A separação urbana em metástase
Eu acabo de ser agressivamente importunado por uma ameixa seca vagamente reminiscente de uma mulher que eu nunca vi na vida quando estava embarcando no ônibus do condomínio. Evidentemente, era a última coisa de que eu precisava depois do dia extraordinariamente estressante (o dia mais tenso em quase dois anos na mesma instituição), mas isso é menos interessante agora.
A fruta cristalizada em questão é uma condômina que foi encarregada de cobrar as carteiras de morador em uma assembléia da qual a maior parte dos moradores que realizam atividades produtivas fora das fronteiras do condomínio provavelmente não participou.
Condomínios são uma estrutura política curiosa, se descontextualizada. O fato gerador de um condomínio é semifeudal — um grupo de pessoas é ligado por uma propriedade de terra sobre a qual dividem o domínio, uma característica de sabor distintamente feudal no sistema de propriedade privada. Como este é um condomínio grande, com sete prédios e amplo terreno, o número de con-dôminos excede em pelo menos uma ordem de grandeza o número de Dunbar — o tamanho máximo de uma comunidade estável, estimado entre 150 e 290. Pergunta do Morfogênese: como uma comunidade de aproximadamente 5000-7000 pessoas se organiza para manter o con-domínio de uma propriedade privada?
Parece-me que sistemas políticos têm uma natureza fractal: o mesmo processo que organiza os sistemas políticos mais amplos (ao nível nacional, por exemplo), se replica em escala proporcional dentro das burocracias (mesmo da legislativa, onde se fala francamente de alto e baixo clero). Atenção é uma commodity escassa, e o poder flui, em artérias e capilares para os grupos com níveis de atenção política (que evidentemente deslocam outros focos de atenção) mais alta, através de complicados sistemas de lobbying e parcerias de longo prazo.
A estabilidade e viabilidade de um condomínio (este existe há décadas) depende criticamente de pressões externas — a tensão entre nós e eles da qual tenho falado. A comunidade chega a organizar transporte exclusivo para os centros onde nós estudamos e trabalhamos, de modo a que eu possa me sentir seguro com o meu computador em pleno trânsito do Rio de Janeiro.
O motorista de ônibus de condomínio experiente não só conhece os viajantes regulares como tem um bom sistema de inferência sobre a probabilidade de que um desconhecido faça parte do condomínio. Apesar de ser um deles, o motorista assimilou todos os estereótipos que nós e eles adotamos para nos diferenciarmos: todos nós sabemos olhar para a foto de uma pessoa e acertar com boa probabilidade se estamos vendo um de nós ou deles.
A razão para o crackdown periódico sobre a identificação condominial (eu perdi uma carteira com documentos muito mais importantes) é a superlotação dos horários matinais. Suspeita-se, com alguns exemplos conhecidos, que o transporte do condomínio esteja sendo infiltrado por moradores dos arredores. Encontrando-se na situação de produzir uma externalidade positiva para uma comunidade ligeiramente mais ampla (mas ainda composta de pessoas como nós, que de outra maneira teriam sido identificadas imediatamente), a assembléia do condomínio resolve controlar ativamente o uso (de outra maneira casual, pontuado por uma relação amistosa com os motoristas) do transporte. Para isso, procurou-se dentre os condôminos suficientemente desocupados para prestigiar uma assembléia marcada para as altas horas de uma quarta-feira, a ameixa mais seca — a pessoa que menos contribui para a sociedade fora do condomínio.
A questão do free rider é levantada em justificativas formais para o inconveniente de carregar identificações condominiais com fotos que dizem “ei, eu sou assaltável”, mas é significativo que nunca tenha se levantado a hipótese de associar-se aos condomínios residenciais dos arredores para uma cobertura de ônibus mais ampla, dividindo-se os custos — posto que não há na região senão famílias de classe média e educação universitária. A causa do nós contra eles se metastatiza quando o isolamento da sociedade em geral — onde o contato com eles é diário — se correlaciona com a tomada de decisões e execução de políticas: para a mais seca das ameixas secas, o morador do condomínio ao lado é um deles como a nobre trabalhadora que esvazia minha lata de lixo duas vezes por dia e provavelmente usa os trens da Central.
No limite, o espaço em comum se esvazia. O mesmo processo que ocorre entre condomínios vizinhos entre si acontece nos diversos escalões onde a conveniência, o hábito e o medo criam a necessidade de separar o dentro do fora. O shopping em Botafogo ilumina suas paredes para criar arredores habitáveis (e portanto um acesso seguro às suas dependências, enquanto a praça a trinta metros degenera em algo inabitável, simplesmente porque não é seguro.
Não se deve tirar lições de moral fáceis desta descrição de um processo dinâmico. Suas componentes são, na maior parte, tão legítimas quanto é legítimo e racional o meu medo de abrir o meu notebook em um ônibus urbano comum. A lição que eu tirei hoje do confronto com a ameixa seca é mais um esboço de um processo dinâmico entre muitos processos dinâmicos que não só definem a geometria política do espaço físico nas minhas proximidades como exemplificam um processo geral que determina a geografia política do espaço urbano que faz parte do meu cotidiano.
Ao menos, este é um caso no qual eu não estou do lado negro do filo maquínico — a não ser na medida em que meu trabalho determina indiretamente a renda do capital que permite que estas ameixas secas se isolem da sociedade, e as torna agressivas e assustadas em relação à comunidade dos arredores. A separação e desconfiança entre classes é natural, mesmo que indesejável; a separação e desconfiança dentro de uma classe mostra um processo dinâmico mais profundo que pode estar por trás deste canal de morfogênese urbana: a classe média é mais tolerante consigo mesma na medida em que convive — em geral em relações mediadas por hierarquias em instituições onde trabalham faxineiras e econometristas — com as outras. Esse parece ser o ponto crucial: con-vivência. E este é o ponto onde eu guardo o meu laissez-faire para me preocupar com o design de espaços de convivência pública.
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