Três forças movem o mundo: o interesse individual (às vezes aumentado com o bem-estar de familiares e entes queridos), a escassez material e a assimetria informacional. É pela primeira que agimos — não é tão diferente do eros freudiano, na essência. Pela segunda, somos obrigados a agir pelo interesse de outras pessoas pelas quais não temos particular afeto ou interesse. Pela terceira, vemo-nos constantemente forçados a provar o que somos: todos têm interesse de se passar por algo “melhor” do ponto de vista do interlocutor. Esse é o mundo: gravatas, carros, diplomas. Acordamos de manhã movidos pelo eros, pelo craving de dopamina ou pela simples fome de algo que encha a pança, e saímos ao mundo para oferecer o que temos, o que sabemos, o que conseguimos fazer — e para isso, temos que convencê-los de que temos todas essas coisas intangíveis que se negociam no mundo lá fora todos os dias. É daí que surge o jogo de segunda ordem; onde o jogo de primeira ordem é o mero mercado — de pão, plástico e carinho — este é o das reputações, das probabilidades de fraude, dos sistemas de incentivos compatíveis. Para convencer uma pessoa de que você agirá no interesse dela, precisa primeiro descrever um sistema no qual os seus interesses estão alinhados; precisa também mostrar que é suficientemente “bom” para que fosse muito caro para uma pessoa não-boa mostrar-se assim. É esse o papel das reputações: uma reputação é um investimento pesado acumulado ao longo de uma vida, e coloca-se a reputação como colateral numa transação em que há severo risco moral. Assim sendo, o seu cliente acredita que o interesse de ambos está alinhado — ele porque quer ver algo bem-feito, e você porque não fazer bem-feito abalará essa reputação que tão caro custa construir. Esse é o mundo. Bem-vindo!
O mundo funciona assim porque assim determina a dinâmica da interação da natureza humana com o mundo pré-singularidade tecnológica. Mas que aspectos do desejo humano são esmagados por essa dinâmica? Primeiro, a preguiça, a negação, o desejo de inação e de morte; é preciso sair para obter algo, qualquer coisa, qualquer pequeno estímulo neuroquímico — é preciso sair de casa e fazer algo. Segundo, o desejo infinito de sempre mais coisas omite o fato de que, apesar do crescimento e dos ganhos de troca, o mundo tem um pequeno botim a dividir entre muita gente, gente demais. Mas creio que o terceiro é o mais grave: todas as criaturas enfrentam e esmagam seu desejo de morte e seu desejo de infinito; o que de mais grave é negado ao homem pelo tecido social que sua dinâmica implica é o seu desejo de contínua reinvenção. Eu estive debatendo comigo mesmo importar textos antigos do velho blog blog journal ue diário, e acabei percebendo que a motivação era essa necessidade de provar a si mesmo. Mas se eu cedo ao jogo das reputações mantendo-me convenientemente anônimo por medo de quanto do meu futuro depende deles — dos heterodoxos, e dos heterodoxos de mente fechada (até onde sei são todos) — não esmago o meu desejo de tábula rasa tentando provar aos leitores deste blog blog journal ue diário que sou qualquer coisa. Aliás, reinventei-me mais uma vez ontem à noite, e talvez reinvente-me de novo depois do carnaval. Este também é o mundo, e se todos o aceitarmos, talvez sejamos mais felizes.
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