxima começam as minhas aulas de economia, oh good heaven!
A meu ver, *sua* interpretação do que é e para que serve um Welfare State é que está em deficit. Para não torrar mais a paciência do pobre leitor que nos acompanha, basta sugerir que se busque suas origens históricas, ora: a burguesia entregando os anéis para não ter que entregar os dedos.
Quanto ao “crescimento pró-pobre”, independentemente de alguém usá-lo com um slogan ou não, creio que você está misturando as estações. Basta ir lá na página do IPEA faiz favor e ler uma das notícias em destaque: “Redução recente da pobreza se deve à desigualdade, não ao crescimento”.
No mais, refrasearei meu argumento. Pelo que eu entendi do post sua intenção foi descer a lenha no PAC com base na idéia de que o “crescimento” é uma miragem no deserto, e que ele está errado em apostar em uma estratégia que promoverá um mercado de trabalho “dual”.
Essencialmente, o que eu digo é que o “crescimento” não é realmente o grande alvo desse pacote, muito menos “desenvolvimento”. E que seus objetivos são políticos: sim, uma boa parte da população sentirá seus efeitos no bolso, graças a alguns incentivos para setores intensivos em mão de obra pouco qualificada. Sim, as benesses para a TV digital assegurarão que esse sentimento seja retratado como tal pelas TV´s. E finalmente, até concordo que o pacote para semicondutores não vai surtir muito efeito porque acho que há outros elementos intervenientes (vicissitudes da cadeia global de componentes, estratégias dos fabricantes etc) (mas veja a beleza da coisa, que é dar isenções fiscais para um setor que não existe…). Mas também estou te dizendo que sua análise patina por não entender o contexto político da coisa _ que é o seguinte, mesmo que Lula esteja a fim de limpar o caminho mais à frente fazendo algumas reformas mais “doloridas” como a da previdência, ele não queria começar o seu segundo mandato sob este signo. Pode haver sabedoria política aí, nem digo partidária, mas do ponto de vista da governabilidade, i.e., da capacidade de fazer _ um detalhe que economistas que vivem nas torres de marfim universitárias tendem a esquecer.
Hermê,
Quanto ao welfare state, bom, você pode ser cínico à esquerda e dizer o que você disse, ou ser cínico à direita e dizer que os políticos aproveitaram uma chance de ouro — a Depressão — de aumentar seu poder e império (o argumento Roosevelt-Hitler). Escreverei mais sobre isso em breve.
Quanto a setores mais intensivos em mão-de-obra pouco qualificada, não se deixe enganar por uma certa miragem que coloca “mão-de-obra qualificada” contra “não-qualificada” como o único trade-off na caracterização técnica de um processo produtivo. Intensividade em capital importa, e a maioria dos setores intensivos em mão-de-obra altíssimamente qualificada são também pouquíssimo intensivos em capital, o que pode ser uma coisa boa para estepaiz tão seco por bufunfa. Recomendo uma review de um bom manual introdutório de micro marginalista para precisar melhor estas questões de “intensividade em recursos”. Se você quiser, depois eu te mostro umas equaçõezinhas simples com uma Cobb-Douglas.
Quanto ao post, o que eu tenho feito de uns três textos pra cá é fazer uma crítica da cultura. Instalou-se nos nossos melhores meios pensantes uma cultura do “crescimento”, que no entanto é um mero epifenômeno contábil. O caso do mercado de trabalho dual é só um exemplo; cito-o porque é mais fácil de explicar, porque não depende de longas digressões de teoria política — explicando interesse coletivo/interesse individual, teorema de Arrow, etc. — e porque é de fato algo que aconteceu nestepaiz de forma dramática e que afeta nossas vidas toda vez que temos medo que um trombadinha em Copacabana roube nosso iPod.
O fato é que todo esforço concentrado de planejamento econômico é um suave jogo político, e ninguém nega isso. As coisas acontecem pela política, e para entender como acontecem e tentar prevê-las, é preciso entender a política. Só que apesar de suas inúmeras imperfeições — e essa é uma das razões pelas quais tenho uma forte veia anarco-capitalista: a realpolitik fede muito mais que o capitalismo mais selvagem — a política responde a um cenário sociológico, a um cenário cultural. Ora, Lula foi eleito pra fazer o país “crescer” porque foi julgado como o mais competente pra fazer isso (basicamente porque a demanda aquecida do exterior puxou o Brasil pra cima), e o mandato do crescimento é propagado passivamente pela cultura — entre o presidente que todos os dias promete crescimento e os editoriais da Folha que exigem crescimento todos os meus dias.
O meu ponto é que “crescimento” é um sumário contábil que pode expressar muitas coisas diferentes e ainda esconder mais. Num mundo de demanda aquecida como o atual, é possível que o reenvolvimento agroexportador maximize a taxa de crescimento, mas isso não interesssa a /mim/ pessoalmente — eu quero é mais que os setores de mão-de-obra altamente especializada se expandam, porque eu gosto de teoria de categorias e detesto vacas.
A questão é que se o papel do Estado como formulador de políticas públicas de intervenção na economia é posto como dado — e eu não estou vivendo na minha utopia anarco-capitalista, mas lidando com as coisas como elas são — então a sociedade precisa ter clareza dos conflitos redistributivos implícitos nessas decisõezinhas todas. O fato é que a obsessão com “crescimento” e “desenvolvimento” mascara esses fenômenos redistributivos que acontecem em qualquer plano de política industrial. Nós precisamos definir nossos objetivos com clareza: desemprego, desigualdade, etc. etc.
Pra mim, o estímulo à construção civil beneficia mais à Gerdau do que ao trabalhador não-qualificado.
Ahhnnnnnnnn……..
É difícil trabalhar com alvos móveis. Bem, é claro que há setores de mão de obra qualificada com baixa intensividade em capital. Mas quem colocou a situação oposta na mesa foi você ao criticar mercados de trabalho duais criados por uma ênfase em semicondutores (uma indústria que não é pouco intensiva em capital nem aqui nem, bem, na China). Eu, particularmente, sempre achei que o BNDES tinha que colocar uma grana (e nem precisa ser muita, indeed) em coisas como design, principalmente para mobiliário e jóias (dois setores que aproveitariam magnificamente matérias primas nacionais, aumentando seu, er, VALOR AGREGADO), e quem sabe em audiovisual (desde que com ótica industrial e não “de arte” - raros países têm os atrativos locacionais que o Brasil tem), mas raios, estávamos falando do pacote em si.
Talvez antes de continuarmos a discussão você precise dar uma olhada em qualquer manualzinho introdutório de ciência política e conferir o conceito de “muddling through”.
Aí você perceberá que o buraco está bem mais embaixo do que da tarefa simplíssima de “definir objetivos com clareza” _ simples, pois fora das torres de marfim a realidade é capaz de te mostrar uma ampla abundância de objetivos, ehehe.
Evidentemente, a sociedade não tem “objetivos”, via teorema da impossibilidade de Arrow. É por isso que eu me oponho terminantemente a qualquer política industrial. Eu só estou apontando furos às políticas que você propõe como interessantes.
Não, não estávamos falando do pacote em si. O texto não menciona a palavra “PAC” at all, aliás.
Quanto ao resto, eu sugiro que veja o primeiro filme do Friedman, o “The Power of the Markets”. No fim, você está propondo que se faça o que já acontece por si só: os países tendem a se especializar naquilo em que têm vantagens comparativas.
Este é um outro exemplo nefelibático. Quer o Prof. Arrow queira ou não, o processo eleitoral tem um output que é uma nova “agência”. E ela tem objetivos.
Quanto ao PAC, bom, cito ipsis litteris o texto do post:
“Nesse contexto, o anúncio do recente pacote de medidas de política industrial tem um valor simbólico profundo: sai a estabilização e entra esse tal de “crescimento”, vendido pela cultura como uma panacéia para o desconforto econômico.”
Para terminar, me parece que você ainda tem um certo caminho a trilhar até entender que há fortes motivos pelos quais, muitas vezes, um país é levado a NÃO se especializar naquilo em que tem vantagens comparativas, simplesmente porque muitas vezes os mercados não levam a õtimos espontaneamente, o que é uma grande parte do problema.
Peraí. O lance das vantagens comparativas não depende nada da eficiência dos mercados — a não ser no sentido de que alguns bens são não-tradable. Quanto a este detalhe, Blanchard (1999) discute um pouco a dinâmica de bens não-tradable; eu te passo a PDF quando você entrar no gtalk.
Vantagens comparativas significam simplesmente que, na ausência de barreiras *domésticas* à importação, os países fazem … aquilo que eles fazem relativamente bem. Ninguém está dizendo que isso implica em alocação ótima dos investimentos no longo prazo, o que parece ser o ponto onde políticas industriais voltadas para comércio exterior parecem agir. Nós só estamos dizendo que agora, em t=t0, os países produzem aquilo que eles estão produzindo melhor do que o mundo tem para oferecer. *Mais nada*.
O que depende da eficiência dos mercados é o uso do crescimento do PIB como medida de conforto econômico: a economia produz um vetor de bens, e para resolver o problema de produzir um sumário numérico disso, pondera-se pelos preços — o que só é uma boa idéia se os preços refletirem as utilidades marginais relativas (algo que só acontece no equilíbrio geral).
Quanto à citação, note o termo valor simbólico; consista no que consistir, o PAC endossa o meme do crescimento como objetivo último do planejamento econômico.
Finalmente, quanto ao teorema de Arrow, o que ele está dizendo é que “interesse coletivo” não é um conceito consistente, e independente do que acontece na realpolitik, não há forma consistente de agregar as preferências dos cidadãos num objetivo implícito. Por isso, os governos deveriam fazer — nós deveríamos cobrar dos governos que façam — explícitos esses objetivos.
Eu estou falando de cultura, Hermê. Quantas vezes vou ter que repetir isso? Estou falando da meme do crescimento e de como somos levados a apoiar idéias com conseqüências não-triviais como se fizessem algo em nome de um tal de interesse coletivo que incidentalmente não existe.
Nós, que somos instruídos, devemos manter claro e deixar claro que não há objetivos sociais simples e que qualquer planejamento central envolve um nada suave reembaralhamento do processo espontâneo da sociedade.