Aconteceu de verdade. Acaba de acontecer.
Depois de muitos dias de paz e alguns de caçar dados e refletir sobre eles — coisa que eu faço bem e numa profundidade maior que os meus pares — chegou a hora de escrever um texto curto — e eu tenho enfrentado dificuldades para escrever, dado que eu resolvi tomar um pouco de topiramato pra conseguir me socializar pelo menos um pouco — sobre esse furacão que o mundo está enfrentando. Depois de não conseguir me concentrar por meia hora, me vem a loucura — eu já estou bastante manic, dormindo quatro horas por noite, me enfiando em situações sociais inesperadas, etc. — e pego o que sobrou da bupropiona. Para não arriscar, eu corto a pílula de 150mg com os dentes e engulo a metade.
Não passam dois minutos, e passa um colega de trabalho. Não o meu colega a que sempre me refiro, que tem amigos psiquiatras, tomou paroxetina e segura a minha onda porque sempre dividimos trabalho; um homem um pouco mais velho, muito simpático, amigo do meu ex-orientador. Figuraça. Todo mundo gosta dele, e eu também. Ele se aproxima da minha mesa, olha para o meu copo cheio de café, e alude a um estudo que eu, ele e o meu colega que sempre salva o meu pescoço discutimos outro dia.
“Isso é pior que adoçante”, diz ele.
O tal estudo era uma análise longitudinal gigantesca com mais de 100 mil participantes que mostrou estatisticamente que aspartame não é cancerígeno. Ele não engoliu muito bem a história, por razões estatísticas — confounding variables, etc. etc.
“Er, vamos lá. Discussão médica sobre os efeitos do café”, digo eu.
“Não, eu só estou dizendo que isso é pior que um copo cheio de adoçante”
“Ahm, o café tem vários benefícios. A começar por..”
“Isso a esta hora da manhã é um estimulante.”
“Esse é o objetivo”. O bom humor, que sempre pauta as conversas com essa pessoa, começa a aumentar.
“Se você tomar isso tudo vai sair daqui quicando.”
“Esse é o objetivo”.
“Mas você não vai conseguir se esvaziar à taxa desejada.”
“Eu tenho meios de me esvaziar à taxa desejada.”
“Você não vai conseguir. A coisa é endógena.”
“Eu tenho mecanismos exógenos de me esvaziar. Eu tenho os meus jeitos.”
Nesse momento eu quase abri a antiga caixa de óculos dele (eu ocupo a antiga baia dele, posto que ele está em missão no exterior e só passa algumas semanas no Brasil de vez em quando) e mostrei os meus comprimidos de Rivotril — bem como o resto da bupropiona. Mas achei que não era bom revelar isso pra ele, dado que ele estava preocupado com o efeito estimulante do café.
Isso um minuto e meio depois de eu ter engolido bupropiona para ver se me estimulava um pouco. So much trouble in the world, nigga, can nobody see your pain?
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