
O que raios ganha uma corrida de Fórmula-1?
1. Losing my religion
A UFRJ está para a heterodoxia como a PUC-Rio está para a ortodoxia; onde esta é um subproduto do pensamento da FGV, aquela é um subproduto do pensamento da Unicamp. Gradualmente, o professorado da PUC deixou de ser composto de ex-fegevitas e passou a contar com um número significativo de jovens retornando de Berkeley. Analogamente, o professorado da UFRJ gradualmente deixou de ser composto de ex-unicâmpios e passou a contar com jovens vindos de Cambridge. É assim que se formam as especificidades: quando quer um ortodoxo para debater em um seminário, a UFRJ convida alguém da FGV, e quando quer literatura heterodoxa para enriquecer-se teoricamente, a PUC circula dissertações da UNICAMP. É assim que todo o diálogo entre a PUC e a UFRJ consiste de pequenas ironias.
Eu fiz a minha graduação na PUC do Rio — basicamente, eles me ofereceram bolsa, a FGV não, e eu estava cansado da universidade pública com suas greves e idiotices ideológicas. Como todo filhote da PUC que por alguma razão decide fazer mestrado, as minhas opções eram a própria PUC e a FGV. Mas entre estar deslumbrado e complicado em um relacionamento absurdo, estar absolutamente de saco cheio com a economia e deslumbrado e complicado numa relação (muito mais frutífera que a outra) com a ciência da computação e uma fé inexplicável nos meus poderes mágicos, fui fazer o exame Anpec basicamente despreparado, e os meus poderes mágicos falharam: não obtive resultados fortes o suficiente para que fosse parar nas muito mais disputadas escolas ortodoxas. Em suma, for the record, fui parar no mestrado da UFRJ por pura incompetência.
Conto esta história no interesse do full disclaimer — porque pesa entre os que conhecem essa história a dúvida sobre a minha imparcialidade em discutir os méritos relativos das duas escolas e freqüentemente pessoas que deveriam confiar em mim acusam-me de minimizar o aspecto involuntário da minha estadia numa escola que na weltanschauung puquiana é francamente de segunda linha. Claro, eu percebo com clareza agora que as escolas de primeira linha são a FGV e a Unicamp, por serem fundamentalmente da linha de pensamento que representam — e não por circunstâncias políticas (o vínculo PUC-PSDB) e acadêmicas (um certo êxodo da Unicamp para a UFRJ e uma especialização em determinadas escolas heterodoxas de pouca expressividade elsewhere em parte como estratégia de diferenciação e em parte para absorver bons economistas formados em Cambridge).
O fato é que tive nos meus seis anos de economia um contato íntimo com os extremos teóricos do pensamento econômico contemporâneo no Brasil: fui aluno de Dionísio Dias Carneiro e de Mário Luiz Possas. Mais ainda, tomei contato com duas visões bastante distintas sobre a história do pensamento econômico — e apesar de ter basicamente dormido durante os cursos que explicitaram a visão ideológica hard de cada escola sobre o assunto, pude inferí-las e reconstruí-las heuristicamente pelo pensamento vivo de seus economistas modernos.
O que eu estou oferecendo aqui é, em alguns parágrafos, um resumo de tudo o que eu aprendi de economia na vida — ok, omitindo os intermináveis cursos técnicos de contabilidade, econometria, etc., mas provavelmente, tudo o que você precisa saber para entender que raios é esse debate sobre como se ganha uma corrida de fórmula 1. O Gustavo Franco continua mais certo que o Carlos Lessa, mas o que cada um deles diz em público é uma meia-verdade. A idéia aqui é explicar o que você precisa para costurar as duas metades.
2. A história só se repete como refinamento
Dito isto, o Hermenauta não é economista, and it shows. Digo isto por seu comentário dismissive no post sobre aceleração em que ele qualifica a minha discussão de dinâmicas de retornos decrescentes, lineares, hiperbólicos e exponenciais de uma espécie de malthusianismo inverso — no lugar da catástrofe pela explosão populacional exponencial cujo gap com a produtividade agrícola linear é em si exponencial, uma produtividade ultratecnológica exponencial que no gap crescente com os quereres leva ao orgasmo econômico absoluto. E nisso, ele se prende ao Malthus do Ensaio sob a População – que inexplicavelmente se tornou o Malthus do ensino médio e do senso comum — e ignora por completo a transcendência fundamental do Malthus do Principles of Economics. O tal comentário fez-me perceber que pessoas colocadas em posições de poder em agências de planejamento econômico não entendem absolutamente nada de economia, que em terra de cegos a minha miopia de seis graus é um poder paranormal e que nunca vamos avançar no debate sem uma compreensão honesta do que está em jogo.
O prof. Cardim, da UFRJ, gosta de dizer que em economia não se diz nada de novo desde 1936 (o ano de publicação da General Theory de Keynes). Eu estenderia essa colorida frase ainda mais; em economia, não se diz nada de realmente novo desde 1820, o ano do Principles de Malthus. Marx, Walras, Keynes, Samuelson, Arrow, Debreu, Sraffa, Friedman, Pasinetti, Lucas e Garegnani trazem avanços técnicos importantes — avanços técnicos fundamentais para que se possa decidir entre os dois princípios contraditórios e aparentemente incompatíveis de análise econômica que são quase-miticamente representados na famosa (pelo menos para os economistas eruditos) Controvérsia da Abundância Geral entre Malthus e Ricardo, mas que na verdade são um conflito entre o princípio (malthusiano) da demanda efetiva e o princípio dinâmico da lei de Say, formulada algumas décadas antes.
Resumindo rapidamente, a Controvérsia da Abundância Geral versava sobre a possibilidade de que houvesse um excesso de produção gerando desemprego desnecessário e mal-estar econômico generalizado. Para Malthus, esta era uma possibilidade concreta e que poderia se tornar real se as Corn Laws viessem a liberalizar o comércio de produtos agrícolas, desempregando parte da população camponesa. Para Ricardo, produzir implicava empregar, e empregados consomem: é impossível que haja uma “crise de superprodução”, para usar um chavão marxista. E o que está por trás destas posições diferentes são os dois princípios fundamentais de análise econômica citados no último parágrafo.
Mas o que, afinal, ganha uma corrida de Fórmula-1? Na narrativa do meu pai, que na época assistia às corridas dominicais e torcia pelo brasileiro Ayrton Senna, travava-se no automobilismo de ponta uma batalha entre a engenharia e o muque, entre os carros tecnicamente superiores da Williams, brilhantemente pilotados pelo indefectivelmente britânico Nigel Mansell e os relativamente inferiores veículos da Lotus e da McLaren com os quais Senna construiu sua fama. As vitórias de Senna tinham alguma higher moral ground porque eram vitórias de talento puro, vitórias conquistadas “no braço” apesar das circunstâncias técnicas desfavoráveis; ainda assim, as corridas dominicais eram de interesse não apenas pelo prazer de ver o ratinho Mickey vencer o gigante costurando suas mangas, mas porque barthesianamente representavam o problema da criação em um mundo ultratecnológico — a dualidade de princípios, o muque e o motor.
Basicamente, a interpretação ortodoxa da vida econômica está dizendo que sem motor não adianta muque e a heterodoxa que sem muque não adianta motor. Ambos estão certos e errados, claro, e é por isso que os refinamentos técnicos em ambas correntes — que infelizmente tomaram caminhos divergentes depois da controvérsia do capital de Cambridge dos anos 1960 — são importantes. Mais ainda, ambos estão afundados num lodaçal político que é preferível ignorar por enquanto para não turvar mais ainda o problema. Mas vamos explorar um pouco mais essa imagem.
3. Muque e motor
Os heterodoxos costumam formular a lei de Say de maneira a que a intuição e o “realismo” a derrubem diretamente; assim, dizem que por esse princípio, “a oferta cria sua própria demanda”. Isso é uma simplificação excessiva e grosseira do que é de fato um postulado dinâmico sutil: não pode haver oferta se não houver emprego, e em havendo emprego haverá demanda. Isto será qualificado em Ricardo enfatizando a distribuição funcional da renda: salários, lucros. Mais tarde, Marx (e mais tarde ainda os neoricardianos) tomarão o mecanismo técnico do modelo distribucional para fins que Ricardo condenaria; por outro lado, a revolução marginalista tomará a bandeira da lei de Say e a fará um prodígio técnico — mesmo que através de dinâmicas implícitas como a do modelo de equilíbrio geral — que só é alcançado por aqueles que enfatizaram o “funcionalismo” de Ricardo quando da eclosão da escola neo-ricardiana em torno de Sraffa.
Conversamente, os ortodoxos colocam o princípio da demanda efetiva em termos igualmente caricatos: pinta-se a heterodoxia como um grupo de amalucados que esquecem que a realidade tem restrições técnicas e materiais e que basta com que haja propensão a comprar — que haja demanda — para que se faça a produção. Esta também é uma simplificação ridícula que parece querer retratar a heterodoxia como esquecendo por conveniência que não havendo capacidade produtiva não haverá produção, apenas reajustes nominais — bom-dia, inflação! — visando a refutação óbvia. O fato é que o princípio da demanda efetiva é tão verdadeiro para uma economia mercantil abstrata quanto a lei de Say, e numa economia que se desenrola no tempo é até ligeiramente (mas apenas ligeiramente) mais realista que aquela.
O que este princípio fundamental da heterodoxia está dizendo é que a produção é decidida ex ante — através da escolha de uma capacidade produtiva — com base em expectativas ex ante da demanda pela mercadoria em questão — e como aponta bem o Mário Possas, o status de mercadoria é uma sanção social, e no momento da produção não se sabe nem se o produto é de fato uma mercadoria; por outro lado, a demanda ex post pelo produto — a famosa demanda efetiva — é determinada pelo emprego dos recursos produtivos decidida ex ante. Assim sendo, a demanda “cria” sua própria oferta.
Motor e muque. A ortodoxia está dizendo que a disponibilidade dos recursos produtivos implica em demanda, na medida em que as pessoas remuneradas por seu uso — salários e juros — vão sair e consumir, havendo assim tendência ao equilíbrio; como esses recursos são alocados entre os diferentes setores e fatores é um problema muito bem resolvido pela teoria de equilíbrio geral. A heterodoxia está dizendo que o empresário só vai contratar os fatores produtivos se esperar demanda, e só haverá demanda se os fatores produtivos forem contratados — o que implica numa tendência para círculos viciosos e virtuosos, dependendo dos espíritos animais keynesianos e da eficácia da política econômica em produzir o círculo virtuoso.
4. Reforma e contra-reforma
Curiosamente, a teoria ortodoxa padrão da virada do século XIX para o XX se aplica muito mais ao mundo corrente de capital cada vez mais homogêneo e entrada cada vez mais livre nos mercados do que no seu auge. Mas a predominância é compreensível: é uma zeitgeist de grande progresso técnico — progresso “nos motores” — e esperança no futuro. E de fato, os economistas em geral esqueceram Malthus e a controvérsia da abundância geral — até que a depressão dos anos 1930, uma súbita ausência de qualquer muque para manipular o cada vez mais fabuloso motor da economia industrial moderna, viesse a colocar o princípio da demanda efetiva de novo em pauta.
Não é por acaso que muitos governantes — Roosevelt e Vargas, por exemplo — façam o que os historiadores às vezes chamam ingenuamente de “políticas pré-keynesianas”, injetando demanda na economia na marra, antes da publicação da General Theory de Keynes. Esta simplesmente retoma o tema malthusiano da demanda efetiva, envolta em novas questões técnicas — agregação, economia monetária, tempo da produção — mas ainda essencialmente a mesma. A descrição da demanda efetiva como um fenômeno de dissociação entre os mundos ex ante e ex post produção é basicamente keynesiana na sua ênfase no tempo da gênese da mercadoria (o que é diferente de “tempo da produção”), mas não passa muito de uma clarificação técnica sobre a formulação malthusiana original — e o que é mais importante, é irrelevante para o uso de políticas anticíclicas estilo Roosevelt/Vargas.
A síntese neoclássica dos livros-textos de graduação tende a enfatizar a rugosidade de uma economia concreta, o atrito; os keynesianos mais xiitas — os ditos “pós”-keynesianos, porque identificam Keynes com uma ruptura radical e pensam que os seus pares na ortodoxia são pré-keynesianos — enfatizam questões monetárias presentes na General Theory que associam essa dissociação ao papel especulativo da moeda e à preferência pela liquidez. Mas estes são detalhes técnicos; em qualquer leitura, a grande depressão representa a vingança do princípio malthusiano da demanda efetiva.
Por sorte — e digo isso porque mesmo quando estão profundamente corretos, os heterodoxos tendem a perder o contato com o mundo real — a contra-reforma veio rápido: Hicks e Modigliani generalizariam a teoria monetária de Keynes para o caso onde a preferência pela liquidez não é absoluta, reintroduzindo discretamente o problema da escassez — neste caso, da escassez de capital financeiro — na compreensão do funcionamento da macroeconomia. Mas este é um detalhe técnico; ao recolocar o mercado de fundos emprestáveis em termos wicksellianos, i.e. como um mercado de remuneração de fatores, a síntese neoclássica recoloca a temática básica da lei de Say — no momento da produção remunera-se os fatores, gerando demanda — e logo reaproxima-se do ponto de vista de Ricardo na Controvérsia da Abundância Geral, embora com alguma folga para que, por razões nem sempre explicadas, o princípio da demanda efetiva tenha certo espaço, bastante limitado pela disponibilidade macro de recursos..
5. De volta ao planeta dos macacos
Ora, eu venho pintando uma imagem rósea da heterodoxia como um corpo de teoria baseada em um fundamento dinâmico distinto daquele que fundamenta a teoria ortodoxa. O fato é que a heterodoxia é um corpo de teóricos, que são humanos e são na sua maioria canalhas. É bem verdade que a maioria dos economistas ortodoxos também é de canalhas, mas é da natureza das prescrições ortodoxas que o espaço para sua canalhice seja muito mais limitado e o efeito destas muito menos devastador.
A canalhice ortodoxa não é, como se pensa, a de favorecer o setor financeiro pelas suas prescrições de austeridade, mas a de empobrecer o debate teórico por razões puramente pragmáticas. É assim que, apesar do reconhecimento aberto de um dos maiores economistas ortodoxos da história, Paul Samuelson, a teoria neoclássica ignora um fato crucial e demonstrado até o último quadrado da natureza do capital: mudando a taxa de juros, a tecnologia ótima pode apresentar mudanças não-monotônicas e logo o capital não pode ser trivialmente agregado num bem composto — a “geléia geral” de Solow — cujo preço é o do recurso emprestável.
Ora, como se explica que no curso da PUC-Rio onde se constrói a curva de oferta agregada — e logo o tema do capital como insumo de produção é central — ministrado por um professor doutorado nos anos 90 pelo MIT (a escola onde Samuelson travou e perdeu o debate teórico sobre o capital) se ignore inteiramente o fato de que o “capital” como insumo homogêneo não é uma ficção teórica inócua como muitas outras, mas um conceito radicalmente inconsistente? A canalhice ortodoxa consiste em fingir que muitos problemas já estão resolvidos; fala-se de um “consenso emergente” na macroeconomia, como se os problemas radicais da teoria ortodoxa vigente, problemas outrora reconhecidos por ortodoxos de uma geração mais honesta, não existissem.
Nisso, o dissenso é reduzido a obra de idiotas. O primeiro curso de macroeconomia da graduação da PUC-Rio começa com uma discussão do Manifesto Pós-Autista, um panfleto sem pé nem cabeça produzido por estudantes displicentes de graduação; o tal manifesto é apresentado como sendo o cerne da insatisfação com a teoria ortodoxa sendo apresentada, e sai-se dos quatro anos de graduação com a impressão que a heterodoxia é um grande saco de imbecis. Os ortodoxos castram o debate; eu me formei sem ter ouvido a expressão “Lei de Say”, e o raciocínio dela era na minha mente — e é na mente de todos os meus colegas de lá — o trivial incontestável. O tipo de monocultura presente ali é mais do que mera ênfase nos aspectos técnicos (e eu continuo achando que não deveria se permitir que economistas se formem sem um conhecimento funcional de modelos econométricos de séries de tempo, estimação por variáveis instrumentais e métodos básicos de painel, coisa que apenas a PUC ensina); antes, há uma distorção específica e proposital da realidade.
A canalhice heterodoxa é mais grave. A ortodoxia empobrece a discussão acadêmica e ignora os questionamentos mortais que as dissidências têm a algumas das suas assumptions básicas, mas a heterodoxia empobrece países.
6. A ciência como luta de marmelada
O problema básico da ortodoxia é que ela traveste suas premissas fundamentais (semânticas) de método de comunicação objetiva (sintática). É assim que progressivamente proposições científicas que são falsificáveis e deveriam ter justificativas teóricas mais profundas — e freqüentemente têm, mas muitos ortodoxos ignoram os aspectos mais abstrusos do fundamento profundo da ortodoxia, a teoria neo-walrasiana — são elevadas a verdades triviais. É assim que “equilíbrio” é elevado a categoria epistêmica fundamental nos escritos mais teóricos de Frank Hahn (juntamente com Arrow e Debreu, um dos três mais importantes teóricos neo-walrasianos), que diz com todas as letras que a economia é por definição um discurso sobre o equilíbrio.
É assim que o pressuposto de market-clearing é aplicado passivamente em modelos macro de várias cores, como se não fosse possível nem mesmo conceber um mundo sem market-clearing. É assim que a inconsistência de um capital homogêneo é ignorada, e a função de produção Cobb-Douglas é feita axioma. É assim que a não-agregabilidade de curvas de demanda (um ponto que consta de todo manual de micro ortodoxa avançado) é feito a um lado, fazendo-se da demanda de mercado um conceito básico. Em um movimento de espiral, a ortodoxia vai elevando resultados anteriormente construídos em um contexto teórico (e logo frágil) a categorias da razão pura, e mesmo aqueles um pouco mais antenados em epistemologia aceitam isso passivamente, um pouco por esperança de soluções técnicas superiores que façam tudo entrar no lugar (”ah, mas no mestrado da PUC vê-se equilíbrios múltiplos”), em parte pela força da autoridade (”mas é o Pedro Malan dizendo isso”) e em parte pela facilidade com que um ser humano de atenção e cognição limitada se insere num paradigma kuhniano. E os economistas ortodoxos, estes canalhas, deixam que essa grande confusão cresça e essa miséria intelectual se desenvolva, porque é conveniente.
O problema básico da heterodoxia é que todas as premissas e proposições são colocadas constantemente em discussão, até o ponto que o modelo heurístico de um economista heterodoxo pode ser parametrizado para obter qualquer coisa. E os economistas heterodoxos, estes canalhas, se prestam efetivamente a qualquer coisa.
Assim, há heterodoxos invocando razões abstrusas de teoria neo-schumpeteriana — pouco formalizadas e por isso de difícil teste econométrico — em defesa de grandes monopólios. Há heterodoxos invocando razões de teoria monetária abstrusa (no fundo apoiadas no princípio da demanda efetiva, embora de forma grosseira e utilitária) para que os governos façam políticas expansionistas populistas e insustentáveis. Há heterodoxos invocando a path-dependence tecnológica para defender que o governo faça, através da política industrial, distribuição de renda… em favor dos grandes empresários! Há até heterodoxos defendendo que se “lubrifique” a economia com um pouco de inflação — i.e., que se faça uma transferência de renda real dos mais pobres para os mais ricos, agitando a economia com isso.
7. O mercado de algo no que acreditar
Em suma, simplesmente não se deve confiar num economista heterodoxo. A teoria ortodoxa impõe restrições sérias sobre as maluquices que se pode defender.
- Em questões normativas (e ao contrário do que diz uma certa vertente de propaganda heterodoxa grosseira) uma série de considerações éticas e distributivas são imediatamente evidentes (porque os preços são um mecanismo abstrato de conciliação gerado como solução num modelo de economia produtiva-mercantil), o que impede uma série de truques técnicos abstrusos nos quais há transferência de poder de compra “invisível” ao sistema de preços (e o viés concentrador de renda da inflação é um exemplo importante, mas toda instância de planejamento econômico central geral um problema desses).
- Em termos de metodologia, a economia ortodoxa é uma ciência lúgubre (o que é em parte um artefato da centralidade dos modelos de maximização sob restrições), sempre apontando impossibilidades nas melhores intenções dos políticos — onde a heterodoxia é o campo do “tudo é possível”; gastemos, endividemo-nos, façamos o desenvolvimento, não há nada a perder!
- Em termos de epistemologia, a ênfase numa narrativa única de desenvolvimento da ciência (a história do pensamento econômico parece ser uma versão em quadrinhos do livrinho de Kuhn sobre o assunto) impede essa pluralidade irredutível de soluções, cuja gênese e resolução a heterdoxia freqüentemente — e este é o auge do seu cinismo — prefere entregar ao âmbito da política!
Em outras palavras, por força da construção de sua teoria, ortodoxos estão mais preocupados com a justiça social — com toda a complexidade teórica que isso envolve –, são mais sóbrios e menos dados a cometer irresponsabilidades cujo preço terá que ser pago mais tarde e oferecem soluções concretas com base nesses dois condicionantes. Essas são as razões econômicas pelas quais, apesar das minhas admoestações, eu ainda defendo soluções basicamente ortodoxas para os problemas de governança sobre os quais a teoria econômica é consultada.
Mas eu tenho uma razão mais profunda , humana para permanecer um ortodoxo em face da vacuidade teórica da economia ortodoxa como é praticada hoje. O princípio básico da teoria heterodoxa, chamado por Malthus de “princípio da demanda efetiva”, é inteiramente válido, até ligeiramente mais válido que o princípio básico ortodoxo que é a Lei de Say: no nível desagregado (ou seja, no plano walrasiano), as empresas decidem produzir com base na trajetória esperada da demanda pelo seu produto no futuro, e logo a economia é decidida ex ante facto. Mas não há nada que a sociedade possa decidir fazer a respeito, porque a sociedade não decide nada. A teoria ortodoxa vigente falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogênea da economia real, mas a teoria heterodoxa falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogêna dos interesses humanos.
Nesse sentido, no seu afã de simplificar as coisas e jogar problemas graves sob o tapete, os economistas ortodoxos acabaram cedendo à heterodoxia no que esta tem de mais estúpido: passamos a olhar medidas agregadas como objetivos sociais. Cada vez que um ortodoxo fala em políticas para o crescimento, ele está adotando o pior da heterodoxia, a incapacidade de perceber que a sociedade não é um corpo, uma vontade, mas um amontoado de corpos, vontades e desejos tentando conviver em desarmonia. E essa é a culpa radical da nossa profissão: nós gostamos de fingir que a teoria normativa gera soluções políticas, e com isso no lugar de vender soluções para os problemas que as pessoas enfrentam, nós entramos no mercado de algo no que acreditar: crescimento, emprego, desenvolvimento.
E nisso, eles, os heterodoxos, têm soluções mais coloridas — falsas, mas coloridas. A saída deste impasse envolve reverter uma dualidade para superar outra: nós precisamos estudar o que eles estão dizendo de mais correto e profundo, e ao mesmo tempo reafirmar o que nós temos de mais profundo e puro, que está na gênese walrasiana da teoria ortodoxa: a verdade.

clap clap clap. acho q é, dos seus textos, o q eu mais concordo (aliás, diria que concordordo inteiramente, salvo pela sofisticação sobre a ortodoxia, q eu desconheço por completo).
realmente, o link Malthus-Keynes já tinha me caído a ficha (apesar de mta gente esconder) num dia em q, pela manhã, estudei Malthus em EcoPol e, à tarde, modelos macro heterodoxos (creio eu q, basicamente, Kalecki) em Macro II. mas é algo um tanto trivial, já que o próprio Keynes atribuía mto de suas idéias a Malthus.
seu texto tb vem a calhar, pois, 2 dias atrás, eu ter falado a frase “eu gosto do Malthus” na UFF foi recebido a risadas e olhares reprobatórios (claro, por não-economistas), para meu enfado (não é a primeira vez — aliás, é interessante tentar isso com qquer intelectual de esquerda… dá uma satisfação - enfadonha, mas satisfação - de saber q a pessoa nem o dever de casa faz).
qto à UFRJ, o painel é perfeito. eu sempre te falei q lá é um lugar de crítica, crítica da crítica, e crítica da crítica da crítica. o que se está criticando é, de fato, o mistério. mas claro, isso não é um problema para eles, já que a ortodoxia pode ser rejeitada en bloc pq “segue a lei de Say” (sobre a qual, inclusive, lembro bem uma vez ter te falado, e vc ter dismissed pq é “uma idéia lá do meio do século XIX q não tem nada a ver com a Economia de hoje”).
ontem foi minha colação (de um L de loser na testa), e, enfim, pensei q a Economia teórica vai ser para mim mais uma das prateleiras de leitura-de-fim-de-semana, pq ela não vai sair do lamaçal in my lifetime, e eu não vou me estressar por isso. realmente me causa pesar pensar que cabeças altamente competentes (como a sua) vão continuar batendo contra a parede pq, after all, economics is a many splendoured thing.
mas, fazer oq né? a pessoa é para o que nasce. =P
Comment by Dennis. — April 1, 2007 @ 8:46 pm
Eu sempre soube que economia e F1 tinham alguma coisa em comum. Agora tudo é tão claro na minha mente! (risos) G’Job G’Job!
Comment by Luis Henrique — April 4, 2007 @ 4:56 am
[...] heterodoxos e outras re-flexões economísticas: Malthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi vendo Senna x Mansell com o meu…. Por Dr. [...]
Pingback by Claudio Tellez.blog » Re-flexões economísticas — April 6, 2007 @ 1:44 pm
o que dizem os teóricos da demanda afetiva ou da crise?
Comment by angelita — April 26, 2007 @ 5:47 pm
Um post foda.
E, apesar de tudo, parabéns pela colação e quetais.
Comment by Ed — May 16, 2007 @ 9:47 pm
[...] sem pagar reverência ao dogma ingênuo do democratismo nem sucumbir à tentação bárbara de entrar no mercado de algo no que acreditar. A vida social é um problema grave e complexo e a festa da democracia que entroniza heróis [...]
Pingback by Bryan Caplan ataca novamente « fé cega, faca amolada — May 28, 2007 @ 12:30 am
O melhor texto sobre economia que li nos últimos meses! Obrigado, homem! Ainda há esperança!
Comment by Icchan — May 28, 2007 @ 1:39 am
isso eh idiota (:
Comment by fernanda — June 25, 2007 @ 10:36 am
[...] e a estrutura das revoluções na teoria econômicaKeynes em três parágrafosIdéiaMalthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi vendo Senna x Mansell com o meu…EspaçoConstânciaVersões & aversõesMa [...]
Pingback by königsberg — July 17, 2007 @ 9:18 pm
[...] literário que o formato blog sempre teve pra mim — o que me faz ficar horas trabalhando em ensaios gigantes sobre questões profundas e até desconstruções econométricas de comentários jornalísticos e (b) com a quantidade de [...]
Pingback by Explicando o Twitter « königsberg — August 22, 2007 @ 2:55 pm
tudo o que sei sobre sexo e eletrônica, aprendi com meu pai nos domingos de manhã - entre uma volta e outra mais rápida de Senna, e uma moda e meia de viola com a Inezita Barroso.
Quanto a Economia, a Puc me fez esquecer.
PS: Mansell era veado.
Comment by Edlen Ribeiro — October 8, 2007 @ 11:04 am
PS2: ortodoxos e heterodoxos também o são, a diferença é que ordoxos são passivos e heterodoxos ativos.
Comment by Edlen Ribeiro — October 8, 2007 @ 2:28 pm
Oii.. adorei sua pág… vc teria como me proporcionar algo sobre economia livre!? Estou procurando e n encontro absolutamente nada…
Obrigada…
Barbara
Comment by Oláááá — April 15, 2008 @ 8:47 am