June 5, 2007

→ the title:: Um conto de duplicidade :: → keywords:, , , , , , , , , , , , , , , @ 8:46 pm

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Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

Durante dois anos, eu comprei muitos cobertores novos, muitos martelos nunca usados para manter a ilusão do meu hobby de carpintaria e muitas calças apertadas demais. No fundo, eu gostava do perigo, creio, embora fosse continuamente desconfortável. Eu nunca sabia qual história tinha vivido com cada uma, e nunca houve uma boa forma de anotar o número delas no meu celular. Fernanda tinha uma voz ligeiramente mais rouca que Fernanda, mas a diferença só era audível numa sala silenciosa e quando elas falavam francês. Por causa disso, tive que aprender muito sobre queijos e vinhos de modo a ter sempre a pergunta circunstancial que as faria falar as palavras suficientes para distingüir suas vozes de outro modo melodiosas, embora ligeiramente imperativas.

O tom imperativo, claro, era charminho. No fim, era um acordo cínico. Eu ensinava Bach à Fernanda e teoria de grupos à Fernanda, e em troca elas punham seus seios em forma de pêra na minha boca. Eu nunca pude distingüir o gosto, mesmo de olhos vendados, mas depois que insisti para que Fernanda arredondasse um pouco suas unhas compridas (quando o fetiche de imaginar a outra já tinha cansado, e eu só queria poder relaxar um pouco) ficou mais fácil lembrar com quem eu estava. Pensei em estimular uma delas a desenvolver um pouco de cárie, mas era uma pena estragar o belo sorriso cheio de dentes no rosto afilado delas. As unhas bastavam.

A única vez em que eu realmente tive problemas foi quando Fernanda decidiu ser hostess no restaurante a que a Fernanda gostava de ir no dia 11 de cada mês. Eu passei boa parte do mês sabotando discretamente as coisas, mas só consegui que ela fosse demitida na manhã do dia em que eu tinha que almoçar com Fernanda lá. Quando cheguei com uma, a outra ainda estava se despedindo da equipe na cozinha. O saldo de um mês de trabalho intensivo foram 14 intoxicações alimentares, 31 lagostins desperdiçados e a perda do prendedor de cabelo dela que eu mais gostava. Pelo menos isso fez com que os prendedores também passem a servir de estratégia adicional de identificação.

Quando Fernanda anunciou ao telefone que estava me deixando, eu fui passar a noite na casa de Fernanda. Fomos juntos ao chuveiro, olhamo-nos nos olhos e soubemos que estava tudo terminado. Abrimos duas garrafas de Jack Daniels e passamos o resto da noite jogados num canto da sala, inconscientes, ela vestida com as minhas roupas, eu com as dela.

De manhã, juntei os meus livros e fui-me sem deixar recado. A dermatologista passou-me um creme de colágeno (que eu ainda não comprei) para cuidar das cicatrizes no meu tórax, mas o que é pior é que ainda não sei o que fazer com o outrora belo sofá de genuíno couro de vaca belga herdado da minha tia Francisca, filha adotiva da minha avó. Mas algumas das roupas que Fernanda deixou me servem, ao menos para ocasiões mais glam.

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