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Immanence

Para uma jovem vestibulanda

Uma pessoa com quem tenho conversado recentemente declarou que passaria a usar o meu blog blog journal ue diário como referência para o vestibular. Eu retruquei imediatamente que isso não era uma boa idéia. O ensino de economia no vestibular é monopolizado pelos professores de geografia, e portanto pelo ideário de um pequeno grupo de geógrafos brasileiros muito influentes das décadas de 70 e 80. Assim sendo, retrata-se para o aluno do ensino médio um mundo bizarro, organizado dentro de relações hegemônicas que beiram o sadomasoquismo, no qual vale a dinâmica endógena eternizada no refrão “o de cima sobe e o de baixo desce”.

Eu reitero: não estude para o vestibular por este bonito blog blog journal uinho, man. As opiniões aqui apresentadas são controversas em tantos níveis que chega a ser cômico. Primeiro, com a sabedoria moderada dos jornais (pela boa razão de que não preciso escrever quando os jornais estão dizendo o que eu julgo ser correto). Segundo, com a heterodoxia “desenvolvimentista” que certos esquerdistas mais maduros professam, porque eu advogo o uso de instintos basicamente ortodoxos. Terceiro, com a própria ortodoxia, porque eu coloco as críticas teóricas da heterodoxia em primeiro plano, pra ver que sopa isso dá. Por último, com a síntese pré-econômica dos seus professores de geografia, simplesmente porque eu me apóio em alguma teoria econômica (embora seja uma salada de ortodoxia, heterodoxia e olfato) e eles acham que tudo o que importa é a luta de He-Man contra o Esqueleto.

Mas porque é ruim uma pessoa crescer achando que a economia mundial se propaga a partir de um “centro dinâmico” e outras baboseiras do tipo, vale a pena dar uma olhada rápida no que aconteceu no mundo nos últimos 50 anos. Eu quero descrever dois fatos estilizados relativamente ateóricos; a minha interpretação das coisas não deve interessar muito neste ponto, e recomendo o uso de um bom manual de introdução à economia neoclássica como o de N. Gregory Mankiw.

Fato estilizado no.1: as coisas estão melhorando

O jargão da vulgata marxista está cheio de termos catastróficos, como “reprodução” da economia capitalista e sua “inviabilidade”. Quem se orienta pelo idéario do professor de geografia tende a pensar que o mundo não é mais o que era e que uma tragédia é iminente — como diz o slogan, quem não come não dorme de fome e quem come não dorme com medo de quem não come.

O fato é que a expansão capitalista é exuberante, a renda média no mundo sobe confiavelmente década após década e nunca, em nenhuma época da história, houve cinqüenta anos de tanta prosperidade. O gráfico abaixo mostra o crescimento do PIB (que é uma medida da renda de um país) e do PIB per capita (ou seja, a renda média das pessoas) desde 1950.

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Grosseiramente, a renda do mundo é oito vezes maior que a de 50 anos atrás, e a renda per capita é o triplo do que era na adolescência dos seus avós. Isso é muita coisa; imagine todas as famílias do seu bairro ganhando o triplo do que ganham agora. Nesse tempo todo, só parece ter havido uma contração importante do PIB per capita, por volta do início dos anos 80, e ainda assim esta é minúscula dada a escala geral do fenômeno.

Não há nenhuma razão para acreditar que isto vá diminuir. O impacto econômico do avanço tecnológico nos últimos 20 anos ainda é minúsculo, e tende a aumentar. O controle da população tende a melhorar a renda per capita — sobra mais pra você quando os seus pais não têm sete filhos.

É verdadeiramente impressionante que quem monopoliza o ensino de economia para os nossos adolescentes nunca mostre esse gráfico; os livros parecem querer desesperadamente ignorar o fato de que a renda cresce inexoravelmente para contar uma história de um sistema ineremente instável que tende para a catástrofe.

Fato estilizado no. 2: a desigualdade diminuiu

No mundo curioso dos seus professores de geografia, os centros hegemônicos chupam o sangue dos pobres países pobres. Chamam de “hegemonia”; falam de um “centro dinâmico” da economia mundial que se enriquece à custa do empobrecimento alheio. No entanto, esta não é bem a história.

O coeficiente de variação (a razão entre o desvio-padrão e a média) é uma medida independente de escala da dispersão numa dada amostra. Eu peguei a dispersão da renda entre todos os países do mundo e plotei ao longo do tempo. .

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O mais interessante é que a concentração da renda per capita cai ainda mais agressivamente que a da renda total dos países; isto provavelmente se deve ao controle populacional. Veja que a desigualdade da renda entre os países cai uns 20% e depois sobe uns 5 ou 6%; a desigualdade da renda per capita cai 50% e só sobe uns 10% nos últimos 15 anos.

Ora, é notório que a desigualdade voltou a aumentar. Parte do que causou essa distribuição de renda pelo mundo foi o aumento dos preços do petróleo, e a queda dos preços da energia tende a favorecer países mais ricos. Por outro lado, a explosão tecnológica favorece fortemente os países mais avançados; os primeiros estudos sobre a convergência realizados nos anos 70 mostravam um mundo muito mais dado a se igualar do que é o de hoje.

Esses estudos se baseavam num modelo idealizado do desenvolvimento de uma economia que pressupunha a ausência de progresso técnico. Previam as equações que os países tenderiam à mesma taxa de crescimento no longo prazo. Típico destes estudos era a comparação entre o nível da renda de um país e o crescimento observado; esperava-se uma reta negativamente inclinada mostrando que países que começaram mais ricos cresceram menos e países que começaram mais pobres cresceram mais.

A título de ilustração, mostramos uma destas comparações usando 1950 como o ano-base e o crescimento da economia até 2006:

tresmundos.png

É interessante que a reta negativamente inclinada ainda existe, embora não seja tão nítida e tão global como antes. Chamam a atenção, no entanto, um grupo de países — principalmente nações miseráveis na África — que começaram pobríssimos e cresceram pouco ou nada — a região marcada como “inferno”. Mas mesmo no grupo intermediário, parece haver uma certa dinâmica na qual os de cima (da direita) cresceram menos e os de baixo (mais à esquerda) subiram mais.

Este é o mundo. Bem-vinda! Agora veja se esquece isso até passar no vestibular. O vestibular não é sobre o mundo real, sabe.

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Discussion

2 comments for “Para uma jovem vestibulanda”

  1. Sem palavras =]

    é, realmente se isso for o mundo real, o vestibular não é sobre ele.
    que diferença..

    Posted by baronneti_girl^^ | May 11, 2007, 12:27 am
  2. Digo-lhe que é muito estranho ler isto no blog do mesmo jovem economista kantiano que tantas caretas andou fazendo para o conceito de crescimento do PIB alguns posts atrás. Vá saber. :)
    De toda forma acho que seria interessante mostrar à vestibulanda que embora as profecias marxistas estivessem erradas, há muitas formas pelas quais alguns parâmetros do mundo real podem estar melhorando às expensas de outros que podem estar piorando.

    E que não há nenhuma garantia, no final, de um céu de pão e mel para a Humanidade no fim do túnel.

    Posted by Hermenauta | May 14, 2007, 7:19 pm

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