October 2nd, 2009
Optando pelo caos
Todos os dias, milhares de cariocas levam o carro de casa para o trabalho, e vice-versa. Dirigir é efetivamente um segundo emprego - requer atenção, paciência e impede o uso do tempo para outras atividades, como escrever, compor ou fotografar. Em geral é um trabalho solitário, e a manutenção do automóvel implica em gastos quase constante. Eu olho pela janela e vejo dezenas de carros habitados por uma única pessoa, fazendo o trabalho que o motorista do ônibus do meu condomínio faz. ¿Por que?
As explicações convencionais enfatizam a qualidade do transporte público, tanto em segurança quanto conforto. Inegavelmente, eu não estaria escrevendo este ensaio no 175; a tranqüilidade trazida pelo fato de estar cercado pelos meus vizinhos (e portanto dentro do número de Dunbar) é um fator que contribui à minha recusa da cultura do automóvel particular. Mas mesmo isto é uma explicação parcial; o trajeto do ônibus do condomínio é limitado, e fora dele estou a pé, de metrô ou em ônibus convencionais.
O calor que esta cidade pode produzir é um fator. É difícil percorrer pequenos trajetos a pé no auge do sol, e mesmo carros sem ar-condicionado atenuam a temperatura com o vento gerado pela velocidade. A oferta de transporte refrigerado é claramente insuficiente, tendo em vista o entupimento completo do metrô e o similar desconforto nos ônibus. Mas em casos de insuficiência de oferta, existe sempre um problema de ovo e galinha.
Considere a galinha. Uma viagem às 11 da manhã em um ônibus sem refrigeração é torturante não apenas por causa da superlotação e do calor, mas pela lentidão que o trânsito e a parada em dezenas de pontos durante o caminho causam. Estes, por sua vez, dependem dos trajetos e das condições correntes sobre eles. A lentidão no trânsito pode ser parcialmente atribuída ao excesso de carros nas ruas, mas este é apenas o canal de feedback do processo. A parte interessante do problema está nos caminhos.
A topografia urbana do Rio de Janeiro pode ser descrita como um sprawl comprimido. Desde que a prefeitura tomou a decisão de evacuar o centro da cidade, esta se espalhou para longe dos centros de trabalho, consumo e lazer. Montanhas foram furadas para que a expansão linear continuasse. Por outro lado, a comunicação com o centro permaneceu importante, dando origem a uma cidade mais apertada - o que complica o problema do trânsito por si só.
Eu ensaio a hipótese de que a abundância de automóveis privados se deve à sua performance superior no contexto do ovo. Dados os trajetos bizarros, engarrafamentos e falta de segurança, a solução do existir em uma metrópole parece exigir rodas, cano de escape e milhares de amadores ao volante. ¿Que hacer?
Sabe-se que a difícil expansão do metrô para a zona sul depende não somente das projeções de demanda, mas da dificuldade de cavar túneis sob os terrenos instáveis irradiando da Lagoa. A solução óbvia, mas politicamente inviável, é passar trilhos por cima da cidade, possivelmente sobre viadutos, cobrindo os principais focos de passageiros. Se há 50 anos os britânicos podiam contar com o trem das 10:13, chegando às 11:02, por que nós recusamos essa possibilidade?
Um dos fatores que nos impede é o fetiche da paisagem. É perfeitamente possível passar um trem por toda a orla da zona sul, eliminando as avenidas costeiras - sempre engarrafadas - permitindo uma programação arbitrariamente precisa, mas cariocas não gostam de sinal fechado.
Em parte, no entanto, o cérebro da cidade não demanda pontualidade, e o trânsito é sempre um pretexto factível para todas aquelas nossas pequenas falhas de planejamento. E no fim das contas, o pretexto é sintomático da cultura. Nós optamos pelo caos, e seus efeitos colaterais se insinuam no ovo - na oferta inadequada de ônibus, na falta de transporte sobre trilhos, na dificuldade de cobrir distancias relativamente curtas a pé, mesmo em dias amenos.
Uma das soluções, claro, é tornar a vida arbitrariamente difícil para os carros. Recentemente ventilou-se a possibilidade de fechar a av. Rio Branco para pedestres, o que tornaria o trânsito no centro da cidade impraticável - e isso seria bom, mesmo que tivéssemos que enfrentar um metrô ainda mais entupido por alguns anos.
A outra solução vem sendo implementada ad hoc. Se não se pode ir da Barra ao centro, o centro vem à Barra. Novos focos empresarias surgem por lá e pela praia de Botafogo, ainda menos caótica que o centro. A descentralização tem grandes virtudes, mas fratura a cidade, que já apresenta sérias dificuldades de sustentar a energia necessária para rodar uma metrópole na sua configuração atual.
Morfogênese.org pensa que trilhos são a solução. Com horários marcados em frações menores que cinco minutos, é mais fácil planejar parcelas do trajeto a pé, o que nos obriga a conviver com as nossas diferenças - com a nossa metade no espelho, que faz a outra metade do trabalho de sustentar uma economia frágil e sem rumo.
Propostas imediatas? Derrube-se o Jóquei e faça-se uma segunda estação central. E, raios, feche-se logo a Rio Branco. Fazendo coro com o meu bom amigo Bernardo, devolvamos a cidade ao cidadão!