À Nelson Mandela (em ordem cronológica reversa)

Monday, July 30th, 2007

A rua Nelson Mandela continua sendo um pedacinho de vida entre a São Clemente e a Voluntários. É difícil que isso mude. A rua enquanto faixa de cimento de duvidosa utilidade para o trânsito pode ser cancelada para a construção de mais de um desses conjuntos residenciais que têm brotado no início da Voluntários, mas eles não a porão num outro lugar porque uma faixa de cimento com placas nas duas pontas não é uma rua, e muito menos a rua Nelson Mandela. E no entanto, eles fecharam a fábrica.

Eu nem lembro que fábrica era. Lembro-me dos cartazes propagandeando o número de dias sem que ninguém perdesse um dedo ou uma perna — com os números em branco, no entanto. E antes dos números em branco havia números, e antes desse terreno baldio havia uma fábrica.

Os aforismos repetitivos dos seguidores de Kundera estão certos: fábricas são efêmeras, bacon é eterno. Eu deveria ter pressentido quando o inefável pipoqueiro a quem eu pedia um saco de bacon com bastante pipoca não tinha troco para a minha nota grande. Este é um pipoqueiro para uma pessoa que contava as moedas e contava com o ônibus do condomínio para comprar aquele bacon borrachudo e quentinho com o qual hoje, sem fome, esperava esquentar os meus dentes gelados.

Não tive a pipoca, porque não era mais o meu pipoqueiro e não vi a fábrica. E sentei-me então no cimento gelado que cerca aquelas grades por onde entra luz do dia ao metrô. Estas eu ainda tinha. E tinha um daqueles lápis com logotipo que fluem como leite na FGV.

Eles venceram, e o sinal está fechado

Thursday, November 2nd, 2006


para nós, que somos jovens

Vocês conhecem aquela em que Deus está distribuindo as desgraças pelo mundo — furacões pra cá, terremotos pra lá, icebergs acolá — e São Pedro o questiona, perguntando porque ele tinha sido tão piedoso com aquele país na costa atlântica da América do Sul?

Dizem os psicólogos que a aceitação de uma perda vem em etapas: primeiro a negação, depois a raiva, depois a depressão e depois a aceitação. Ora, a história do segundo turno de Geraldo Alckmin é uma crônica de uma morte anunciada; entre o absoluto atabalhoamento com a qual o PSDB administrou a sua campanha presidencial e o constante _memento mori_ das pesquisas por amostragem, apenas um milagre daria um final diferente à história.

É assim que se dá a banalização do mal. Últimas esperanças definitivamente refutadas, voltamos todos à vida normal. O partido vai lamber suas feridas e exumar o cadáver de sua campanha; um breve campo festivo, em nada comparável à histeria de 2002, dançará uma giga e beberá uma taça de vinho.

A divisão social delineada nos cortes transversais das pesquisas eleitorais — educação, renda — fazem com que seja razoável crer que seja natural para os leitores destas linhas o pesadelo kafkiano que encerra o governo Lula. O que houve? É verdade a paráfrase cínica do adágio que se ouve pelos corredores de que cada povinho merece o presidente que tem? O fracasso é de Alckmin, que não soube falar claro, ou é uma característica estrutural das dinâmicas sociais específicas e estruturais a uma sociedade como a nossa?

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p>Lamber nossas próprias feridas políticas deve significar esboçar respostas a estas e outras questões sobre o panorama político delineado pela derrota do bloco modernizante nas eleições de 2006. Eu ando formulando as minhas.