Até muito recentemente, eu era um econometrista amador que se deleitava em inferências sutis obtidas acidentalmente a partir de dados descolados rapidamente de uma tabela qualquer — passatempo de outsider no buraco em que minha carreira acadêmica descendente tinha me jogado.
Agora que eu estou trabalhando numa instituição de consultoria/pesquisa bastante grande, o jogo é outo — eu tenho objetivos concretos especificados de antemão e prazos razoavelmente fixos — e logo modelos que deve ser bem melhor especificados.
Por outro lado, tenho um estagiário para obter os dados e transformá-los para o formato que melhor me convier. Como todo estagiário, ele comete erros, às vezes graves; quer dizer, eu já fui estagiário e errava muito ao digitar tabelas impressas de livros antigos, coisa que o meu estagiário ainda não teve de fazer mas deverá fazer a partir de hoje.
Eu devo dizer, às vezes me invade uma dúvida existencial quando percebo que estou estimando 400 parâmetros a partir de 700 observações. Basta que um estagiário no IPEA ou na FIPE ou na FIRJAN ou na FIESP tenha errado para que o trabalho de dezenas de econometristas teóricos durante 30 anos de desenvolvimento metodológico não sirvam pra nada.
Eu já o vejo, um estagiário da FIESP com sotaque irritante e cabelinho de emo querendo “sair mais cedo do estágio, mano.” — com sotaque. E digitando tudo errado.
A econometria é um resumo da condição humana, meus caros.
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