June 8th, 2009
Esta corrosão.
O decaimento desta cidade tem mais a ver com Chicago do que Detroit - não uma aglomeração industrial do século XX em processo de dissolução, mas o resultado de uma derrota na competição pelo centro intelectual e político. O processo de seleção e sedimentação é recente o suficiente para que exista uma desconexão na passagem entre as gerações: as expectativas dos meus coetâneos se elevaram - em relação às condições da geração dos nossos pais - enquanto as possibilidades concretas da cidade se corroíam.
Nós não somos os órfãos de um contexto de primeiro mundo que nunca veio. São Paulo exibe mais evidentemente o choque - de um lado, a realidade de uma trajetória continental de gargalos e ciclos de progresso e retrocessos; de outro, o paradigma de desenvolvimento que corre nas veias de seus intelectuais e capitalistas. O Rio de Janeiro é uma cidade de herdeiros, e como tais nós desfrutamos de possibilidades de busca - por auto-descobrimento e realização predicada na quieta certeza de que as necessidades materiais básicas não chegariam nunca a ser um problema com o qual lidar.
Evidentemente, isto não é um absoluto - afirmativas sobre uma geração devem ser moduladas por e através das distribuições dos parâmetros - renda, educação, especificidades cognitivas e neurológicas. Mais importantemente, as pervasivas marcas visuais do subdesenvolvimento garantiram que nunca ficássemos inteiramente cegos sobre a frágil espessura da teia de privilégio sobre a qual andamos. Na busca por auto-realização, nós sempre tivemos janelas de escape ostensivas - os anos de estudo em direção a profissões supostamente sólidas e remuneráveis. No entanto - mesmo que quase sempre inconscientemente - estas cláusulas de realidade sempre foram um loss leader em contraste com o que nós efetivamente acabaríamos fazendo - fotógrafos, poetas, intelectuais.
Uma depressão econômica relevante desfoca essas estratégias e perdoa sua miopia em face à avalanche maior que se aproxima. A outra rota de fuga é o breakdown mental, apoiado nessas novas taxonomias das sociedades inclusivas: bipolar, borderline, ADHD, maladjusted. Nenhuma destas está realmente sob nosso controle ou foi planejada em primeiro lugar - nossa janela de escape era a inserção cuidadosa na realidade do subdesenvolvimento como pequenos administradores. E não se pense que estas rotas de fuga não são dilúvios devastadores, muito além de qualquer estratégia inconsciente, dissociação cognitiva - o observador separado do indivíduo sujeito às condições inevitáveis da realidade - ou plano míope e ambicioso.
O que está na ponta do precipício, no entanto, é a percepção futura das tentativas intelectuais da nossa geração, e mais ainda a percepção futura da possibilidade, mesmo que teórica, de manter a dissociação intelectual/administrador sem abandonar a cidade, condenando-a incrementalmente à corrosão. E o precipício da nossa geração vai na direção oposta aos precipícios dos seus indivíduos. Como se fôssemos uma colônia de bactérias em uma solução ágar-ágar preparada especialmente para o nosso florescimento, o sucesso do nosso experimento está predicada precisamente na sua interrupção por circunstâncias externas que obscureçam os dados. Nós nunca fomos uma missing generation, e no entanto pode ser necessário para a resiliência desta sociedade que a crônica das gerações nos registre como uma.