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Os problemas de Sábato

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Sábato gostava de liturgias. Ao chegar ao trabalho, sempre apertava os parafuso da sua mesa com uma chave de fenda específica guardada na primeira gaveta (de cima para baixo). Ao entrar no seu restaurante predileto, o garçom devia imediatamente lhe servir um pedaço de pão sírio, que ele comia com azeite antes de cumprimentar o seu velho conhecido de muitos anos e pedir o cardápio. Sempre exigia de seus subordinados que assinassem qualquer documento com uma impressão digital e sempre inseria imagens dos Oompa Loompas nas apresentações para seus superiores. Quando seu carro quebrava, gostava de levar sanduíches de magnífico provolone escandinavo para todos os mecânicos e sentar-se com seu velho amigo Irineu no elevador hidráulico para comer sanduíches e conversar sobre futebol.

Quando ia a um churrasco, Sábato gostava de tocar Rhayader na sua flauta transversa, sempre brilhando de prateada, quando faltavam poucos minutos para que saísse a carne. Com isso, Sábato foi aos poucos sendo convidado por pessoas que apreciavam o Rhayader para mais e mais churrascos, ao ponto em que era raro o domingo em que não ia a um. Isto não o deixou propriamente gordo, mas não contava mais com a figura esbelta que ostentara nos seus anos de juventude. Sábato tinha um monociclo, uma lupa, um emprego estável e uma reputação de excêntrico. Sentia-se feliz.

Os problemas de Sábato começaram quando, um dia em que saiu ao meio-dia do trabalho para cuidar de assuntos pessoais, encontrou uma faca espetada no portão de madeira da sua casa. Pensou primeiro em chamar a polícia, mas acabou concluindo que quem lhe deixara essa magnífica faca de carne fizera um favor involuntário. Em virtude disto, Sábato decidiu quebrar a tradição e promover um inédito churrasco na sua casa.

Como pretendia tocar o Rhayader pouco antes que saísse a carne, chamou o seu amigo Nick, o Tórax, para que ajudasse com a churrasqueira. Nick, o Tórax tinha esse nome por causa das cicatrizes no seu peito, que ele atribuía a desastres de carpintaria — embora todos soubesse que eram devidos ao nariz excessivamente afilado de uma namoradinha que ele mencionava mas nunca apresentou ao grupo. Sábato se preocupava com a saúde de Nick, o Tórax, cuja crescente debilidade atribuía à constante dor dos cortes, mas o amigo parecia antes de tudo feliz, e ele se sentia bem preparando as coisas com ele antes do resto da turma chegar.

No dia do churrasco, quando voltou do seu quarto com a maleta onde guardava a flauta, Sábato encontrou Janos Starck, um famoso designer que tinha aparecido convidado por alguém, sentado ao piano esperando para acompanhá-lo. Na semana seguinte, Nick, o Tórax levou o seu magnífico baixo de oito cordas. Em pouco tempo, tinham um baterista e passaram a tocar versões instrumentais não só do Rhayader, mas de Bungle in the jungle e Firth of Fifth no circuito underground da cidade. Eram um desses conjuntos de camisa de botões, em que os integrantes se olhavam sorrindo. Nenhum deles nunca havia se imaginado num palco, e a verdade é que tocavam como se não estivessem em um.

As liturgias de Sábato levavam a certas restrições; os shows do conjunto, que por falta de um nome melhor se apresentava com os sobrenomes dos integrantes unidos por hífen, sempre tinham que terminar com o Rhayader, e era preciso que entregassem um churrasco razoavelmente fresco no camarim em seguida — refeição que freqüentemente custava mais que o cachê recebido. Nem todas as casas de espetáculo tinham uma entrada separada para a área reservada aos artistas, e tornou-se comum ver carrinhos de buffet sendo empurrados por homens em uniforme de hotel pela lateral da platéia no final do show. Não era uma gimmick, mas fez com que o conjunto de Sábato fosse muito comentado pelos jornais na época.

Sábato era um homem que tinha dificuldades em manter sua imagem de profissional sério à vista de suas notórias excentricidades. Ao mesmo tempo, era um homem em franca ascensão na sua carreira corporativa (o que, aliás, aumentava o número de impressões digitais que circulavam naquela empresa), e quando começou a ser cogitado para um posto de muita visibilidade, começaram a surgir pressões para que moderasse o seu perfil como estrela underground da flauta.

Frustrado, Sábato passou pela delicatessen, pôs soda cáustica no carter do seu carro e foi queixar-se dos seus dissabores com o seu amigo mecânico. Irineu era um homem simples cujo rosto parecia permanentemente marcado pela graxa, mas era o único que entendia as liturgias de Sábato como algo além de um gostinho infantil por chamar a atenção. Irineu não tinha nenhum conselho concreto a dar, mas terminaram o dia no bar dos mecânicos entupidos da pior cerveja do mercado.

Quando os dedos duros de Irineu apertaram os dedos moles de Sábato na despedida, este já tinha tomado uma decisão. Dissolveu o conjunto, candidatou-se a presidente da empresa e ganhou o cargo, graças ao que pôde mudar-se para um apartamento de cobertura maravilhoso, onde no entanto era proibido fazer churrasco. Aos poucos, os amigos de Sábato foram mudando — Irineu, no entanto, passou a freqüentar suas reuniões sociais — e o velho hábito da comida foi cedendo a projeções de filmes suecos e shows com strippers no palco que construiu especialmente para isso. E no imponente escritório presidencial, com uma janela do chão ao teto que dava para a lagoa e as montanhas, a mesa não tinha parafusos.

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Discussion

3 comments for “Os problemas de Sábato”

  1. bom também

    Posted by luciana | June 6, 2007, 7:19 pm
  2. Ora, ora, ora.. Vejo uma certa mudança de hábitos.. Os motivos pelos quais venho aqui já não são mais os mesmo, mas de maneira alguma os são menos interessantes. Chega a ser cômico! Mas de quelquer forma, bravo, bravo, bravíssimo!

    Posted by Luis Henrique | June 6, 2007, 8:02 pm
  3. Maravilhoso!

    Posted by Giovanna | June 13, 2007, 7:06 pm

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