Keynes em três parágrafos

Wednesday, May 30th, 2007

Logo no início do capítulo 16 da General Theory – um capítulo pouco comentado, contendo algumas observações desordenadas sobre a teoria do capital, João Keynes comenta, sobre a idéia de substituição intertemporal:

“The trouble arises, therefore, because the act of saving implies, not a substitution for present consumption of some specific additional consumption which requires for its preparation just as much immediate economic activity as would have been required by present consumption equal in value to the sum saved, but a desire for “wealth” as such, that is for a potentiality of consuming an unspecified article at an unspecified time.”

O interessante é que isto vem algum tempo antes da solução intertemporal do equilíbrio geral por Arrow-Debreu, ainda celebrada como finalmente establecendo uma economia dinâmica do equilíbrio geral em bases sólidas. O chato é que Keynes tem razão neste trecho, principalmente porque os preços relativos importam, e no ato de poupar faz-se não só uma decisão quanto a uma cesta derivada dos preços relativos do consumo presente e futuro (dada por uma taxa de desconto intertemporal), mas também contra os preços relativos entre os bens disponíveis agora. Eu não compro um mp3 player agora porque o preço relativo dos aparelhos contra as pilhas que o meu discman bebe como água não está valendo a pena. Daí surge a poupança.

O pior é que — ao menos na interpretação que eu estou imprimindo — esta é uma observação bastante antikeynesiana, no sentido em que coloca uma decisão sobre preços “reais” relativos, onde um ponto fundamental da teoria keynesiana é que o mundo é sempre monetário, desde o momento da decisão de trabalhar. A citação representativa — muitíssimo mais difundida do que a anterior — é do capítulo 2:

Para uma jovem vestibulanda

Thursday, May 10th, 2007

Uma pessoa com quem tenho conversado recentemente declarou que passaria a usar o meu blog blog journal ue diário como referência para o vestibular. Eu retruquei imediatamente que isso não era uma boa idéia. O ensino de economia no vestibular é monopolizado pelos professores de geografia, e portanto pelo ideário de um pequeno grupo de geógrafos brasileiros muito influentes das décadas de 70 e 80. Assim sendo, retrata-se para o aluno do ensino médio um mundo bizarro, organizado dentro de relações hegemônicas que beiram o sadomasoquismo, no qual vale a dinâmica endógena eternizada no refrão “o de cima sobe e o de baixo desce”.

Eu reitero: não estude para o vestibular por este bonito blog blog journal uinho, man. As opiniões aqui apresentadas são controversas em tantos níveis que chega a ser cômico. Primeiro, com a sabedoria moderada dos jornais (pela boa razão de que não preciso escrever quando os jornais estão dizendo o que eu julgo ser correto). Segundo, com a heterodoxia “desenvolvimentista” que certos esquerdistas mais maduros professam, porque eu advogo o uso de instintos basicamente ortodoxos. Terceiro, com a própria ortodoxia, porque eu coloco as críticas teóricas da heterodoxia em primeiro plano, pra ver que sopa isso dá. Por último, com a síntese pré-econômica dos seus professores de geografia, simplesmente porque eu me apóio em alguma teoria econômica (embora seja uma salada de ortodoxia, heterodoxia e olfato) e eles acham que tudo o que importa é a luta de He-Man contra o Esqueleto.

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p>Mas porque é ruim uma pessoa crescer achando que a economia mundial se propaga a partir de um “centro dinâmico” e outras baboseiras do tipo, vale a pena dar uma olhada rápida no que aconteceu no mundo nos últimos 50 anos. Eu quero descrever dois fatos estilizados relativamente ateóricos;

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