Como gosta de dizer Alone, o último dos psiquiatras, vamos todos, em corinho: o que o autor do texto quer que você acredite que é verdade?

O tema fixo do Alone (quando ele não está desenvolvendo sua Grande Teoria de depth psychology do narcisismo) é que autores de estudos médicos revelam ostensivamente “conflitos de interesse” de caráter financeiro — os cientistas estão recebendo alguma bolsa de apoio à pesquisa de uma indústria farmacêutica — para esconder fontes mais sutis de viés. Eu não vou resenhar (o que requereria desconstruir o seu impenetrável sarcasmo) as aventuras do bom doutor no espinhoso terreno da ética na pesquisa científica.
O que me interessa aqui é extrapolar o seu tema-base (existe uma fonte conhecida de viés, e todas as outras são invisíveis) para uma pequena crítica da crítica das ideologias, mediante — como só podia ser — uma crítica dos critérios da crítica das ideologias. Consegui confundir? Ótimo.
Tome-se uma função de classificação FC: T2 -> [0,1] que toma como input uma teoria sobre os estados possíveis do mundo e retorna um número que diz o quanto a teoria T se parece com uma “teoria clássica” conhecida por todos os participantes da discussão (Stay with me, vai ficar claro daqui a pouco). Dá pra ser mais preciso sob pena de tornar o texto muito mais chato. Por um lado, há como se definir de maneira muito mais exata o que é uma teoria em termos da lógica modal “superjacente”. Por outro, existem definições matemáticas bem definidas de uma FC (a celebrada divergência de Kulback-Leibler, que serve até pra tirar moedinha de bueiro, por exemplo) se estivermos dispostos a definir uma teoria como um conjunto de estimativas probabilísticas; a discussão a seguir independe desse formalismo.
Definimos o contradomínio de FC como um intervalo fechado, o que quer dizer que dentre os valores possíveis de FC(.,.) estão 0 e 1. Mais ainda, em alguns casos pode ser que 0 e 1 sejam os únicos valores possíveis. O quanto uma teoria da história parece com o marxismo do Manifesto Comunista (MMC)? Diferentes meta-historiadores podem avaliar a história das teorias sobre a história (estimar uma regressão logística multinomial, diriam os probabilistas) e dizer que Braudel é mais parecido com MMC do que Polanyi ou vice-versa, mas para os fins de um argumento muitas vezes é mais simples associar uma afirmativa específica que um participante específico de uma discussão está fazendo como sendo ou não sendo parte de MMC. Se pessoa X diz que a história é determinada pela evolução dos modos de produção, a tendência geral é abreviar e dizer que pessoa X está afirmando MMC.
Os contra-argumentos, evidentemente, são tantos quanto são os sistemas diferentes de MMC que conseguem dar conta de forma convincente de uma teoria da história, se formos generosos o suficiente para não partir para puxar os cotonetes que sustentam MMC — uma das premissas que torna MMC válida. De fato, como MMC na verdade é uma família de teorias logicamente consistentes {MMC1, MMC2,…} que conseguem provar as afirmativas do Manifesto Comunista, é mais fácil puxar os cotonetes do laissez-faire neoclássico (LFNC) para ver o mecanismo em funcionamento — retire a racionalidade otimizadora e o sistema cai por terra; a família mais ampla de teorias de laissez-faire {LF1, LF2, ..} tem exemplos (digamos, laissez-faire ricardiano (LFDR) ou laissez-faire austríaco (LFVM)) que permanecem sólidos sem o cotonete da racionalidade otimizadora.
Em todo caso, o argumento por identificação é mais direto e abreviado que o argumento por contraposição ou por desconstruçao lógica. Digamos, se no meio de uma discussão razoável sobre canais de endogeneidade na formação de paradigmas kuhnianos (mecanismos pelos quais a estrutura do discurso científico sobredetermina a estrutura das revoluções científicas) alguém faz uma afirmativa generalizadora e grosseira, a falta de refinamento desta última pode ser sinalizada por identificação: “mas aí você está dizendo MMC3″. Isso é o suficiente para abandonar uma linha de discussão em um grupo de pessoas que tendem a discutir questões metacognitivas em um paradigma no qual o objeto final (o discurso científico) não é sobredeterminado por uma superestrutura econômica da taxonomia contida no MMC.
Em outras palavras, um argumento (determinando uma sub-teoria T1) pode ser atacado porque sua função de classificação FC(T1,MMC) registrou um valor crítico, e pode para todos os fins ser considerada igual a 1 (ou seja, a falsidade percebida em MMC leva a crer que T1 é falso. Isto também pode ser feito mais rigoroso tanto do ponto de vista modal como do bayesiano, mais uma vez à custa de um texto muito mais chato). Em palavras ainda mais simples e com fonte destacada, a pessoa que disse T1 está enxergando o mundo em preto e branco. E dentro do paradigma pós-moderno (Lyotard) de crítica das meta-narrativas, nenhuma afirmativa em preto e branco pode estar correta.
Arriscando ser repetitivo, eu vou refrasear o que acabo de dizer. T1 é pouco crível porque existe um Y no espaço das “teorias clássicas” para o qual FC(T1,Y) é muito alto, e pode ser considerado para todos os fins igual a 1. A identificação no xadrez de teorias recapitula o “conflito de interesses” na pesquisa médica: como a fonte de viés mais óbvia é a identificação com uma “teoria clássica” e simples, sua simples presença ofusca qualquer outro viés presente. Existe um problema de percepção e um problema de morfogênese aqui.
O problema de percepção está na diferença entre a estrutura lógica subjacente de T1 e seu análogo em Y. Por exemplo, afirmações pertencentes a teorias da família LFVM podem ser confundidas com o endosso das teorias do tipo LFNC, simplesmente porque FC(T1, LFx) é muito alta. (A linguagem informal está fazendo com que meta-níveis estejam misturados com meta-meta-níveis, mas introduzir mais formalismo tornaria o texto muito, muito mais chato). Neste preciso instante, teorias relevantes de supersimetria podem estar sendo desprezadas no campo da gravitação quântica porque sua tecnologia matemática subjacente é associada (por ser uma condição necessária, mas não identificadora) com a teoria das supercordas, tida em baixa estima pela boa razão de que não produz previsões testáveis.
O problema de morfogênese deriva do fato de que todo mundo quer que suas teorias/argumentos sejam críveis. Para tal, é preciso identificar o espaço Y das “teorias clássicas” e produzir alguma representação consistente com a lógica interna da sua teoria (T2) e valores de FC(T2,Y) próximos de 0.5 (ou seja, nem concordando nem discordando integralmente de Y). Isso costuma receber o nome elogioso de lidar com as áreas cinzentas. Como o perfil das teorias bem-sucedidas começa a subir, a associação com estas passa a ser indesejável. O efeito indesejável destes mecanismos meta-cognitivos é que teorias “moderadas” (por exemplo, que aceitam a evolução darwiniana e a teoria da circulação sangüínea de Harvey, mas não excluem a teoria dos doze pólos da acupuntura clássica chinesa) se sobressaem.
Ok, curto e grosso, Twitter-sized? “Não pensar em preto e branco” é uma afirmação em preto e branco. Nada mais estereotípico que a classe média intelectualizada que evita os estereótipos.
É freqüente admirar um ponto de vista pelo seu aspecto cinzento, com FC próximo de 0.5 para a grande maioria das teorias clássicas. Em Obamês, uma característica a se admirar é o bipartidarismo. Em Lulês, a virtude exaltada é a do pragmatismo. A pergunta que deveria estar sendo feita (já que a estrutura lógica interna da maioria das teorias é opaca ou esparsa) é como uma configuração cinzenta específica se tornou estável, ou, invertendo a função, como a constelação de configurações cinzentas admissíveis determina as configurações estigmatizadas como sendo em preto-e-branco.
Às vezes é OK afirmar uma teoria aparentemente em preto-e-branco como “eu acredito na origem neurobiológica da ansiedade generalizada (ON-BAG, byotches)” e não precisar levar em conta as teorias de “causas profundas”, etc. Se você se sente mal com a sua vida, deixe seu email (que será bem escondido dos spammers) nos comentários e eu recomendarei um bom psiquiatra que vai resolver o seu problema com um ou dois remédios, sem meses de blablablá. Às vezes não é OK; a teoria de precificação de derivativos baseada em processos de Wiener, consensual em Wall Street por muitos anos e que eu mesmo apoiei até coisa de duas semanas, estava simplesmente errada.
Como equilibrar as coisas? Pergunte a um mestre zen. Eu só sei de cimento, econometria e coisinhas íntimas.