Os problemas de Sábato
Wednesday, June 6th, 2007
Sábato gostava de liturgias. Ao chegar ao trabalho, sempre apertava os parafuso da sua mesa com uma chave de fenda específica guardada na primeira gaveta (de cima para baixo). Ao entrar no seu restaurante predileto, o garçom devia imediatamente lhe servir um pedaço de pão sírio, que ele comia com azeite antes de cumprimentar o seu velho conhecido de muitos anos e pedir o cardápio. Sempre exigia de seus subordinados que assinassem qualquer documento com uma impressão digital e sempre inseria imagens dos Oompa Loompas nas apresentações para seus superiores. Quando seu carro quebrava, gostava de levar sanduíches de magnífico provolone escandinavo para todos os mecânicos e sentar-se com seu velho amigo Irineu no elevador hidráulico para comer sanduíches e conversar sobre futebol.
Quando ia a um churrasco, Sábato gostava de tocar Rhayader na sua flauta transversa, sempre brilhando de prateada, quando faltavam poucos minutos para que saísse a carne. Com isso, Sábato foi aos poucos sendo convidado por pessoas que apreciavam o Rhayader para mais e mais churrascos, ao ponto em que era raro o domingo em que não ia a um. Isto não o deixou propriamente gordo, mas não contava mais com a figura esbelta que ostentara nos seus anos de juventude. Sábato tinha um monociclo, uma lupa, um emprego estável e uma reputação de excêntrico. Sentia-se feliz.
Os problemas de Sábato começaram quando, um dia em que saiu ao meio-dia do trabalho para cuidar de assuntos pessoais, encontrou uma faca espetada no portão de madeira da sua casa. Pensou primeiro em chamar a polícia, mas acabou concluindo que quem lhe deixara essa magnífica faca de carne fizera um favor involuntário. Em virtude disto, Sábato decidiu quebrar a tradição e promover um inédito churrasco na sua casa.
