Uma pessoa com quem tenho conversado recentemente declarou que passaria a usar o meu diário como referência para o vestibular. Eu retruquei imediatamente que isso não era uma boa idéia. O ensino de economia no vestibular é monopolizado pelos professores de geografia, e portanto pelo ideário de um pequeno grupo de geógrafos brasileiros muito influentes das décadas de 70 e 80. Assim sendo, retrata-se para o aluno do ensino médio um mundo bizarro, organizado dentro de relações hegemônicas que beiram o sadomasoquismo, no qual vale a dinâmica endógena eternizada no refrão “o de cima sobe e o de baixo desce”.blog blog journal ue
Eu reitero: não estude para o vestibular por este bonito blog blog journal uinho, man. As opiniões aqui apresentadas são controversas em tantos níveis que chega a ser cômico. Primeiro, com a sabedoria moderada dos jornais (pela boa razão de que não preciso escrever quando os jornais estão dizendo o que eu julgo ser correto). Segundo, com a heterodoxia “desenvolvimentista” que certos esquerdistas mais maduros professam, porque eu advogo o uso de instintos basicamente ortodoxos. Terceiro, com a própria ortodoxia, porque eu coloco as críticas teóricas da heterodoxia em primeiro plano, pra ver que sopa isso dá. Por último, com a síntese pré-econômica dos seus professores de geografia, simplesmente porque eu me apóio em alguma teoria econômica (embora seja uma salada de ortodoxia, heterodoxia e olfato) e eles acham que tudo o que importa é a luta de He-Man contra o Esqueleto.
Mas porque é ruim uma pessoa crescer achando que a economia mundial se propaga a partir de um “centro dinâmico” e outras baboseiras do tipo, vale a pena dar uma olhada rápida no que aconteceu no mundo nos últimos 50 anos. Eu quero descrever dois fatos estilizados relativamente ateóricos;
A aceleração é um fenômeno fundamental da natureza, e no entanto é inteiramente contra-intuitiva. Um toque em um objeto produz aceleração, e no entanto foi necessário que faça-se Newton para que se perceba que o movimento só se esgota devido à força oposta do atrito. Mas imagina o homem — mesmo aquele habituado à descrição analítica (exponencial) da aceleração — o espaço sem atrito e imagina um movimento linear ao seu toque — inesgotável mas constante. É por isso que a lei de Moore surpreende sempre e por isso que é tão difícil planejar para ela. É por isso que pequenas coleções de dados cotidianos como esta surpreendem:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=GIqk4agzKPE]
Ora, para alguns, a aceleração não pode dar em outra coisa que não uma singularidade tecnológica. Para outros, há uma não-ergodicidade fundamental à vida — sempre intermediada pela [micro]política — que determina a produção efetiva das possibilidades acelerativas inerentes ao progresso técnico.
Pessoalmente, eu discordo do lado demand-sider desta segunda proposta: a aceleração tem se mostrado forte o suficiente para sobrepôr-se a todas as considerações mundanas — e é assim que um YouTube explode apesar da concentração prévia da indústria de mídia, que ainda não consegue acreditar que perdeu o osso e inclusive dos Breadcrumb trails: Aceleração, China, Crescimento, Singularidade

O mofando da “barrigada” que a celebrada revista alemã “Der Spiegel” deu ao publicar, justo na semana em que a bolsa de Shangai fez o mundo financeiro shake that groovy thing, uma reportagenzinha babosa chamada “Red China Inc: Does communism work, after all?:
As teorias dos economistas são baseadas no reconhecimento de que as forças do mercado, e apenas elas, produzem crescimento econômico. A única função do Estado é garantir que a competição funcione e que ninguém possa abusar de algum tipo de poder sobre o mercado a um nível inadmissível.
Para estes economistas, a queda da Cortina de Ferro era prova clara de que suas hipóteses estavam corretas. De fato, economias planejadas do bloco soviético eram fracassos, criavam pobreza ao invés de afluência e deixavam terras industriais de ninguém no caminho. E, no entanto, a China floresce. Com um mix de economia planejada e capitalismo descontrolado que não aparece em nenhum livro texto, o país está conquistando mercado no exterior e crescendo a dois dígitos ano após ano.
O comentário de Pedro Doria não melhora a situação:
Mas a tese da Der Spiegel, se calhou de dar azar no dia, não desmente o fato: a China cresce, cresce como tudo quanto é país gostaria de crescer. Os EUA dependem da China economicamente como a China depende dos EUA. Periga de virar a maior economia do mundo dados uns anos. E, no entanto, continua lá ela no mastro mais alto: a bandeira vermelha com estrelas amarelas. Continuam as prisões e eventuais assassinatos de dissidentes. Continua o Partido no comando.