April 8th, 2010
Rascunhos sobre o Grande Alagão de 2010
O Rio é uma cidade de cidades misturadas
O Rio é uma cidade de cidades camufladas
Com governos misturados,camuflados, paralelos
Sorrateiros, ocultando comandos…
Sorry, sem morfogênese hoje. É cedo ainda para tirar conclusões, não estou informado o suficiente para analisar em profundidade o Grande Alagão de 2010, e paradoxalmente trabalhei mais e dormi menos nos dias em que fiquei em casa. Estou intelectualmente cansado, mas, de alguma forma, a diversidade (e superficialidade) das análises pipocando nos blogs me impeliu a registrar as minhas próprias reações imediatas, antes que a lama escorra e o dilúvio de informação restaure o clima da cidade ao seu devido lugar na hierarquia do cérebro limitado. Mas deve-se notar que eu não saí do meu apartamento no vigésimo andar do que provavelmente é o mais antigo condomínio da Barra, sendo informado apenas pela internet, TV e dispatches da minha noiva, que ao contrário de mim lê jornais regularmente. A minha perspectiva, portanto, é limitada. Não molhei os pés (ainda; estou saindo de casa hoje) no Grande Alagão de 2010. Caveat lector.
A primeira reação no Twitter, nos blogs ali espameados e nos fóruns d’O Globo mostrou uma preocupação prematura com as causas da crise, acima da incógnita mais concreta do prognóstico a curtíssimo prazo – se teríamos, afinal, uma cidade funcional antes do fim de semana. Pipocaram chutes tirados do nariz travestidos de análise, nas quais predominou o discurso da culpa e do singular culpado. Alternadamente, foram apontados como únicos perpetradores a falta percebida de planejamento das autoridades e a preguiça carioca que entope os bueiros. A pressa de responder, evidentemente, traduz as atitudes dos mais apressadinhos, uma minoria que tem fome de ordem mas não sabe por onde começar, culminando em clamores periódicos pela intervenção militar.
Mas tanto o julgamento sumário e condenação dos planejadores como aquele da eliminação desordenada do lixo são, em parte, uma reação de auto-crítica das nossas consciências coletivas, que em algum nível comemoram com Fernanda Abreu a cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Esta é a mesma celebração inscrita na atitude otimista daqueles que ficaram ilhados pela cidade esperando ônibus, andando quilômetros pelas linhas de trem e enfrentando a noite não dormida sem mau humor ou depressão. O caos faz parte da lei orgânica da cidade, tão imiscuído na law of the land informal que os responsáveis pelo enforcement das regras formais da lei escrita freqüentemente se encontram maniatados ou completamente apáticos.
Em contraste, a reação das autoridades executivas – Paes e Cabral – registrada na mídia foi surpreendentemente madura nos primeiros momentos do alagão, esquivando a tentação demagógica de culpar heranças malditas e governos paralelos (estaduais e municipais), sem camuflar o questionamento constante sobre as causas com truques aristotélicos e assumindo a responsabilidade compartilhada dos governos presentes pelos problemas presentes. É bem verdade que ao ordenar ao seu povo que fique em casa, na manhã da terça-feira 6, Paes não fez mais do que sancionar a law of the land, mas os agentes do poder público parecem ter realmente enfiado o pé na lama, como se um senso de dever ou elitismo tivesse desencadeado uma reação paradoxal ao influxo da desordem que o carioca tanto ama. No fim, toda lei tem seus recalcitrantes, sejam os apáticos maconheiros ou os louváveis funcionários dos bombeiros, defesa civil e outras categorias que foram mobilizadas para tapar os buracos para que a cidade funcionasse ao menos parcialmente na quarta-feira 7.
Parece-me – mais uma vez, da altura do vigésimo andar – que o Grande Alagão teve duas fases, a celebratória e a lacrimejante. A fase celebratória compreende o período em que as chuvas cortaram o trânsito para a maior parte do Rio, na noite da segunda-feira 5 até a normalização do core da cidade nas horas finais da madrugada do dia 6 para o 7. Este core, entenda-se, abrange mais ou menos o Jardim Botânico, sede da Globo, os “bairros de novela” (Gávea, Leblon, Ipanema) e as vias de acesso aos centros empresariais na praia de Botafogo e no Centro propriamente dito. A normalização do core deixou a Barra virtualmente isolada, tendo em vista o fechamento da av. Niemeyer e o caos na Linha Amarela, mas isso não tinha relevância, em boa medida porque existiam mais problemas mais urgentes que vinham sendo obscurescidos pela deslumbrante desordem no core.
Durante a fase celebratória, homens (e mulheres e transsexuais e praticantes do futevôlei) que têm trabalhos duros durante o dia permaneceram em pé durante a madrugada inteira sob uma intempérie que me perturbava só pelo som da chuva na parte exposta do ar-condicionado – sem riots (palavra intraduzível, que carrega simultaneamente sobretons de baderna e revolução), sem raiva aparente, ostentando uma atitude estóica que na presença dos repórteres se traduzia em uma certa alegria por estar participando do “purgatório da beleza e do caos”. Alguém criou um slogan, comparando a falência da capacidade da cidade de providenciar serviços urbanos a um festival: “Alagão 2010 – eu fui”. A TV transmitia ao vivo de um helicóptero que sobrevoava a cidade da Borges de Medeiros até o Borel. A cidade estava provisoriamente unida pela visão da chuva. Mas como disse alguém, todo carnaval tem seu fim.
O governador Cabral anunciava corretamente o desastre desde meados da tarde da terça-feira 6, talvez por preocupação genuína com as vidas dos favelantes ou pelo bom senso eleitoral, que não recomenda alienar grandes contingentes de população que votam e são apoiados pela solidariedade teórica de uma classe intelectual cujo raciocínio torturado confunde o invasor anarco-populista com a classe operária explorada.
A chegada da fase lacrimejante não foi acompanhada do dissolvimento das dificuldades com o Grande Alagão para boa parte dos bairros de classe média da cidade – eu me senti vagamente constrangido por morar tão longe do escritório, que já vinha sendo habitado pelos moradores do core e por estóicos habitantes de terras distantes, que batem ponto e atravessaram odisséias. Mas a ocupação desordenada das nossas colinas tinha tornado o alagão uma tragédia de porte considerável, com centenas de mortes. A cobertura televisiva cortou o sinal ao vivo e passou a repetir incontáveis vezes as mesmas imagens de deslizamento de terra e desespero de uma dúzia de favelantes que foram filmados como amostra. O humor escrachado no Twitter foi rapidamente substituído por lamentos incluindo a palavra “coitadinhos” e exortações a doar para os favelantes que ficaram desabrigados. À exceção de funcionários que eu insisto em chamar de “colegas de trabalho” mesmo quando sua colaboração consiste de café fresquinho, eu não sei quem são essas pessoas, apenas que elas estão aí por causa da pusilanimidade histórica do planejamento urbano carioca.
Honestamente, eu sou mais propenso a doar para a Anistia Internacional, que realiza dúzias de campanhas no mundo inteiro, virtualmente sem viés político, para defender a causa dos direitos humanos em regimes brutais e países aparentemente “normais” que ocasionalmente deixam escapar um impulso proto-fascista. Eu também não sei quem são esses chineses (google “Falun Gong”) que professam uma religião esquisitíssima, ou por que grandes contingentes de população permanecem passivos em relação à shari’a, mas a Anistia Internacional compartilha os meus valores básicos e me mantém a par de todas essas ameaças a um cenário mundial de progresso em direção à universalização dos direitos humanos e da participação democrática.
Existe uma razão séria pela qual eu não uso o termo geralmente aceito para os promotores da ocupação desordenada das colinas do Rio de Janeiro. Apesar das dificuldades da pobreza (e eles têm toda a minha simpatia enquanto pessoas pobres; não consigo imaginar o estresse acumulado de uma vida de luta pelo pão e não desconto a possibilidade de cair dramaticamente na distribuição de renda), estas pessoas não são “favelados”, vítimas passivas de circunstâncias fora de seu controle, mas agentes da favelização – favelantes – com todas as conseqüências sociais que conhecemos – começando pelo tráfico de armas e culminando na deterioração gradual do Estado, que precisa reagir constantemente na defensiva. Estas conseqüências, aliás, podem até incluir a eliminação da vegetação dos morros que de alguma forma (acho que ninguém sabe estimar ao certo o peso climatológico deste fator) absorve a humidade em estações chuvosas e a dispensa durante as estiagens horrendas que quase me fizeram desmaiar um par de vezes no verão.
Existem razões genuínas para condenar a ocupação desordenada das colinas, demonstradas dramaticamente em episódios de chuva forte. No entanto, os diversos esforços do planejamento urbano para resolver o problema das favelas são persistentemente sabotados pela violação das cercas e muros de contenção que são construídos como solução de compromisso para evitar o aprofundamento do processo de favelização. Com homens (e mulheres e transsexuais e praticantes do futevôlei) de envergadura intelectual presos em Cuba e na China por quererem se expressar livremente, eu não consigo juntar boa vontade para cariocas cujo pleito é não pagar um aluguel em Santa Cruz.
É evidente que o Grande Alagão de 2010 trouxe conseqüências trágicas, e que estas vêm sendo concentradas nas classes com menos condições de enfrentá-las. Mas a única conseqüência positiva da Fase Lacrimejante de quarta-feira, 7 de abril, é o alívio temporário para as dificuldades (dramáticas, que persistirão muito depois do entusiasmo por doações passar) enfrentada por favelantes que podem muito bem ser relativamente inocentes em relação às violações mais recentes do pacto entre o Estado e as invasões. No meio-tempo, a Fase Lacrimejante funciona como uma cortina de fumaça lama enquanto arrefecem as exigências de um planejamento urbano – aqui embaixo, onde se paga IPTU em troca de… serviços urbanos – que lide com os problemas enfrentados periodicamente pelos cariocas – trânsito, segurança pública, transportes coletivos adequados para as diferentes demandas de conforto, controle dos alagamentos (com chuvas esparsas de verão, a Voluntários da Pátria já esteve alagada em 2010, o aterro do Flamengo em 2008 e a praça Afonso Pena nos dias pares) — em suma, urbanismo de qualidade, alvejando qualidade de vida. Mas claro, à falta de vontade política alia-se a nossa predileção pelo caos, e as cobranças políticas que se elevam em períodos de crise se desfazem rapidamente — just like castles made of sand melt into the sea.