Política industrial e o ônus da prova

Wednesday, April 25th, 2007

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=zae2jfcbkf4]

O ônus da prova é uma das meta-narrativas mais interessantes da ciência, em parte porque tem valor retórico central (de estruturação do discurso), em parte porque não foi adequadamente coberto pelas críticas da meta-narrativa da filosofia da ciência do século passado e em parte porque tem o poder de alcance de uma alavanca: sozinho, o ônus da prova (e o seu análogo de lógica temporal, o método genético) pode inclinar fortamente, a partir de um eixo simples, a compreensão teórica do processo em questão na ponta da gangorra.

Ora, em termos teóricos, a heterodoxia põe o ônus da prova sobre a certeza cientificizante da common wisdom ortodoxa: cabe a nós demonstrar que o mercado fará as coisas que nós dissemos que faria — otimalidades sociais e eficiência alocativa. Por outro lado, em termos de formulação de política, é fácil pôr sobre eles o ônus da prova sobre a efetividade e valor normativo dos métodos de correção local que se propõe colocar para corrigir as falhas percebidas no mercado.

<

p>A ortodoxia defende a direção que dá ao ônus da prova por um misto de cientificidade procedimental (e a heterodoxia dificilmente se rebaixa a produzir proposições falsificáveis, contrastá-las contra experimentos naturais e promover um debate claro sobre os méritos relativos das construções teóricas) e prudência (e afinal, como ministro das finanças austríaco Schumpeter gerou uma hiperinflação, e como diretor de um importante banco levou a instituição à falência). A heterodoxia defende a inversão desse ônus por um misto de cientificidade substantiva (e a teoria ortodoxa não é substancialmente científica porque seus primeiros princípios são absolutamente irreais) e urgência (é preciso “desenvolver” o país, para eles).

Cournot e a estrutura das revoluções na teoria econômica

Thursday, April 19th, 2007

Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Tommy Kuhn afirma que os cientistas reescrevem a história de seu campo para transformar tudo num fluxo contínuo e acumulativo. É algo que pode ser tomado ou como um passo no desenvolvimento de uma visão cínica e relativista da ciência como gerada por um processo crooked, ou como reafirmação quase-neokantiana (no seu antipositivismo) do papel da teoria na formulação do conhecimento.

Independentemente do seu conteúdo filosófico, a estratégia kuhniana de análise histórica da ciência é tomada in stride pelos heterodoxos (que revertem o processo tentando fabricar rupturas — fingindo, por exemplo, que Marx não é ricardiano, Keynes não é marshalliano e Schumpeter não é walrasiano) e ignorada pelos ortodoxos, que cultuam o “consenso ascendente”. Ambos casos são perigosos.

Ao fazer a apologia da ruptura em autores mais ou menos incluídos num fluxo, a clivogenia heterodoxa quebra o princípio da falsificabilidade: deixa de valer o que está de fato no Das Kapital ou na General Theory de modo a pinçar o que estes têm de radicalidade. Ora, esta é uma atitude anticientífica: não se pode dizer que Keynes está certo ou errado porque a exegese o torna um alvo móvel.

Por outro lado, a fantasia ortodoxa de um crescimento linear da ciência é perigoso porque vai metamorfoseando conclusões em axiomas e vai perdendo a riqueza da diversidade de conteúdos que determinadas técnicas formais podem assumir. O modelo padrão de competição oligopolística é um estudo de caso maravilhoso, neste sentido.

A graduação em economia apresenta o modelo de Bertrand como um modelo de competição em preço, onde o modelo de Cournot é um modelo de competição em quantidade. Essa distinção, acrescida da intuição marshalliana dos preços se ajustando mais rápido que as quantidades, dá a idéia de que o modelo de Cournot descreve equilíbrios não-cooperativos de longo prazo, onde o modelo de Bertrand descreve guerras de preço no curto prazo. Não é nem que cheguem a dizer isso formalmente, mas é a impressão que fica, dado um universo de conhecimento acumulativo.

<

p>O fato é que não existe um “modelo de Bertrand”.

Malthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi vendo Senna x Mansell com o meu pai

Saturday, March 31st, 2007

zzzzzz7654105.jpg

O que raios ganha uma corrida de Fórmula-1?

1. Losing my religion

A UFRJ está para a heterodoxia como a PUC-Rio está para a ortodoxia; onde esta é um subproduto do pensamento da FGV, aquela é um subproduto do pensamento da Unicamp. Gradualmente, o professorado da PUC deixou de ser composto de ex-fegevitas e passou a contar com um número significativo de jovens retornando de Berkeley. Analogamente, o professorado da UFRJ gradualmente deixou de ser composto de ex-unicâmpios e passou a contar com jovens vindos de Cambridge. É assim que se formam as especificidades: quando quer um ortodoxo para debater em um seminário, a UFRJ convida alguém da FGV, e quando quer literatura heterodoxa para enriquecer-se teoricamente, a PUC circula dissertações da UNICAMP. É assim que todo o diálogo entre a PUC e a UFRJ consiste de pequenas ironias.

Eu fiz a minha graduação na PUC do Rio — basicamente, eles me ofereceram bolsa, a FGV não, e eu estava cansado da universidade pública com suas greves e idiotices ideológicas. Como todo filhote da PUC que por alguma razão decide fazer mestrado, as minhas opções eram a própria PUC e a FGV. Mas entre estar deslumbrado e complicado em um relacionamento absurdo, estar absolutamente de saco cheio com a economia e deslumbrado e complicado numa relação (muito mais frutífera que a outra) com a ciência da computação e uma fé inexplicável nos meus poderes mágicos, fui fazer o exame Anpec basicamente despreparado, e os meus poderes mágicos falharam: não obtive resultados fortes o suficiente para que fosse parar nas muito mais disputadas escolas ortodoxas. Em suma, for the record, fui parar no mestrado da UFRJ por pura incompetência.

Conto esta história no interesse do full disclaimer — porque pesa entre os que conhecem essa história a dúvida sobre a minha imparcialidade em discutir os méritos relativos das duas escolas e freqüentemente pessoas que deveriam confiar em mim acusam-me de minimizar o aspecto involuntário da minha estadia numa escola que na weltanschauung puquiana é francamente de segunda linha. Claro, eu percebo com clareza agora que as escolas de primeira linha são a FGV e a Unicamp, por serem fundamentalmente da linha de pensamento que representam — e não por circunstâncias políticas (o vínculo PUC-PSDB) e acadêmicas (um certo êxodo da Unicamp para a UFRJ e uma especialização em determinadas escolas heterodoxas de pouca expressividade elsewhere em parte como estratégia de diferenciação e em parte para absorver bons economistas formados em Cambridge).

O fato é que tive nos meus seis anos de economia um contato íntimo com os extremos teóricos do pensamento econômico contemporâneo no Brasil: fui aluno de Dionísio Dias Carneiro e de Mário Luiz Possas. Mais ainda, tomei contato com duas visões bastante distintas sobre a história do pensamento econômico — e apesar de ter basicamente dormido durante os cursos que explicitaram a visão ideológica hard de cada escola sobre o assunto, pude inferí-las e reconstruí-las heuristicamente pelo pensamento vivo de seus economistas modernos.

<

p>O que eu estou oferecendo aqui é, em alguns parágrafos, um resumo de tudo o que eu aprendi de economia na vida — ok, omitindo os intermináveis cursos técnicos de contabilidade, econometria, etc., mas provavelmente, tudo o que você precisa saber para entender que raios é esse debate sobre como se ganha uma corrida de fórmula 1. O Gustavo Franco continua mais certo que o Carlos Lessa, mas o que cada um deles diz em público é uma meia-verdade. A idéia aqui é explicar o que você precisa para costurar as duas metades.

dr. k responde ao Questionário Proust

Friday, March 2nd, 2007

Há alguma informação de fundo sobre o Questionário { continues here. }
{ 9 words, estimated 2 secs reading time)}

Intervenção

Sunday, February 4th, 2007

Existem, evidentemente, questões técnicas — quanto à eficácia de mercados desregulamentados e quanto ao poder de políticas emanando da autoridade central — envolvidas no debate sobre o nível óptimo de intervenção estatal na economia; estas são mais confusas do que parecem à primeira vista para o leigo, e deveriam ser deixadas para os especialistas. Trata-se, no entanto, de um debate que não se resume às propriedades técnicas de dinâmicas sociais teóricas, porque tem conseqüências diretas sobre o curso da vida social humana. E é a partir deste aspecto que um leigo deve começar a posicionar-se sobre o assunto: é preciso compreender a natureza do coletivo e suas interpretações para traçar o que são objetivos desejáveis do agenciamento coletivo. Isto mapeia-se bem ao debate: liberais enxergam um processo histórico da economia a partir da renascença que precisa de mecanismos de coordenação de emergência que são gradualmente incluídos no sistema, onde intervencionistas enxergam a emergência de uma ordem ideológica liberal como algo muito mais recente no contexto da evolução dos Estados nacionais. O discurso da gênese é poderoso, porque é responsável por atribuir a burden of proof a um lado ou ao outro, e tem permeado as atitudes intelectuais mais primárias destes dois grupos na maneira como eles se colocam na discussão. Mas é só mais um “módulo” analítico a ser considerado na formulação do problema do coletivo.

Crescimento

Thursday, January 25th, 2007

Não há política econômica óptima porque nem todas as políticas são criadas iguais; a intervenção estatal na economia é primeiro um efeito colateral da monetarização das economias nacionais a partir do crescimento do comércio na idade moderna, segundo, da emergência do fenômeno colonial que tem como prioridade submeter o projeto de uma nação ao de outra, terceiro da percepção coletiva de abusos de robber barons quando os rendimentos crescentes de escala da segunda revolução industrial levam a uma concentração industrial desconfortável e, finalmente, da depressão da década de 1930. Em cada um destes momentos,a política econômica tem significados e objetivos diferentes. Apenas dos anos 1980 pra cá, e apenas no Brasil, a política econômica já teve alguns papéis muito diferentes: estimular a produção de bens intensivos em capital, julgados “bons”, administrar a solvência internacional do país, e assim por diante. Um destes modelos de política econômica teve particular sucesso em seus objetivos, o da “estabilização”. Se não resolve muitos problemas, a “estabilização” é ao menos uma questão de bom gosto: em um ambiente mais sadio, a vida econômica pode se processar melhor. Nesse contexto, o anúncio do recente pacote de medidas de política industrial tem um valor simbólico profundo: sai a estabilização e entra esse tal de “crescimento”, vendido pela cultura como uma panacéia para o desconforto econômico. O problema é o seguinte: o crescimento é um mero epifenômeno contábil.

Bourbakismo

Thursday, January 4th, 2007

Uma das cartas do matemático Carl Ludwig Siegel afirmava, com todas as letras, que “a degeneração da matemática começou com as idéias de Riemann, Dedekind e Cantor, que progressivamente reprimiram o gênio confiável de Euler, Lagrange e Gauss”. A matemática — mais ainda que as outras atividades do espectro acadêmico — é dada a fantasiar que sua história é um fluxo contínuo, mas os sabores se deixam sentir — de Euler para Dedekind, deste para Hilbert, deste para Bourbaki. Conversas com matemáticos vagamente desajustados em relação a profissão (um largou a carreira com a graduação, outro com o mestrado, numa profissão onde a expectativa sempre é chegar ao doutorado) mostram, no entanto, que há insatisfação em relação ao bourbakismo — a essa idéia de que um livro de matemática é uma lista de teoremas e o matemático uma máquina de prová-los.

Esta idéia deve ser qualificada dentro do contexto de absoluta centralidade do rigor formal na matemática — coisa que não aparece nem nas ciências mais puras, nem mesmo na física. O trabalho do matemático deve ser formal e demonstrado até a última gota — pelo menos até o melhor que já foi demonstrado anteriormente. Não há passes de mágica. O que se questiona, no entanto, é a teleologia do teorema. Em todo o trabalho de Euler e Gauss, nota-se uma ênfase pela estética (uma espécie de kalokagathía platônica) que desaparece na abordagem mais programática de Dedekind. Euler prova a convergência de séries infinitas hoje clássicas; Dedekind inventa um argumento para a continuidade dos reais cuja beleza é difícil de ver fora de um contexto ultratécnico. Parece mais fácil, com estas qualificações, ver a desilusão com a matemática de alguns matemáticos: mais forte do que qualquer programa teórico da filosofia da matemática é o panorama humano onde a matemática se perde no tecnicismo. Por sorte, não são todos.

Free counter and web stats