Um conto de duplicidade

Tuesday, June 5th, 2007

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Sim, eu tive um caso com as duas Fernandas. Dois casos, na verdade — o que ficou confuso porque ambas Fernandas eram uma só, e evitar que soubessem uma da outra não era apenas francamente imoral como um tanto trabalhoso.

Quando conheci as duas, Fernanda ficava ligeiramente vesga quando nervosa e Fernanda ficava igualmente vesga quando relaxada, o que é desorientador quando se está na fase de conhecer os sentimentos e reações de uma mulher. Por sorte, com o tempo, as meninas foram corrigindo o problema com a ajuda de um novo videogame cujo movimento era controlado pelo movimento da retina. Como o espaço onde elas deviam pôr a cabeça era baixo demais, elas se curvavam um pouco, e eu gostava de ficar olhando para essa posição vagamente exibicionista em seus jeans sempre apertados demais (embora eu francamente preferisse isto na Fernanda, porque a Fernanda nunca perdeu a mania de pôr o celular no bolso de trás, o que estragava um pouco a visão).

As sessões contínuas no arcade do shopping custaram-me uma fortuna, mas era francamente mais excitante quando ficaram parecidas no seu (agora quase imperceptível) estrabismo — eu podia estar com uma e imaginar que estava com as duas. O que também me fez gastar muito foi consertar continuamente os furos no colchão e na roupa de cama ocasionados pelos lindos narizes pontiagudos, fininhos, narizes que já me cortaram a mão num carinho desajeitado. Esse era outro problema — eu sempre tinha o dobro de feridas, e tinha que inventar continuamente desculpas de carpintaria para explicar o meu tórax cheio de cortes.

a falácia de Tariq Ali

Sunday, August 28th, 2005

Daniel Yankelovich é o autor de uma descrição clássica do espírito de supremacismo técnico do final dos anos 50 e início dos 60, no que chamava de “falácia de McNamara”:

> O primeiro passo consiste em medir tudo quanto puder ser medido com facilidade. Até aí, tudo bem. O segundo passo consistem em desprezar tudo aquilo que não puder ser medido ou lhe atribuir um valor quantitativo arbitrário. Isto é artificial e tendencioso. O terceiro é presumir que aquilo que não pode ser medido com facilidade não tem muita importância. Isto é cegueira. O quarto passo é dizer que aquilo que não pode ser medido com facilidade na verdade não existe. Isto é suicídio.

Robert McNamara, o prodígio corporativo, administrador militar e brilhante homem de números não estava, obviamente diretamente associado com estas palavras, mas a escolha é icônica, e é indubitável que McNamara tenha sido enganado por sua própria falácia várias vezes no transcurso de sua vida como administrador de grandes eventos.

A estrutura de Yankelovich pode ser reaproveitada para trazer à tona saltos discursivos que se tornam típicos de uma era pela forma como discurso e senso comum fluem entre si e se fundem. Sem mais prolegômenos, apresento-vos a falácia de Tariq Ali.

**Primeiro, postula-se uma dinâmica social teórica**. Um certo senso comum benevolente postula um equilíbrio do dilema do prisioneiro no atual cenário de conflitos entre o mundo árabe e o ocidente: no equilíbrio, ambos lados atacam, numa espiral que pode ser interrompida visto tratar-se de um equilíbrio de Nash sub-ótimo. A visão mais puramente tariq-ali das coisas é ainda mais radical no sentido de propor uma causação mais unidirecional nesse processo — o ocidente ferindo o mundo árabe com um determinado paradigma econômico-cultural, desencadeando uma reação deles que desencadeia uma reação nossa _et cetera_. **Até aí, tudo bem**.

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