Um conto de duplicidade

Tuesday, June 5th, 2007

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Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

fear & loathing in Barra da Tijuca

Thursday, December 22nd, 2005

Underground, _indie rock_, udigrude mesmo é caminhar pela Barra da Tijuca. Projetado para carros, o bairro exala a fétida evidência do capitalismo da Madison Avenue, do capitalismo dos pessimistas — não o sistema do empreendedor, da Liberdade maiúscula, promotora de um progresso que é humano até as últimas conseqüências, mas o sistema do consumidor abobalhado e desumanizado, homem sem alma que há muito ultrapassou a surrada forma de trocar o ser pelo ter para trocar o ter pelo ostentar.

Não é que o capitalismo deixe de ser _eficiente_, é que deixa de ser _elegante_. Não é que se torne _condenável_, é que **me irrita**.

Há no centro do Rio uma estreita faixa invisível entre a Escola de Música, a Sala Cecília Meirelles e o Municipal na qual transita, sem ser notado, o povo da música clássica. A faixa está contida no centrão mesmo da cidade, cheio de comércio, urina, poluição e mendigos, e contra a onipresença do mainstream do mainstream do mainstream da vida carioca, aquelas vidas humanas acontecem, mastigando partituras e Brahms em meio aos vendedores de pipoca e guaraná em copinho.

Essa “cultura 2″ invisível, no entanto, goza de um senso profundo de _entitlement_. Há o zelotismo e a _self-righteousness_ da comunidade de música clássica; no entanto, mais do que isso é o senso de _intenção_ no projeto do centrão — e em particular, daquela região do centrão. Desde os primórdios de centro de entretenimento de Francisco Serrador (a minha indicação para a série _Rebeldes Brasileiros_ da Caros Amigos), passando pela permanência de uma arquitetura que por se tornar _passé_ se tornou clássica, até a introdução voluntária, mesmo, de elementos como a Sala e a instalação da Escola de Música no prédio do Automóvel Clube. Em outras palavras, embora _outnumbered_ pelo segmento mais vulgar da “cultura 1″ (que talvez devesse por isso chamar-se “cultura 0″), a “cultura 2″ do centrão está em compasso com a evolução de seu entorno; em desarmonia com o panorama humano, a música clássica está em harmonia com a memória material da Faixa.