Um conto de duplicidade

Tuesday, June 5th, 2007

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Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

Eles venceram, e o sinal está fechado

Thursday, November 2nd, 2006


para nós, que somos jovens

Vocês conhecem aquela em que Deus está distribuindo as desgraças pelo mundo — furacões pra cá, terremotos pra lá, icebergs acolá — e São Pedro o questiona, perguntando porque ele tinha sido tão piedoso com aquele país na costa atlântica da América do Sul?

Dizem os psicólogos que a aceitação de uma perda vem em etapas: primeiro a negação, depois a raiva, depois a depressão e depois a aceitação. Ora, a história do segundo turno de Geraldo Alckmin é uma crônica de uma morte anunciada; entre o absoluto atabalhoamento com a qual o PSDB administrou a sua campanha presidencial e o constante _memento mori_ das pesquisas por amostragem, apenas um milagre daria um final diferente à história.

É assim que se dá a banalização do mal. Últimas esperanças definitivamente refutadas, voltamos todos à vida normal. O partido vai lamber suas feridas e exumar o cadáver de sua campanha; um breve campo festivo, em nada comparável à histeria de 2002, dançará uma giga e beberá uma taça de vinho.

A divisão social delineada nos cortes transversais das pesquisas eleitorais — educação, renda — fazem com que seja razoável crer que seja natural para os leitores destas linhas o pesadelo kafkiano que encerra o governo Lula. O que houve? É verdade a paráfrase cínica do adágio que se ouve pelos corredores de que cada povinho merece o presidente que tem? O fracasso é de Alckmin, que não soube falar claro, ou é uma característica estrutural das dinâmicas sociais específicas e estruturais a uma sociedade como a nossa?

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p>Lamber nossas próprias feridas políticas deve significar esboçar respostas a estas e outras questões sobre o panorama político delineado pela derrota do bloco modernizante nas eleições de 2006. Eu ando formulando as minhas.

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