A rua Nelson Mandela continua sendo um pedacinho de vida entre a São Clemente e a Voluntários. É difícil que isso mude. A rua enquanto faixa de cimento de duvidosa utilidade para o trânsito pode ser cancelada para a construção de mais de um desses conjuntos residenciais que têm brotado no início da Voluntários, mas eles não a porão num outro lugar porque uma faixa de cimento com placas nas duas pontas não é uma rua, e muito menos a rua Nelson Mandela. E no entanto, eles fecharam a fábrica.
Eu nem lembro que fábrica era. Lembro-me dos cartazes propagandeando o número de dias sem que ninguém perdesse um dedo ou uma perna — com os números em branco, no entanto. E antes dos números em branco havia números, e antes desse terreno baldio havia uma fábrica.
Os aforismos repetitivos dos seguidores de Kundera estão certos: fábricas são efêmeras, bacon é eterno. Eu deveria ter pressentido quando o inefável pipoqueiro a quem eu pedia um saco de bacon com bastante pipoca não tinha troco para a minha nota grande. Este é um pipoqueiro para uma pessoa que contava as moedas e contava com o ônibus do condomínio para comprar aquele bacon borrachudo e quentinho com o qual hoje, sem fome, esperava esquentar os meus dentes gelados.
Não tive a pipoca, porque não era mais o meu pipoqueiro e não vi a fábrica. E sentei-me então no cimento gelado que cerca aquelas grades por onde entra luz do dia ao metrô. Estas eu ainda tinha. E tinha um daqueles lápis com logotipo que fluem como leite na FGV.
Era pela rua Nelson Mandela que eu voltava para a Voluntários depois de subir a São Clemente inteira desde a altura da Cobal às 7 da manhã, vendo um tanto grogue os jornaleiros carregando os pacotes d’O Globo, depois dos meus amigos terem abandonado a noite às 3 da manhã e eu ter continuado até a última música e o último drinque. Foi na rua Nelson Mandela que, depois de algumas beberagens mágicas na Drinqueria — ali ao lado, na Voluntários — uma menina tentou rasgar-me a roupa num beco escuro não muito longe da fábrica. Foi na rua Nelson Mandela que outra menina, a primeira das grandes desilusões, tentou rasgar-me a alma e foi na rua Nelson Mandela, em frente à fábrica, que comprei revistas velhas do Tio Patinhas — edições raras, da década de 1970, três por dois reais — para refazer-me da briga dilacerante. Ali ao lado, na Voluntários, nós comíamos o prato feito com o refrigerante de dois litros trazido na cara-de-pau da farmácia Pague Menos.
E antes, não havia farmácia Pague Menos e nem mulheres tentando rasgar a minha roupa ou a minha alma. E não havia Drinqueria, então depois do filmeco alternativoso eu e o meu amigo Bernardo éramos obrigados a beber num boteco decadente que por alguma razão ainda existe em frente ao Espaço Unibanco onde tocava música sertaneja e eu descobria a universalidade da dor.
E antes, antes disso, depois de cruzar a ponte Rio-Niterói no 996 ouvindo “Head like a hole” do Nine Inch Nails e lendo algum comentarista de Foucault (por indicação da Cristina, uma professora da UFF) ou algum comentarista de Kant (por indicação do Fernando, um professor da UFF), eu descia na São Clemente e andava até o ponto do ônibus do meu condomínio (porque eu morava e ainda moro a uma hora e um milhão de milhas da rua Nelson Mandela) e ouvia “Supersonic” e ouvia os operários da fábrica jogando bola às seis da tarde, depois do serviço — com uniformes e tudo — e não sabia qual era o meu lugar no mundo — antes de ser um mestrando em economia perdido na vida, antes de ser um nerd na PUC perdido na vida. E os operários gritavam, e eu só sabia que estava voltando para o que conhecia — knowing just where you’re going, you’re gonna find your way out of the wild Wildwood.
E antes, anos antes disso, eu estava a caminho do mesmo Espaço Unibanco para um filminho independente americano — que por alguma razão chegou ao Festival do Rio e depois não chegou nem a ser distribuído em DVD no seu país de origem — qualquer que tinha chamado a minha atenção pela foto do cartaz e pelo título curioso que não recordo mais, e eu achava curioso que houvesse uma fábrica no meio de um bairro tão pouco fabril. Lembro de como o filme me fascinou pela sua sinceridade, pela sua simplicidade de surrealismo tosco. Eu passaria a freqüentar o cinema, e a barraquinha de livros de um real daquele velho curioso conhecido simplesmente como Baiano — que além de vender livros que não entendia consertava ventiladores e máquinas de costura e me deixava examinar em primeira mão os livros cujo valor (e logo posição na barraca ao lado) não tinha chutado ainda, e que apostava no jogo do bicho pelas placas dos carros que estacionavam em frente à sua barraca.
A rua Nelson Mandela continua sendo um pedaço de vida entre a São Clemente e a Voluntários por força do seu semáforo inexoravelmente desregulado que abre a rua por trinta segundos para fechá-la por outros cinco. A prefeitura autorizou quiosques verdes de lata neste pedaço de rua que seria inteiramente inútil ao trânsito não fossem os ônibus de condomínio e o estranho 75-D, que visita lugares em galáxias desconhecidas; o semáforo, as barraquinhas, os engravatados esperando os ônibus de condomínio, os extraterrestres esperando o 75-D e os operários jogando futebol formavam um microcosmo, uma ecologia toda própria. E surgiriam outros quando o velho livreiro que também consertava ventiladores sumiu, provavelmente transferido para o Valhala dos sebos de um real onde intelectuais durangos e ecléticos sobrevivem em uma economia de mineração de pilhas democráticas de papel — listas telefônicas misturadas com primeiras edições de Raymond Chandler, revistas Ele Ela, panfletos do Sindicado dos Corretores Imobiliários e muita, muita literatura tragicamente subvalorizada e descoberta somente através dos sebos de um real.
Foi-se o livreiro que consertava ventiladores, foi-se a fascinação com os filmes, foi-se a necessidade do boteco sujo quando surgiu a Drinqueria ao lado, foi-se a mulher que tentou rasgar-me a alma e nunca quis entrar na Drinqueria e a mulher que conheci na Drinqueria e tentou rasgar-me a calça na rua Nelson Mandela, e agora foi-se a fábrica onde os operários jogavam futebol no campinho anexo, e mesmo não estando tão perdido na vida quanto antes — e seria assustador se ainda estivesse — mas eu ainda preciso da rua Nelson Mandela.
Chegará o dia em que não precisarei esperar todos os dias da vida esse ônibus que me leva a esse longínquo condomínio na semimítica Barra da Tijuca, mas eu ainda estarei no ponto do ônibus esperando toda vez que precisar de um refill de confiança e nexo familiar. E chegará o dia onde estarei completamente só no mundo e não haja onde procurar essa semântica primitiva da compreensão cotidiana.
E talvez mesmo então eu precise da rua Nelson Mandela, embora pelo ritmo das coisas esta já terá perdido suas barracas verdes de lata onde brotam livreiros, salões impromptu de corte de cabelo e técnicos de PC e só haverá o silêncio do seu semáforo desregulado, e talvez mesmo então eu precise do cheiro de chuva, cimento, gasolina e mijo para reconectar o homem velho que eu estou construindo a cada dia ao economista sentado no cimento gelado em torno da grade do metrô com seu caderno improvisado e um daqueles lápis que fluem como leite na FGV, e ao mestrando perdido na vida voltando grogue ao amanhecer da Casa da Matriz, ao maníaco-depressivo passional que não deixou que arrancassem suas roupas por esperança de um amor duradouro, ao romântico aparentemente incurável no meio de uma briga infinita com a menininha triste e gordinha que julgava ser a alma gêmea, ao ex-futuro cineasta confuso bebendo num boteco sujo com um ainda futuro cineasta por falta de bares melhores na região, ao estudante de cinema sem a menor idéia de qual é o seu lugar no mundo observando os operários jogando futebol, ao adolescente tímido fascinado pelos filmes alternativosos do Espaço Unibanco.
E pode ser que eu não tenha mais o cimento úmido da rua Nelson Mandela, substituída por um conjunto residencial genérico, mas os aforismos repetitivos dos seguidores de Kundera estão certos, certos como os aforismos óbvios costumam estar — o cimento é efêmero, as ruas são eternas.


E tem mais, eu morei na esquina.
Comment by Hermenauta — September 9, 2007 @ 7:24 pm
Comment by uberspazz — January 11, 2008 @ 12:14 pm