O efeito mais notório do Topamax sobre mim provavelmente é o de acalmar as “vozes” — a coisa que eu tenho de ficar me questionando o tempo todo. Quando eu apresento os meus resultados ao chefe (ou ao chefe do meu chefe, como aconteceu nos últimos dias), eu sinto segurança quando eles fazem questionamentos. E respondo, sem medo — eu sou o economista, e este é o meu diagnóstico.
Mas é uma droga complexa, cujo funcionamento é pouquíssimo compreendido e que já tem efeitos imprevisíveis sobre a epilepsia — que dirá sobre o transtorno bipolar. Eu conheço um caso em que o Topamax trouxe apatia profunda e um outro em que houve um efeito antidepressivo acompanhado de alguma afasia — dificuldade de formar frases. Comigo aconteceram coisas igualmente bizarras: a Coca-Cola perdeu completamente o gosto, eu estou incrivelmente concentrado e produtivo mas termino o dia completamente exausto e durmo como uma pedra — um sono muito diferente do sono induzido pelo benzodiazepínico, que vem de um relaxamento gradual.
É obsceno que o site oficial tente vender o remédio como prevenção para a enxaqueca. De todos os psicofármacos que eu já tomei (e eu não estou falando de prozac, eu estou falando de coquetéis tropa-de-elite-osso-duro-de-roer), este é o único que tem um efeito sobre a minha personalidade, e eles tentam vender como uma neosaldina glorificada?
Ok, Topamax pode prevenir suas enxaquecas no lugar de curá-las quando elas aparecem, mas se você quiser parar deve reduzir as doses gradualmente, sob pena de ter convulsões tônico-clônicas (daquelas de ficar se debatendo no chão) sem nunca ter tido epilepsia antes. Isso parece um risco razoável para um remédio de dor-de-cabeça?
Mais interessante que o comercialismo cru dessa idéia, no entanto, é a fama que o medicamento está adquirindo por causa de um efeito colateral. É sintomático da nossa cultura — na comunidade do orkut, uma menina adolescente pergunta “qual é melhor, topiramato ou femproporex”. Femproporex é uma anfetamina, uma dessas drogas aceleradoras como a cocaína e o speed. E Topamax é um anticonvulsivo, pelo amor de Mingus.
E o tal efeito colateral não é “perda de peso”, é anorexia. Não a anorexia-fenômeno cultural, de “oh, eu estou imensa, não posso comer mais nada”, é anorexia de não sentir fome, de comer duzentos gramas no quilo e sentir-se cheio pelo resto do dia, ou estar perdendo a hora do almoço estreando o diário novinho porque a idéia de levantar e andar no sol por cinco minutos parece não compensar a escassa satisfação que um pouco de comida vai trazer.blog blog journal ue
E a exemplo da falta de gosto da Coca-Cola, não é agradável. É estranho e um pouco contraditório dizer que “não sentir necessidade” de uma coisa não é agradável, mas quantas pessoas não estão por aí se queixando da falta de libido?
E então você procura a persuasão racional. Eu digo ao meu colega de trabalho –
– “Convença-me de que devo almoçar”
–”Almoce, é bom para você”
–”Isso não é um argumento completo, é dodging the question”
–”Bom, se você não quer almoçar, por que quer ser convencido de que quer almoçar?”
– “Porque não é bom pra mim ficar sem almoçar, e no entanto não quero ir almoçar”
–”Bem, o que você quer que eu diga?”
– “Sei lá, eu quero um argumento racional, do tipo ‘você vai ter úlceras’, mas algo que seja verdade”
– “Bem, eu sei que você não está malnutrido. Eu estaria mentindo se dissesse que você vai ter úlceras se não for almoçar hoje, e eu sei que não quer ser iludido.”
E então eu digo a uma menina bonita com quem eu gosto de bebeflertar:
— “Convença-me a almoçar”
– “Hum. O que você tem vontade de comer?”
– “Nada!”
– “Nem sanduiche?”
–”Ficar de onda no pc está melhor que almoçar.”
–”Então, fique!”
–”Mas eu preciso almoçar.”
–”Por que?”
–”Porque senão eu vou ter úlceras & etcéteras.”
– “Você nao quer me ajudar a escrever meu projeto para o mestrado?”
E o interior da minha barriga começa a doer em antecipação psicológica da úlcera dos meus pesadelos.
Mas eu não sinto fome. E não vou levantar daqui.
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