Archive for April, 2007

Política industrial e o ônus da prova

Wednesday, April 25th, 2007

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O ônus da prova é uma das meta-narrativas mais interessantes da ciência, em parte porque tem valor retórico central (de estruturação do discurso), em parte porque não foi adequadamente coberto pelas críticas da meta-narrativa da filosofia da ciência do século passado e em parte porque tem o poder de alcance de uma alavanca: sozinho, o ônus da prova (e o seu análogo de lógica temporal, o método genético) pode inclinar fortamente, a partir de um eixo simples, a compreensão teórica do processo em questão na ponta da gangorra.

Ora, em termos teóricos, a heterodoxia põe o ônus da prova sobre a certeza cientificizante da common wisdom ortodoxa: cabe a nós demonstrar que o mercado fará as coisas que nós dissemos que faria — otimalidades sociais e eficiência alocativa. Por outro lado, em termos de formulação de política, é fácil pôr sobre eles o ônus da prova sobre a efetividade e valor normativo dos métodos de correção local que se propõe colocar para corrigir as falhas percebidas no mercado.

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p>A ortodoxia defende a direção que dá ao ônus da prova por um misto de cientificidade procedimental (e a heterodoxia dificilmente se rebaixa a produzir proposições falsificáveis, contrastá-las contra experimentos naturais e promover um debate claro sobre os méritos relativos das construções teóricas) e prudência (e afinal, como ministro das finanças austríaco Schumpeter gerou uma hiperinflação, e como diretor de um importante banco levou a instituição à falência). A heterodoxia defende a inversão desse ônus por um misto de cientificidade substantiva (e a teoria ortodoxa não é substancialmente científica porque seus primeiros princípios são absolutamente irreais) e urgência (é preciso “desenvolver” o país, para eles).

Cournot e a estrutura das revoluções na teoria econômica

Thursday, April 19th, 2007

Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Tommy Kuhn afirma que os cientistas reescrevem a história de seu campo para transformar tudo num fluxo contínuo e acumulativo. É algo que pode ser tomado ou como um passo no desenvolvimento de uma visão cínica e relativista da ciência como gerada por um processo crooked, ou como reafirmação quase-neokantiana (no seu antipositivismo) do papel da teoria na formulação do conhecimento.

Independentemente do seu conteúdo filosófico, a estratégia kuhniana de análise histórica da ciência é tomada in stride pelos heterodoxos (que revertem o processo tentando fabricar rupturas — fingindo, por exemplo, que Marx não é ricardiano, Keynes não é marshalliano e Schumpeter não é walrasiano) e ignorada pelos ortodoxos, que cultuam o “consenso ascendente”. Ambos casos são perigosos.

Ao fazer a apologia da ruptura em autores mais ou menos incluídos num fluxo, a clivogenia heterodoxa quebra o princípio da falsificabilidade: deixa de valer o que está de fato no Das Kapital ou na General Theory de modo a pinçar o que estes têm de radicalidade. Ora, esta é uma atitude anticientífica: não se pode dizer que Keynes está certo ou errado porque a exegese o torna um alvo móvel.

Por outro lado, a fantasia ortodoxa de um crescimento linear da ciência é perigoso porque vai metamorfoseando conclusões em axiomas e vai perdendo a riqueza da diversidade de conteúdos que determinadas técnicas formais podem assumir. O modelo padrão de competição oligopolística é um estudo de caso maravilhoso, neste sentido.

A graduação em economia apresenta o modelo de Bertrand como um modelo de competição em preço, onde o modelo de Cournot é um modelo de competição em quantidade. Essa distinção, acrescida da intuição marshalliana dos preços se ajustando mais rápido que as quantidades, dá a idéia de que o modelo de Cournot descreve equilíbrios não-cooperativos de longo prazo, onde o modelo de Bertrand descreve guerras de preço no curto prazo. Não é nem que cheguem a dizer isso formalmente, mas é a impressão que fica, dado um universo de conhecimento acumulativo.

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p>O fato é que não existe um “modelo de Bertrand”.

Mendigos

Monday, April 16th, 2007

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Da seção de Cartas do jornal O Globo, edição impressa de ontem:

Moradores de rua sempre existiram na praça da Cinelândia. Só que agora eles moram lá com famílias inteiras, e cheiram cola. Ontem, um menino de no máximo 15 anos parecia um bêbado. Isso às 16h30m. Acho uma falta de consideração da prefeitura, pois é um centro turístico com vários pontos importantes como o Theatro Municipal, Biblioteca Nacional e outros. A cidade vai sediar o Pan e almeja sediar uma Copa ou uma Olimpíada? Como trazer turistas para ver esta decepção?

Espera. Eu sou um homem de direita. Eu sou a favor da flexibilização do mercado de trabalho e maiores garantias jurídicas para o capital no cumprimento de contratos. Eu penso que o conceito de justiça social é categoricamente inconsistente via teorema da impossibilidade de Arrow. Eu sou mau, eu sou muito mau. Mas essa cartinha me revolta.

Versões & aversões

Thursday, April 12th, 2007

Beethoven só me tocou na idade adulta. Primeiro, pela breve citação do terceiro movimento da quinta sinfonia no discurso do “gnômon” do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Depois — uma noite dessas passadas conversando, sentados na cama, com uma namorada que eu tinha então — como uma iluminação súbita. Para então eu já estava interessado em éticas deontológicas, cursava eletivas de religião na PUC e lia Kant. Essa mesma noite, depois de dedilhar os acordes iniciais no violão — pa-pa-pa-pa, pa-pa-pa-pa — levantei-me e fui buscar uma torrent dessa obra. Baixei a primeira que apareceu, com Kleiber dirigindo a sinfônica de Berlim e pulei logo para o terceiro movimento.

E era isso. Em segunda audição, os outros movimentos me atingiriam do mesmo modo. O primeiro, que eu supunha ultrarromântico, apresentava de fato a resolução clássica para o problema básico do romantismo. O segundo falava da grande ordem que eu estava descobrindo em Kant na época; mais de uma vez eu chorei ouvindo o ostinato de cordas (em que os baixos e violoncelos continuam a melodia enquanto que os violinos e violas atacam uma nota repetidas vezes) pensando que era maravilhoso que de fato existisse o amor romântico como eu vivia, de como fazia parte da grande ordem do mundo que eu e ela estivéssemos juntos. O terceiro, claro, é o movimento do gnômon, do impulso do homem para a complexidade (apenas acompanhem a segunda linha melódica dos metais enquanto a primeira insiste naquela nota); apenas no quarto transparece o senso de maravilhamento por esse retrato de humanidade, essa concepção do mundo.

Desde então, escrevi mais de um post decantando Beethoven como o intérprete romântico do ideal iluminista, o homem que consegue dar suporte emocional à Aufklärung, o homem que empapa meus ossos de Kant. Mais tarde, eu saberia inclusive que Beethoven de fato foi a Königsberg estudar com Kant, o que reforçava a minha intuição de que havia uma grande humanidade e uma grande lógica naquele eixo.

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p>Assim sendo, animei-me quando soube que havia um 207vídeo do célebre Herbert von Karajan executando a minha quinta sinfonia.

Sardenberg e o câmbio

Friday, April 6th, 2007

As far as econopundits go, Carlos Sardenberg é notoriamente bom. Economista, deve ter sido contratado pela Globo nos meses em que o diploma de jornalismo não foi obrigatório por obra de uma liminar. Assim sendo, caracteriza-se por um estilo de argumentação mais baseado em dados e fatos do que em hearsay. Este, portanto, é um post típico em seu blog journal do portal G1:

E o dólar, hein? Não tem como encarecer. O dólar caro do passado refletia a situação de uma economia que tinha pesados compromissos na moeda americana (importações a pagar, juros e dívida a amortizar) e, ao mesmo tempo, uma fraca capacidade de gerar dólares. Ou seja, o dólar era caro porque era escasso. (…) Quando o dólar custava mais de três reais, as reservas do Banco Central brasileiro eram de US$ 35 bilhões, as exportações, de US$ 60 bilhões, o superávit comercial mal aparecia, e a dívida externa era de US$ 220 bilhões. Agora estamos no terceiro ano seguido de superávit em torno dos US$ 45 bilhões; as reservas chegam a US$ 110 bilhões e a dívida caiu para US$ 150 bilhões. Sendo que a dívida pública não chega a US$ 80 bilhões. Ou seja, o governo hoje é credor em dólares. Com tudo isso, cai o risco de aplicar e emprestar ao Brasil. Governo e companhias privadas tomam empréstimos no exterior a juros cada vez menores – e é mais dólar que entra. O dólar não está barato, o dólar é barato.

A intuição e o senso comum de Sardenberg estão certos, ao menos do ponto de vista predominante na teoria macroeconômica — na qual o Brasil é uma “pequena” economia aberta em que as flutuações cambiais são resultado de flutuações no mercado doméstico de câmbio. E, claro, o dólar hoje “é” barato em boa parte porque as reservas estão pelas alturas. Mas vamos observar a relação entre câmbio (real) e reservas:

Os números são meses, contando a partir de janeiro de 2000. A história toda começa

Dylan

Thursday, April 5th, 2007

Dylan é um dialeto do Lisp com sintaxe infixal desenvolvida inicialmente pela Apple Computer para uso no hoje aposentado PDA (uma agenda eletrônica com miçangas & parangolés) Newton. Ok, não.

Bob Dylan não tinha talento. Bob Dylan era feio. Bob Dylan não sabe cantar, não sabe compor, não sabe escrever letras. Como é que ele se 215torna matéria de discordância teológica no Tribunal do Santo Ofício?

É bem verdade que ele fica muito bem nas fotos, apesar de ser feio como a fome. Sexy ugly, entende o conceito?

Espaço

Tuesday, April 3rd, 2007

Espaço

Silver swordfish electric, I can feel or dream down here. If the water should cut my mind, If the water should cut my life, If the water should cut my mind, Set me free, I don’t care, I want to live in a bathysphere.

(Imagem do autor, produzida digitalmente com o pincel do Photoshop. Texto por Charlyn “Cat Power” Marshall)

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