Archive for May, 2007

Keynes em três parágrafos

Wednesday, May 30th, 2007

Logo no início do capítulo 16 da General Theory – um capítulo pouco comentado, contendo algumas observações desordenadas sobre a teoria do capital, João Keynes comenta, sobre a idéia de substituição intertemporal:

“The trouble arises, therefore, because the act of saving implies, not a substitution for present consumption of some specific additional consumption which requires for its preparation just as much immediate economic activity as would have been required by present consumption equal in value to the sum saved, but a desire for “wealth” as such, that is for a potentiality of consuming an unspecified article at an unspecified time.”

O interessante é que isto vem algum tempo antes da solução intertemporal do equilíbrio geral por Arrow-Debreu, ainda celebrada como finalmente establecendo uma economia dinâmica do equilíbrio geral em bases sólidas. O chato é que Keynes tem razão neste trecho, principalmente porque os preços relativos importam, e no ato de poupar faz-se não só uma decisão quanto a uma cesta derivada dos preços relativos do consumo presente e futuro (dada por uma taxa de desconto intertemporal), mas também contra os preços relativos entre os bens disponíveis agora. Eu não compro um mp3 player agora porque o preço relativo dos aparelhos contra as pilhas que o meu discman bebe como água não está valendo a pena. Daí surge a poupança.

O pior é que — ao menos na interpretação que eu estou imprimindo — esta é uma observação bastante antikeynesiana, no sentido em que coloca uma decisão sobre preços “reais” relativos, onde um ponto fundamental da teoria keynesiana é que o mundo é sempre monetário, desde o momento da decisão de trabalhar. A citação representativa — muitíssimo mais difundida do que a anterior — é do capítulo 2:

Bryan Caplan ataca novamente

Monday, May 28th, 2007

Bryan Caplan, que irritou a ala terceiro-mundista há alguns anos ao sugerir no seu The Idea Trap que o havia um canal de crescimento endógeno no fato de que povos subdesenvolvidos votam por políticas econômicas piores, entra de sola no tema da democracia. Apesar do título dork, seu novo livro The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies parece firmar a reputação do autor de enfant terrible entre os enfant terribles. Vede o que diz a resenha do NYT:

Caplan argues that “voters are worse than ignorant; they are, in a word, irrational — and vote accordingly.” Caplan’s complaint is not that special-interest groups might subvert the will of the people, or that government might ignore the will of the people. He objects to the will of the people itself.

Claro, todo economista com uma formação universitária sabe que o will of the people de fato não existe como tal pelo teorema da impossibilidade de Arrow. Mas o problema da democracia é - agora dolorosamente evidentes nos EUA de um modo difícil de encerrar pela análise do The Idea Trap. Isto se deve, claro, em boa medida a complexas especificidades do sistema americano, que passam por uma ponderação desproprocional à população no sistema distrital e por uma divisão cultural cada vez mais profunda, parte de um desenvolvimento dual que explode periodicamente — vide a guerra de secessão e o movimento dos direitos civis nos anos 60. Mas as armas de Caplan estão voltadas para a própria democracia:

The disaster in Iraq has also fed a contradiction in American thinking about democracy. On the one hand, Americans continue to share the triumphalist, post-Soviet conviction that no other system of government has any real legitimacy. On the other hand, there is a deepening despair about whether and how the United States should spread democracy, prompted not just by Iraq but also by the endurance of authoritarianism in booming China and Vietnam and the disheartening Palestinian and Lebanese experiments in democratization.

Wandering star

Tuesday, May 22nd, 2007

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O tamanho do buraco

Wednesday, May 16th, 2007

Em barrinhas coloridas, para gritar à intuição.

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Pontos, porque hoje estou com pressa.

  • Nem sempre a cobertura da TV (*tosse*daiane dos santos*tosse*) é proporcional à realidade.
  • O movimento gay conseguiu tornar-se símbolo de modernidade no semi-mítico (mas concreto) conflito entre o novo e o velho. Tenho certeza que eu acabaria parando na parada gay, apenas como questão de princípio.
  • Ao levantar-se como voz conservadora, a tal parada evangélica se inflou justamente como contraponto à “ameaça” modernizadora representada pelo movimento gay. Nisto, eles escolheram suas batalhas melhor do que Roma, que entrou em uma estranha e impossível batalha contra o divórcio.
  • A posição de Roma contra o divórcio resultou na secessão da Igreja da Inglaterra. Aparentemente você pode bater nos gays, nos comunistas, nos banqueiros e nos autistas, mas não pode impedir as pessoas de se encherem umas das outras.
  • Ora, o divórcio nunca deixou de ser uma questão doutrinária, mas foi muito menos enfatizada pelo espírito populista, pouco teórico do papa Wojtyla. No fim, a popularidade do atual Pontífice sofre pela sua profundeza teórica e sua característica de intelectual.
  • Eu me pergunto o que Deus esperava escolhendo um intelectual para Relações Públicas da instituição.

Quatro boas canções de rap

Monday, May 14th, 2007

Tupac Shakur — All eyez on me

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Artistas de rap são irregulares; dificilmente acontece de um deles ter mais do que uma ou duas músicas interessantes. Tupac é uma exceção interessante nisto; sua voz melódica e emotiva torna faixas menos inspiradas interessantes — como Keep ya head up e Changes. No entanto, ele não escapa à sina do rap de ter faixas de fundo mais interessantes que os vocais. Assim sendo, All eyez on me se destaca acima de todas por seu interessante ostinato que quase conta sozinho a saga de violência, traição e paranóia da letra. Mas vale a pena prestar atenção nos ritmos vocais de Shakur e na interessante alternância com o estilo mais frio de Big Syke.

Trecho:

I got a caravan of niggaz every time we ride (every time we ride)
Hittin motherfuckers up when we pass by (when we pass by)
Until I die; live the life of a boss playa
Cause even when I’m high, fuck with me and get crossed later
The futures in my eyes, cause all I want is cash and thangs
A five-double-oh - Benz flauntin flashy rings, uhh
Bitches pursue me like a dream
Been know to disappear before your eyes just like a dope fiend
It seems - my main thang was to be major paid
The game sharper than a motherfuckin razor blade
Say money bring bitches, bitches bring lies
One nigga’s gettin jealous, and motherfuckers died
Depend on me like the first and fifteenth
They might hold me for a second, but these punks won’t get me
We got foe niggaz, and lowriders, in ski masks
screamin Thug Life every time they pass — all eyes on me!

The Coup — Fat cats, bigga fish

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