
Há um discurso alarmista sobre o aquecimento global que tenta fazer de todo fenômeno climático mais forte uma evidência da catástrofe total que se aproxima. Mas qual vocês acham que foi a maior catástrofe natural da história americana, com recordes de temperatura históricos (até 2006) sendo batidos?

Isso Al Gore não conta para as criancinhas. Aliás, os historiadores keynesianos da grande depressão gostam de esquecer, convenientemente, as violentas tempestades de areia que devastaram a agricultura americana nos anos 30 e deixaram mais de 500 mil americanos sem teto (outros dois milhões emigraram) — tudo em nome de não deixar nenhuma ambigüidade sobre a received wisdom da recessão da década de 30 como produto de uma espiral (deflacionária) endógena de demanda. Sim, a deflação fez com que muitos fazendeiros não conseguissem saldar suas dívidas assumidas em termos nominais e perdessem suas propriedades para os bancos — mas milhares de pessoas tiveram suas fazendas enterradas, e isso nenhum manual de história econômica conta.
É surpreendente que num mundo onde a cultura pop absorveu tantos fatos críticos da história americana na primeira metade do século XX, estes dois fatos aparentemente tão traumáticos (e basta ver a quantidade de romances assinados pelos grandes escritores sobre o assunto) quanto a proibição do comércio de álcool ou a presença da máfia italiana nas grandes cidades do nordeste. A histeria conservacionista (que propõe que o homem não pode interferir na natureza em nenhuma hipótese) e a histeria keynesiana (que tenta ignorar com todas as forças que fatores de oferta importam) parecem estar fazendo um excelente trabalho em apagar as memórias coletivas de milhões de americanos que estão morrendo de velhice agora.
As narrativas simples nunca são tão simples assim.

Informação interessante, mas você a acha conclusiva?
abração.
Comment by Artur Perrusi — May 21, 2007 @ 12:55 pm
1) Não, é uma informação conclusiva. Aliás, eu seria um tanto esquizofrênico se atribuísse a grande depressão americana, que começou em 1929, a problemas climáticos que começaram em 1933.
2) Quanto à referência, o termo de busca é “Dust bowl”. Está longe de ser um segredo (como poderia, dado o tamanho do fenômeno?). E isso não “causou” um problema de oferta — isso é um problema de oferta per se.
3) Não. São duas explicações que competem, e na verdade são ambas válidas até certo grau, sobre o êxodo da região central do país. O ponto é que explicações puramente “de oferta” ou ” monetaristas” são freqüentemente enterradas com base na longa duração da depressão; quando você considera o Dust Bowl, a plausibilidade de uma explicação como a do Friedman sobe muito.
4) O problema é que isso nunca consta das histórias keynesianas da Grande Depressão. Eu estou falando espeicficamente da grande depressão.
5) De resto, é bastante nítido quais histórias traumáticas chegam até nós (Proibição, debt deflation, etc.) e quais parecem ser convenientemente omitidas dos manuais. A memória em si continua lá; “As vinhas da ira” do Steinbeck é um relato do Dust Bowl. O problema está em selecionar os episódios históricos que encaixam na nossa historinha e esquecer os outros. Era isso.
Comment by dr. k — May 21, 2007 @ 3:36 pm