Um conto de duplicidade

Tuesday, June 5th, 2007

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Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

Keynes em três parágrafos

Wednesday, May 30th, 2007

Logo no início do capítulo 16 da General Theory – um capítulo pouco comentado, contendo algumas observações desordenadas sobre a teoria do capital, João Keynes comenta, sobre a idéia de substituição intertemporal:

“The trouble arises, therefore, because the act of saving implies, not a substitution for present consumption of some specific additional consumption which requires for its preparation just as much immediate economic activity as would have been required by present consumption equal in value to the sum saved, but a desire for “wealth” as such, that is for a potentiality of consuming an unspecified article at an unspecified time.”

O interessante é que isto vem algum tempo antes da solução intertemporal do equilíbrio geral por Arrow-Debreu, ainda celebrada como finalmente establecendo uma economia dinâmica do equilíbrio geral em bases sólidas. O chato é que Keynes tem razão neste trecho, principalmente porque os preços relativos importam, e no ato de poupar faz-se não só uma decisão quanto a uma cesta derivada dos preços relativos do consumo presente e futuro (dada por uma taxa de desconto intertemporal), mas também contra os preços relativos entre os bens disponíveis agora. Eu não compro um mp3 player agora porque o preço relativo dos aparelhos contra as pilhas que o meu discman bebe como água não está valendo a pena. Daí surge a poupança.

O pior é que — ao menos na interpretação que eu estou imprimindo — esta é uma observação bastante antikeynesiana, no sentido em que coloca uma decisão sobre preços “reais” relativos, onde um ponto fundamental da teoria keynesiana é que o mundo é sempre monetário, desde o momento da decisão de trabalhar. A citação representativa — muitíssimo mais difundida do que a anterior — é do capítulo 2:

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