Keynes em três parágrafos

by Knigsberg ~ May 30th, 2007. Filed under: Immanence.

Logo no início do capítulo 16 da General Theory – um capítulo pouco comentado, contendo algumas observações desordenadas sobre a teoria do capital, João Keynes comenta, sobre a idéia de substituição intertemporal:

“The trouble arises, therefore, because the act of saving implies, not a substitution for present consumption of some specific additional consumption which requires for its preparation just as much immediate economic activity as would have been required by present consumption equal in value to the sum saved, but a desire for “wealth” as such, that is for a potentiality of consuming an unspecified article at an unspecified time.”

O interessante é que isto vem algum tempo antes da solução intertemporal do equilíbrio geral por Arrow-Debreu, ainda celebrada como finalmente establecendo uma economia dinâmica do equilíbrio geral em bases sólidas. O chato é que Keynes tem razão neste trecho, principalmente porque os preços relativos importam, e no ato de poupar faz-se não só uma decisão quanto a uma cesta derivada dos preços relativos do consumo presente e futuro (dada por uma taxa de desconto intertemporal), mas também contra os preços relativos entre os bens disponíveis agora. Eu não compro um mp3 player agora porque o preço relativo dos aparelhos contra as pilhas que o meu discman bebe como água não está valendo a pena. Daí surge a poupança.

O pior é que — ao menos na interpretação que eu estou imprimindo — esta é uma observação bastante antikeynesiana, no sentido em que coloca uma decisão sobre preços “reais” relativos, onde um ponto fundamental da teoria keynesiana é que o mundo é sempre monetário, desde o momento da decisão de trabalhar. A citação representativa — muitíssimo mais difundida do que a anterior — é do capítulo 2:

“Whilst workers will usually resist a reduction of money-wages, it is not their practice to withdraw their labour whenever there is a rise in the price of wage-goods. It is sometimes said that it would be illogical for labour to resist a reduction of money-wages but not to resist a reduction of real wages. … Moreover, the contention that the unemployment which characterises a depression is due to a refusal by labour to accept a reduction of money-wages is not clearly supported by the facts”

Claro, não há dois economistas que leiam a General Theory da mesma forma, e eu estou me apegando a um capítulo do final do livro III, espremido entre a teoria da preferência pela liquidez e a das money-wages. Ainda assim, a discussão menos aplicada sobre a natureza do capital no capítulo 16 é interessante. Veremos mais uma citação e ficará claro.

Ora, a General Theory rejeita o método Arrow-Debreu de escolha intertemporal, colocando no seu lugar um “desejo de riqueza”. Mas como essa “riqueza” se torna capital? Não é a partir da simples poupança; a poupança por si só não gera a oferta de capital para investimento que a igualdade sugeriria. Assim,

It is of this fallacy that it is most difficult to disabuse men’s minds. It comes from believing that the owner of wealth desires a capital-asset as such, whereas what he really desires is its prospective yield. Now, prospective yield wholly depends on the expectation of future effective demand in relation to future conditions of supply. If, therefore, an act of saving does nothing to improve prospective yield, it does nothing to stimulate investment.

Voilá. Em três parágrafos, a essência da teoria keynesiana: 1) não há escolha intertemporal, apenas escolha no tempo presente entre consumo e não-consumo, 2) esta escolha é menos influenciada pelos preços relativos do que pelo nível nominal dos salários e 3) poupança não determina investimento. A síntese hicksiana se concentra em relativizar o ponto 2, reintroduzindo discretamente a abordagem wickselliana do crédito como mercado de fundos emprestáveis; a teoria neoclássica mais profunda, no modelo Arrow-Debreu relativiza o ponto 1 definindo em termos estritos o que seria a tal escolha intertemporal que Keynes afirma não acontecer na realidade. O ponto 3 permanece sem crítica aberta, mas num mundo de plena escolha intertemporal baseada em preços relativos, o equilíbrio de um mercado de fundos emprestáveis é conseqüência trivial da lei de Walras.

Mas conseguindo chegar ao ponto 3, Keynes toma o princípío austríaco do roundaboutness e faz misérias, com os resultados pós-keynesianos conhecidos por qualquer um versado em teoria heterodoxa.

De brinde, o capítulo 16 nos dá um gostinho de singularidade tecnológica. O que acontece se os computadores ficam tão baratos que qualquer um pode rodar um servidor em casa por 400, 500 reais e tentar fundar o próximo Youtube?

If I am right in supposing it to be comparatively easy to make capital-goods so abundant that the marginal efficiency of capital is zero, this may be the most sensible way of gradually getting rid of many of the objectionable features of capitalism. For a little reflection will show what enormous social changes would result from a gradual disappearance of a rate of return on accumulated wealth. [...]

Though the rentier would disappear, there would still be room, nevertheless, for enterprise and skill in the estimation of prospective yields about which opinions could differ. For the above relates primarily to the pure rate of interest apart from any allowance for risk and the like, and not to the gross yield of assets including the return in respect of risk. Thus unless the pure rate of interest were to be held at a negative figure, there would still be a positive yield to skilled investment in individual assets having a doubtful prospective yield. Provided there was some measurable unwillingness to undertake risk, there would also be a positive net yield from the aggregate of such assets over a period of time. But it is not unlikely that, in such circumstances, the eagerness to obtain a yield from doubtful investments might be such that they would show in the aggregate a negative net yield.

João Keynes previu a ascensão de Paul Graham!

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