Os problemas de Sábato

Wednesday, June 6th, 2007

20070606195241.jpg

Sábato gostava de liturgias. Ao chegar ao trabalho, sempre apertava os parafuso da sua mesa com uma chave de fenda específica guardada na primeira gaveta (de cima para baixo). Ao entrar no seu restaurante predileto, o garçom devia imediatamente lhe servir um pedaço de pão sírio, que ele comia com azeite antes de cumprimentar o seu velho conhecido de muitos anos e pedir o cardápio. Sempre exigia de seus subordinados que assinassem qualquer documento com uma impressão digital e sempre inseria imagens dos Oompa Loompas nas apresentações para seus superiores. Quando seu carro quebrava, gostava de levar sanduíches de magnífico provolone escandinavo para todos os mecânicos e sentar-se com seu velho amigo Irineu no elevador hidráulico para comer sanduíches e conversar sobre futebol.

Quando ia a um churrasco, Sábato gostava de tocar Rhayader na sua flauta transversa, sempre brilhando de prateada, quando faltavam poucos minutos para que saísse a carne. Com isso, Sábato foi aos poucos sendo convidado por pessoas que apreciavam o Rhayader para mais e mais churrascos, ao ponto em que era raro o domingo em que não ia a um. Isto não o deixou propriamente gordo, mas não contava mais com a figura esbelta que ostentara nos seus anos de juventude. Sábato tinha um monociclo, uma lupa, um emprego estável e uma reputação de excêntrico. Sentia-se feliz.

Os problemas de Sábato começaram quando, um dia em que saiu ao meio-dia do trabalho para cuidar de assuntos pessoais, encontrou uma faca espetada no portão de madeira da sua casa. Pensou primeiro em chamar a polícia, mas acabou concluindo que quem lhe deixara essa magnífica faca de carne fizera um favor involuntário. Em virtude disto, Sábato decidiu quebrar a tradição e promover um inédito churrasco na sua casa.

Um conto de duplicidade

Tuesday, June 5th, 2007

20070605214005.jpg

Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

Free counter and web stats