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Evidências enterradas

Há um discurso alarmista sobre o aquecimento global que tenta fazer de todo fenômeno climático mais forte uma evidência da catástrofe total que se aproxima. Mas qual vocês acham que foi a maior catástrofe natural da história americana, com recordes de temperatura históricos (até 2006) sendo batidos?

Isso Al Gore não conta para as criancinhas. Aliás, os historiadores keynesianos da grande depressão gostam de esquecer, convenientemente, as violentas tempestades de areia que devastaram a agricultura americana nos anos 30 e deixaram mais de 500 mil americanos sem teto (outros dois milhões emigraram) — tudo em nome de não deixar nenhuma ambigüidade sobre a received wisdom da recessão da década de 30 como produto de uma espiral (deflacionária) endógena de demanda. Sim, a deflação fez com que muitos fazendeiros não conseguissem saldar suas dívidas assumidas em termos nominais e perdessem suas propriedades para os bancos — mas milhares de pessoas tiveram suas fazendas enterradas, e isso nenhum manual de história econômica conta.

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Cournot e a estrutura das revoluções na teoria econômica

Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Tommy Kuhn afirma que os cientistas reescrevem a história de seu campo para transformar tudo num fluxo contínuo e acumulativo. É algo que pode ser tomado ou como um passo no desenvolvimento de uma visão cínica e relativista da ciência como gerada por um processo crooked, ou como reafirmação quase-neokantiana (no seu antipositivismo) do papel da teoria na formulação do conhecimento.

Independentemente do seu conteúdo filosófico, a estratégia kuhniana de análise histórica da ciência é tomada in stride pelos heterodoxos (que revertem o processo tentando fabricar rupturas — fingindo, por exemplo, que Marx não é ricardiano, Keynes não é marshalliano e Schumpeter não é walrasiano) e ignorada pelos ortodoxos, que cultuam o “consenso ascendente”. Ambos casos são perigosos.

Ao fazer a apologia da ruptura em autores mais ou menos incluídos num fluxo, a clivogenia heterodoxa quebra o princípio da falsificabilidade: deixa de valer o que está de fato no Das Kapital ou na General Theory de modo a pinçar o que estes têm de radicalidade. Ora, esta é uma atitude anticientífica: não se pode dizer que Keynes está certo ou errado porque a exegese o torna um alvo móvel.

Por outro lado, a fantasia ortodoxa de um crescimento linear da ciência é perigoso porque vai metamorfoseando conclusões em axiomas e vai perdendo a riqueza da diversidade de conteúdos que determinadas técnicas formais podem assumir. O modelo padrão de competição oligopolística é um estudo de caso maravilhoso, neste sentido.

A graduação em economia apresenta o modelo de Bertrand como um modelo de competição em preço, onde o modelo de Cournot é um modelo de competição em quantidade. Essa distinção, acrescida da intuição marshalliana dos preços se ajustando mais rápido que as quantidades, dá a idéia de que o modelo de Cournot descreve equilíbrios não-cooperativos de longo prazo, onde o modelo de Bertrand descreve guerras de preço no curto prazo. Não é nem que cheguem a dizer isso formalmente, mas é a impressão que fica, dado um universo de conhecimento acumulativo.

O fato é que não existe um “modelo de Bertrand”.

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Microfascismos

eu, honestamente, fico com a original. sou o único?

Um blog blog journal ue aparentemente galego fez-me saber deste calendário composto de fotos de mulheres normais agressivamente fotochopadas até parecerem modelos. A coisa toda tem sobretons de protesto: escolhem uma menina muito bonita, mas explicitamente fora dos moldes da indústria da foto-de-lingerie, e dando-lhe um corpo de modelo, estragam-lhe toda a graça. O comentário implícito é óbvio demais para valer a pena discutir em extensão; postula-se uma certa imposição top-down destes padrões corporais, levando à neurose generalizada. No fundo, não deixo de discordar. Curta pesquisa impromptu com algumas mulheres das minhas relações mostram que a neurose existe, e algumas expressam até vontade de se submeter ao tratamento fotochopante. O meu problema com esta tese é que o declive escorregadio para o regulacionismo generalizado é curto. A mídia de massa cria expectativas infelizes e insalubres sobre o papel da mulher e seu corpo em crianças em idade sensível, ergo regulemos na TV os padrões da Boa Mulher Brasileira?