Excentricidades
Thursday, March 1st, 2007Todo bachiano tem suas fases duais de obsessão pela 1080 (a Kunst) e pela 988 (os diferenciaisas variações Goldberg). Aliás, um verdadeiro bachiano aventura-se ainda meses intermináveis pela 1079 (a “Oferta”) e a série dos concertos Brandenburgo (1046, 1047, 1049, 1050, 1051). Eu não só não cheguei a esse requinte, como tive certa rejeição primária aos Brandenburgo, que pareceram-me algorítmicos. Mas tive as minhas fases radicais com a 1080 e a 988. Esta última cultivei apenas na versão do Gould jovem, um pouco saturado da aventura anterior com a 1080 — da qual colecionei versões e mais versões, oscilando entre a secura extrema do cravo de Kenneth Gilbert e o abstrato desengonçado de Vladimir Feltsman, passando por versões com finais alternativos (a décima-quarta fuga da 1080 nunca foi concluída) e conjuntos de flautas doces. No fim, como costuma fazer com todo mundo, a vida aconteceu-me enquanto eu estava ocupado fazendo planos, e interrompi o meu Bach antes de aprofundar-me em outras peças críticas do repertório e construir uma imagem coerente do todo, embora ainda saiba cantarolar a maioria das 14 fugas par coeur.
A verdade é que sou um bachiano vulgar. Bach tocou-me primeiro, no início da adolescência, pelo puro pop, através da 578 (a “Pequena Fuga” em sol menor), executada pelo inexorável Carlo Curley, o “Pavarotti do órgão”, um populista que enoja os conhecedores pela dinâmica que impinge às peças mais delicadas e intelectuais (a “Fuga” em ré menor da 565), comete atrocidades como uma 1068 (”Ária para a corda sol”) vertida para um órgão com registros fechados e tem na “Pequena Fuga” — ao menos para mim — a sua máxima expressão de instrumentista virtuoso e melodramático. A culpa não é toda de Curley, claro: a 578 é tão pop quanto uma fuga consegue ser, voltando ao tema de abertura perto do fim com uma pompa e orgulho que faz o meu coração se agitar de arrogância e os pêlos dos meus braços se eriçarem como as penas de um galo em posição de ataque.