Beethoven só me tocou na idade adulta. Primeiro, pela breve citação do terceiro movimento da quinta sinfonia no discurso do “gnômon” do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Depois — uma noite dessas passadas conversando, sentados na cama, com uma namorada que eu tinha então — como uma iluminação súbita. Para então eu já estava interessado em éticas deontológicas, cursava eletivas de religião na PUC e lia Kant. Essa mesma noite, depois de dedilhar os acordes iniciais no violão — pa-pa-pa-pa, pa-pa-pa-pa — levantei-me e fui buscar uma torrent dessa obra. Baixei a primeira que apareceu, com Kleiber dirigindo a sinfônica de Berlim e pulei logo para o terceiro movimento.
E era isso. Em segunda audição, os outros movimentos me atingiriam do mesmo modo. O primeiro, que eu supunha ultrarromântico, apresentava de fato a resolução clássica para o problema básico do romantismo. O segundo falava da grande ordem que eu estava descobrindo em Kant na época; mais de uma vez eu chorei ouvindo o ostinato de cordas (em que os baixos e violoncelos continuam a melodia enquanto que os violinos e violas atacam uma nota repetidas vezes) pensando que era maravilhoso que de fato existisse o amor romântico como eu vivia, de como fazia parte da grande ordem do mundo que eu e ela estivéssemos juntos. O terceiro, claro, é o movimento do gnômon, do impulso do homem para a complexidade (apenas acompanhem a segunda linha melódica dos metais enquanto a primeira insiste naquela nota); apenas no quarto transparece o senso de maravilhamento por esse retrato de humanidade, essa concepção do mundo.
Desde então, escrevi mais de um post decantando Beethoven como o intérprete romântico do ideal iluminista, o homem que consegue dar suporte emocional à Aufklärung, o homem que empapa meus ossos de Kant. Mais tarde, eu saberia inclusive que Beethoven de fato foi a Königsberg estudar com Kant, o que reforçava a minha intuição de que havia uma grande humanidade e uma grande lógica naquele eixo.
Assim sendo, animei-me quando soube que havia um 207vídeo do célebre Herbert von Karajan executando a minha quinta sinfonia.
Mas Karajan faz de Beethoven um Wagner ligeiramente menos barulhento. Todos os ângulos clássicos da sinfonia são suavizados. Os golpes lógicos de orquestra na “resolução” do primeiro movimento são arredondados, como se fossem um mero drama de coração partido ou guerra perdida, e perdem sua força de argumentação irresistível. O ostinato do segundo movimento, que tantas vezes me moveu até as lágrimas por sua articulação entre emoção, humanidade e a grande estrutura lógica do mundo (o que me fez dizer tantas vezes que Deus é um teorema), é transformado numa marcha — os violinos e violas se arredondam eclipsando os violoncelos que trabalhavam como infra-estrutura na versão de Kleiber. E claro, o que fazem com o meu terceiro movimento é quase um estupro intelectual; onde o ostinato do segundo é uma marchinha meio celebratória, o terceiro vira uma marcha triunfal, o grito de arrogância do exército que ocupa uma cidade.
Eu entendo agora; o Beethoven da minha infância era o de Karajan. O meu pai é um grande apreciador de Karajan, em geral pelas suas versões para Tchaikovsky. Interessantemente, eu lembro do Tchaikovksy da minha infância como pontuando o primeiro e radicalmente romântico movimento da Patética (a sexta sinfonia) com interessantes ângulos de lógica — muito embora os outros movimentos da sinfonia fossem lineares demais, como se o primeiro concentrasse toda a inspiração — sentimental, iluminista, o que for — disponível para a obra inteira. Mas o Tchaikovsky que ouvi adulto é ruim, talvez porque só tenho uma gravação tosca da sinfônica de Ljubljana. Mas o fato é que mesmo que Karajan tenha feito uma Patética iluminista, sua interpretação da quinta sinfonia de Beethoven é absolutamente obscurantista, como num esforço frenético de apagar todos os traços de Kant para produzir um reflexo do pensamento de um homem que muito antes do Anschluss inscreveu-se no partido nazista da Áustria e só caiu em desgraça perante a Hitler depois de uma performance ruinzinha em que ele errou mesmo. Talvez, de alguma forma, Karajan — mesmo em 1966, quando é gravado o vídeo que ouvi agora — se esforçasse para obter um suco hegeliano (onde sucessivamente Beethoven, Hitler e Karajan são o espírito do mundo montado num cavalo) da minha grande sinfonia iluminista.
Eu fico com Kleiber. Beethoven — via Kleiber — me atingiu, me sacudiu e terminou de reforçar os valores (basicamente kantianos) que eu já vinha processando e construindo num tempo em que eu via o meu sentimental como uma expressão dessa totalidade, dessa grande ordem em que o amor romântico (e inclua-se aqui o sentido histórico de “romantismo”) era um corolário do Deus-teorema. Eu vivia, afinal, um grande amor, que como todos os primeiros amores se julgava eterno.
E na medida em que músicas marcam épocas da minha vida, Beethoven marca a fase walrasiana da minha vida amorosa — na qual a ênfase infinita na perfeição do para sempre acabou agindo em detrimento do agora e jogando aquela relação, da qual consigo finalmente falar sem dor ou mágoa, numa espiral recessiva. Mas eu ainda fico com Beethoven, com Kleiber e com Kant; não sou um desses deseperados que ao falhar em conciliar o nobre pacto entre o cosmo sangrento e a alma pura entregam-se ao cinismo. De muitas formas, a parte mais importante de saber viver é oscarwildeanamente, sem deixar de considerar a lama em que se está, conseguir ver as estrelas.
E por isso fico com Kleiber, que ao resgatar o clássico na sinfonia romântica expressa essa dualidade. Muito mais do que Karajan querendo fazer expressão plástica do romântico, a quinta sinfonia de Kleiber é humana.
Discussion
No comments for “Versões & aversões”
Post a comment
You must be logged in to post a comment.