Preto e branco (ou, sobre as nuances das questões nuançadas) »

25 coisas politicamente incorretas que você não sabe sobre mim

  1. Eu não sou mulher. Um classificador de texto (aparentemente treinado em 110 mil blogs, metade de homens, metade de mulheres) que prevê corretamente que o meu blog em inglês é 76.1% male, afirma que o meu Twitter é 64.8% female. Por alguma razão, eu tenho a sensação de que boa parte da platéia em potencial vai achar este blog menos interessante porque eu não sou uma mulher de 26 anos, independente e descolada.
  2. Eu sou um homem de 26 anos, independente (e não leiam “solteiro”, plz.) e descolado. “Independência” significa ninguém me diz que música ouvir, que livros ler, qual é o veículo para a minha arte ou qual é o meu inferno particular neste planeta. “Descolado” significa que eu não consigo subir paredes. Eu uso t-shirts e tênis em um lugar onde se espera paletó e camisa. Hoje um sujeito no metrô elogiou a minha blusa.
  3. Eu colo dominós.  Eu faço pequenas esculturas com dominós e cola de plástico do tipo que deve ser lavada imediatamente com álcool se cair na mão. 
  4. Durante um tempo, tentavam me pegar a pecha de “indie”, e eu respondia, com uma gota e meia de afetação, que era “post”. Não ando mais com pessoas cujo vocabulário inclui “indie”.
  5. Na ordem, Kultivator, June of ‘44, Bark Psychosis, Comus e Boards of Canada. Röyksopp está fazendo bonito, e pode ser a melhor coisa que 2009 trouxe ao universo da música pop.
  6. Eu não gosto tanto assim de música pop. Até os 16 anos eu era uma espécie de  nazista musical, ouvia apenas música clássica e identificava Rachmaninoff com uma espécie de decadência comercial, em contraste ao microtonal Krzyztof Penderecki (eu tive que ir ao Google para confirmar a ortografia de “Krzysztof”). O meu primeiro disco de música pop foi “Superunknown” do Soundgarden.
  7. Eu pareço muito arrogante e sou muito arrogante. Acontece, no entanto, um mismatch em muitas ocasiões — eu pareço muito arrogante quando estou sendo pouco arrogante, ou vice-versa. 
  8. Bipolar II com prevalência de estados mistos. (É o que está na minha ficha. O DSM-IV diz que episódios mistos excluem bipolar II — em outras palavras, segundo os critérios ianques, Bipolar I). Sintomas idiopáticos de despersonalização/desrealização (a hipótese de epilepsia foi descartada por um EEG) e alguma coisa circadiana (o meu colega de trabalho conhece a minha crise existencial das 17 horas). TDAH com predominância de desatenção. (Stavigile/Provigil/modafinila me deixa um pouco hiperativo, fisicamente, mas dura muito mais que a Ritalina LA). 
  9. Descobri recentemente as Gertie balls. O supra-citado colega de trabalho comprou uma em um aeroporto e eu obcequei. Minha menina me levou a um lugar no Lgo. do Machado (ou no Catete, quem sabe a diferença?) que tinha várias cores! Tenho uma no trabalho, uma na mochila e duas em casa. Estou sempre quicando com as minhas Gerties.
  10. Às vezes eu me descrevo como “deleuziano/de-landiano”, mas eu só li a primeira metade do Mil Platôs. Nada do Capitalismo e Esquizofrenia ou da Lógica do Sentido. Em compensação, eu releio constantemente as obras completas do Manuel de Landa, que recolocam os temas do Deleuze em contextos relevantes à filosofia analítica. Deleuze é uma flor no lixo, no contexto da filosofia francesa pós-segunda guerra; De Landa fala em termos que podem ser contextualizados em relação a filósofos de verdadeParte da minha cabeça está tentando reconciliar o “Intensive science” do de Landa com o “Naming and necessity” do Kripke o tempo todo.
  11. Eu comecei a estudar física (bem, pulando coisas que são conseqüências triviais da matemática que eu já tenho) para pescar o que há de interessante na matemática deles em termos de modelar sistemas não-lineares. Lanczós é o meu pastor, e Gelfand minha lanterna. 
  12. Eu fui uma criança-prodígio. Não sei o que deu errado. Eu falava articuladamente antes do primeiro aniversário e lia/traduzia fluentemente entre dois idiomas antes do terceiro. Em algum lugar, alguma perturbação na força fez com que eu me perdesse na mediocridade.
  13. Eu tirei esta foto:
     
  14. Eu acho “All eyes on me” do Tupac uma obra-prima de paranóia, vista pelo Príncipe de Maquiavel. 
  15. “Halcyon and on and on” do Orbital é uma espécie de droga estimulante, especialmente em loop. Modafinil and on and on and on.
  16. Eu acho que a realização de eventos esportivos da escala de um Panamericano/Copa do Mundo/Olimpíada no Rio de Janeiro é, via de regra, uma péssima idéia, e só ocorre por uma autocatálise perversa entre empreiteiros e a tendência muscular, anti-intelectual do “povo”. Acentue a nota de desprezo em “povo”.
  17. Eu ando querendo um programa de levantar pesos (tem a aparelhagem toda no meu condomínio); quero braços mais fortes, simplesmente por uma questão de equlíbrio; mens sana in corpore etc.
  18. Eu sinto essa divisão entre “nós” e “eles” na medula, de uma forma que o intelecto não alcança. Não estou falando do intelecto versus músculo, estou falando de “classe média carioca, de educação superior” e “eles”, que pegam o trem na Central e esvaziam a minha lata de lixo do trabalho duas vezes ao dia. Eu sofro da minha parcela de síndrome de culpa da classe média, mas no fundo, não consigo extrair mais empatia do que tenho com as vítimas da guerra civil em Darfur.
  19. Eu não sou, filogeneticamente, herdeiro da “classe média carioca” profunda; sou filho de imigrantes, e fui absorvido, abraçado, educado e convertido. Eu sou um de “nós”, o suficiente para esse desconforto visceral com “eles”.  Eu vivo em uma cidade onde não posso sentar em um parque ou café e abrir meu Macbook sem uma notinha de medo; “eles” não são uma ameaça concreta individualmente, mas o choque constante da sobreposição geográfica de duas populações que secretamente se odeiam cria a sensação de uma ameaça invisível, paranóica.
  20. Sou freqüentemente acusado de racismo e sexismo por ser um pouco realista e reducionista demais em algumas avaliações da realidade. Acho que escapei à pecha de homofóbico por ter sempre tido homossexuais, homens e mulheres, no meu círculo de amigos. Eu não criei essas divisões — elas foram propostas a mim, e eu não sou bom em acomodar a dissonância cognitiva que os criadores de divisões exigem. O dinheiro que eu não consigo evadir ao coletor de impostos (em geral via tributos embutidos no preço de varejo das minhas compras) é utilizado para desmontar o projeto iniciado nos anos 1930 de uma vida acadêmica no Brasil na medida em que os padrões precisam ser continuamente reduzidos para acomodar estudantes cotistas despreparados, enquanto o ônus da prova é revertido para pensões matrimoniais — o único caso fora da lei islâmica em que existe prisão por dívidas!
  21. Eu sigo à risca as regra 10-12, com todo o seu conteúdo sexista. Eu explico provocaçõezinhas da teoria dos números (do tipo conjectura de Collatz) ao meu estagiário — o mesmo estagiário que erra constantemente nas planilhas que eu preciso dele. Resumindo um pouco as regras (porque um link seria traição): Don’t undermine your fellow young men. Mentor the young men that come after you. Society recognizes that you have the potential to be the most power force in society. It scares them.  As a young man, you’re on your own. Society divides and conquers. Unlike women who have advocates looking out for them (NOW, Women’s Study Departments, government, non-profit organizations, political advocacy groups) almost no one is looking out for you. YoAung men provide the genius and muscle by which our society thrives. They are afraid of you, both individually and collectively.  By in large, it was not old men or women that created the revolution we live. Realize that society steals your contributions, secures it with our intellectual property laws, and then takes credit and the rewards where none is due. Em todas as sociedades os suicídios são desproporcionalmente de homens, por margens de 600 a 900%.
  22. Agora que estabeleci minhas credenciais de “sexista” aos olhos de quem não veria o mesmo se eu estivesse falando de mulheres, devo ressaltarque  mesmo os mais extremistas não podem me acusar de misoginia: com duas  exceções, todo o meu círculo de amizades é composto de mulheres. Eu sempre tive mais facilidade social com mulheres, e em muitos pontos dramáticos da minha vida foi de valor crítico a forma como fui obrigado a aprender a entender expressar meus sentimentos por causa desse contato.
  23. Eu não sou um monógamo serial. (Eu tive a minha fase, durante um breakdown que durou de janeiro a junho de 2007, quando fui diagnosticado) Eu fiquei solteiro, sem nem ao menos diversão ocasional (eu não arriscaria as minhas amizades com mulheres por um amasso vácuo) por muito tempo e permaneceria assim indefinidamente se não tivesse encontrado por acaso the one. Eu não sou romântico; é apenas o que aconteceu. Uma das coisas que eu aprendi é que em matérias de amor você simplesmente sabe. Não há regras.
  24. Eu toco baixo, guitarra, teclado, um pouco de piano, um pouco de gaita. Em geral aprendo a arranhar um instrumento em poucos minutos. Muitas vezes consigo tirar de primeira uma parte instrumental de ouvido. Muito do que consigo fazer com as mãos com um instrumento, consigo fazer de costas, com o teclado atrás de mim ou a guitarra atrás do meu pescoço.
  25. Eu odeio usar meias. Se fosse mulher, usaria sandálias com os dedos livres sempre. Quando chego em casa arranco as minhas meias e jogo em qualquer canto. A sorte, que me acompanhou desde que eu era um nenê prodígio de dois anos lendo quadrinhos, garantiu que nunca uma meia suada chegou ao interior da geladeira.

Comments

  1. Ed | May 13th, 2009 | 12:43 am

    É o tipo de post confessional que, você deve saber, agrada-me sobremaneira. Seu texto está muito bom, e deu-me vontade de escrever alguma coisa diferente do que tenho escrito (estou metido no meio científico agora) - vontade sobrepujada pelo sono.

    Um abraço.

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