Todo bachiano tem suas fases duais de obsessão pela 1080 (a Kunst) e pela 988 (os diferenciaisas variações Goldberg). Aliás, um verdadeiro bachiano aventura-se ainda meses intermináveis pela 1079 (a “Oferta”) e a série dos concertos Brandenburgo (1046, 1047, 1049, 1050, 1051). Eu não só não cheguei a esse requinte, como tive certa rejeição primária aos Brandenburgo, que pareceram-me algorítmicos. Mas tive as minhas fases radicais com a 1080 e a 988. Esta última cultivei apenas na versão do Gould jovem, um pouco saturado da aventura anterior com a 1080 — da qual colecionei versões e mais versões, oscilando entre a secura extrema do cravo de Kenneth Gilbert e o abstrato desengonçado de Vladimir Feltsman, passando por versões com finais alternativos (a décima-quarta fuga da 1080 nunca foi concluída) e conjuntos de flautas doces. No fim, como costuma fazer com todo mundo, a vida aconteceu-me enquanto eu estava ocupado fazendo planos, e interrompi o meu Bach antes de aprofundar-me em outras peças críticas do repertório e construir uma imagem coerente do todo, embora ainda saiba cantarolar a maioria das 14 fugas par coeur.
A verdade é que sou um bachiano vulgar. Bach tocou-me primeiro, no início da adolescência, pelo puro pop, através da 578 (a “Pequena Fuga” em sol menor), executada pelo inexorável Carlo Curley, o “Pavarotti do órgão”, um populista que enoja os conhecedores pela dinâmica que impinge às peças mais delicadas e intelectuais (a “Fuga” em ré menor da 565), comete atrocidades como uma 1068 (”Ária para a corda sol”) vertida para um órgão com registros fechados e tem na “Pequena Fuga” — ao menos para mim — a sua máxima expressão de instrumentista virtuoso e melodramático. A culpa não é toda de Curley, claro: a 578 é tão pop quanto uma fuga consegue ser, voltando ao tema de abertura perto do fim com uma pompa e orgulho que faz o meu coração se agitar de arrogância e os pêlos dos meus braços se eriçarem como as penas de um galo em posição de ataque.
O meu Bach cotidiano, no entanto, é mais prosaico: não é nem o Bach populista de Curley, nem o da seriedade intelectual de Kenneth Gilbert (pelo lado purista) ou Feltsman (pelo lado inovador). O meu Bach-nosso-de-cada-dia é o da 1056 — não uma das grandes peças, nem uma das mais apelativas — executado pelo conjunto de uma amiga dos meus pais cujo nome nem recordo (porque ripei o CD para o iTunes e nunca mais vi) — nem uma intelectual querendo expressar idéias profundas sobre Bach e a música no seu trabalho, nem uma rockstar como Carlo Curley, mas apenas uma instrumentista séria exibindo o trabalho sério de todos os dias. Trata-se de um concerto para cravo e pequena orquestra, na gravação que tenho executado com piano, provavelmente familiar aos conhecedores de Bach que no entanto devem tratá-lo com pouco entusiasmo.
Não sei ao certo por que essa peça, entre tantas outras, agrada-me tanto. Sem ter em absoluto uma estrutura fugal, conserva uma certa aura de fuga, especialmente no primeiro movimento. Agrada-me sua placidez, que longe de suavizar um certo senso de orgulho abafado, o aguça, por trazer a quieta arrogância de quem se sabe grande. Agrada-me a sensação que tenho de estar entendendo intimamente uma peça densa — qualquer um penetra na “Pequena fuga” depois de algumas audições, e por outro lado minha interminável fase obsessiva com a 1080 e a 988 deram-me pouco mais que vagas intuições, apesar do prazer intenso que a fuga 10 da Kunst ainda me dá; a 1056 parece tailor-made para o meu nível de sensibilidade musical corrente, e a atenção que o meu presente estado permite-me dar à apreciação cuidadosa da música.
A 1056 me acompanha, como uma amiga que sabe o que sou, sabe dos meus limites e das minhas necessidades e por isso mesmo permite-me ser o meu máximo. E se um dia eu conseguir partir para pastos mais verdes, terei sempre um carinho diferente por ela, um carinho mais maduro, diferente da benevolência embaraçada que tenho com a “Pequena fuga” que enfiou-me nesta aventura interminável e possivelmente fracassada, mesmo tendo me passado por ocasiões uma falsa sensação de superioridade e compreensão. Por saber o que ela é e ao mesmo tempo saber que tem muito a orgulhar-se nisso, a 1056 ensina-me um pouco todos os dias a difícil tarefa de enfrentar esse mundo aí sendo o que sou — sabendo que serei subestimado as mais das vezes e que mesmo assim deve-se tomar cuidado com a sensação de grandeza que provém da superestimativa daqueles que tomam uma intuição dos mistérios individuais de cada um desses loucos, os homens.
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