À Nelson Mandela (em ordem cronológica reversa)

Monday, July 30th, 2007

A rua Nelson Mandela continua sendo um pedacinho de vida entre a São Clemente e a Voluntários. É difícil que isso mude. A rua enquanto faixa de cimento de duvidosa utilidade para o trânsito pode ser cancelada para a construção de mais de um desses conjuntos residenciais que têm brotado no início da Voluntários, mas eles não a porão num outro lugar porque uma faixa de cimento com placas nas duas pontas não é uma rua, e muito menos a rua Nelson Mandela. E no entanto, eles fecharam a fábrica.

Eu nem lembro que fábrica era. Lembro-me dos cartazes propagandeando o número de dias sem que ninguém perdesse um dedo ou uma perna — com os números em branco, no entanto. E antes dos números em branco havia números, e antes desse terreno baldio havia uma fábrica.

Os aforismos repetitivos dos seguidores de Kundera estão certos: fábricas são efêmeras, bacon é eterno. Eu deveria ter pressentido quando o inefável pipoqueiro a quem eu pedia um saco de bacon com bastante pipoca não tinha troco para a minha nota grande. Este é um pipoqueiro para uma pessoa que contava as moedas e contava com o ônibus do condomínio para comprar aquele bacon borrachudo e quentinho com o qual hoje, sem fome, esperava esquentar os meus dentes gelados.

Não tive a pipoca, porque não era mais o meu pipoqueiro e não vi a fábrica. E sentei-me então no cimento gelado que cerca aquelas grades por onde entra luz do dia ao metrô. Estas eu ainda tinha. E tinha um daqueles lápis com logotipo que fluem como leite na FGV.

Versões & aversões

Thursday, April 12th, 2007

Beethoven só me tocou na idade adulta. Primeiro, pela breve citação do terceiro movimento da quinta sinfonia no discurso do “gnômon” do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Depois — uma noite dessas passadas conversando, sentados na cama, com uma namorada que eu tinha então — como uma iluminação súbita. Para então eu já estava interessado em éticas deontológicas, cursava eletivas de religião na PUC e lia Kant. Essa mesma noite, depois de dedilhar os acordes iniciais no violão — pa-pa-pa-pa, pa-pa-pa-pa — levantei-me e fui buscar uma torrent dessa obra. Baixei a primeira que apareceu, com Kleiber dirigindo a sinfônica de Berlim e pulei logo para o terceiro movimento.

E era isso. Em segunda audição, os outros movimentos me atingiriam do mesmo modo. O primeiro, que eu supunha ultrarromântico, apresentava de fato a resolução clássica para o problema básico do romantismo. O segundo falava da grande ordem que eu estava descobrindo em Kant na época; mais de uma vez eu chorei ouvindo o ostinato de cordas (em que os baixos e violoncelos continuam a melodia enquanto que os violinos e violas atacam uma nota repetidas vezes) pensando que era maravilhoso que de fato existisse o amor romântico como eu vivia, de como fazia parte da grande ordem do mundo que eu e ela estivéssemos juntos. O terceiro, claro, é o movimento do gnômon, do impulso do homem para a complexidade (apenas acompanhem a segunda linha melódica dos metais enquanto a primeira insiste naquela nota); apenas no quarto transparece o senso de maravilhamento por esse retrato de humanidade, essa concepção do mundo.

Desde então, escrevi mais de um post decantando Beethoven como o intérprete romântico do ideal iluminista, o homem que consegue dar suporte emocional à Aufklärung, o homem que empapa meus ossos de Kant. Mais tarde, eu saberia inclusive que Beethoven de fato foi a Königsberg estudar com Kant, o que reforçava a minha intuição de que havia uma grande humanidade e uma grande lógica naquele eixo.

<

p>Assim sendo, animei-me quando soube que havia um 207vídeo do célebre Herbert von Karajan executando a minha quinta sinfonia.

Amores ferais

Monday, March 12th, 2007

(Nota: este texto foi escrito num ônibus, depois de alguns drinques, em pleno modo saudosista. Perdoar-se-á ao jovem economista kantiano a irrelevância do seu arroubo lírico. Hermê, se v. usar isto como arma retórica no debate que abandonei, eu vou ficar puto.)

dr. k responde ao Questionário Proust

Friday, March 2nd, 2007

Há alguma informação de fundo sobre o Questionário { continues here. }
{ 9 words, estimated 2 secs reading time)}

Recomeços

Wednesday, February 14th, 2007

Três forças movem o mundo: o interesse individual (às vezes aumentado com o bem-estar de familiares e entes queridos), a escassez material e a assimetria informacional. É pela primeira que agimos — não é tão diferente do eros freudiano, na essência. Pela segunda, somos obrigados a agir pelo interesse de outras pessoas pelas quais não temos particular afeto ou interesse. Pela terceira, vemo-nos constantemente forçados a provar o que somos: todos têm interesse de se passar por algo “melhor” do ponto de vista do interlocutor. Esse é o mundo: gravatas, carros, diplomas. Acordamos de manhã movidos pelo eros, pelo craving de dopamina ou pela simples fome de algo que encha a pança, e saímos ao mundo para oferecer o que temos, o que sabemos, o que conseguimos fazer — e para isso, temos que convencê-los de que temos todas essas coisas intangíveis que se negociam no mundo lá fora todos os dias. É daí que surge o jogo de segunda ordem; onde o jogo de primeira ordem é o mero mercado — de pão, plástico e carinho — este é o das reputações, das probabilidades de fraude, dos sistemas de incentivos compatíveis. Para convencer uma pessoa de que você agirá no interesse dela, precisa primeiro descrever um sistema no qual os seus interesses estão alinhados; precisa também mostrar que é suficientemente “bom” para que fosse muito caro para uma pessoa não-boa mostrar-se assim. É esse o papel das reputações: uma reputação é um investimento pesado acumulado ao longo de uma vida, e coloca-se a reputação como colateral numa transação em que há severo risco moral. Assim sendo, o seu cliente acredita que o interesse de ambos está alinhado — ele porque quer ver algo bem-feito, e você porque não fazer bem-feito abalará essa reputação que tão caro custa construir. Esse é o mundo. Bem-vindo!

O mundo funciona assim porque assim determina a dinâmica da interação da natureza humana com o mundo pré-singularidade tecnológica. Mas que aspectos do desejo humano são esmagados por essa dinâmica? Primeiro, a preguiça, a negação, o desejo de inação e de morte; é preciso sair para obter algo, qualquer coisa, qualquer pequeno estímulo neuroquímico — é preciso sair de casa e fazer algo. Segundo, o desejo infinito de sempre mais coisas omite o fato de que, apesar do crescimento e dos ganhos de troca, o mundo tem um pequeno botim a dividir entre muita gente, gente demais. Mas creio que o terceiro é o mais grave: todas as criaturas enfrentam e esmagam seu desejo de morte e seu desejo de infinito; o que de mais grave é negado ao homem pelo tecido social que sua dinâmica implica é o seu desejo de contínua reinvenção. Eu estive debatendo comigo mesmo importar textos antigos do velho blog blog journal ue diário, e acabei percebendo que a motivação era essa necessidade de provar a si mesmo. Mas se eu cedo ao jogo das reputações mantendo-me convenientemente anônimo por medo de quanto do meu futuro depende deles — dos heterodoxos, e dos heterodoxos de mente fechada (até onde sei são todos) — não esmago o meu desejo de tábula rasa tentando provar aos leitores deste blog blog journal ue diário que sou qualquer coisa. Aliás, reinventei-me mais uma vez ontem à noite, e talvez reinvente-me de novo depois do carnaval. Este também é o mundo, e se todos o aceitarmos, talvez sejamos mais felizes.

Free counter and web stats