Logo no início do capítulo 16 da General Theory – um capítulo pouco comentado, contendo algumas observações desordenadas sobre a teoria do capital, João Keynes comenta, sobre a idéia de substituição intertemporal:
“The trouble arises, therefore, because the act of saving implies, not a substitution for present consumption of some specific additional consumption which requires for its preparation just as much immediate economic activity as would have been required by present consumption equal in value to the sum saved, but a desire for “wealth” as such, that is for a potentiality of consuming an unspecified article at an unspecified time.”
O interessante é que isto vem algum tempo antes da solução intertemporal do equilíbrio geral por Arrow-Debreu, ainda celebrada como finalmente establecendo uma economia dinâmica do equilíbrio geral em bases sólidas. O chato é que Keynes tem razão neste trecho, principalmente porque os preços relativos importam, e no ato de poupar faz-se não só uma decisão quanto a uma cesta derivada dos preços relativos do consumo presente e futuro (dada por uma taxa de desconto intertemporal), mas também contra os preços relativos entre os bens disponíveis agora. Eu não compro um mp3 player agora porque o preço relativo dos aparelhos contra as pilhas que o meu discman bebe como água não está valendo a pena. Daí surge a poupança.
Daniel Yankelovich é o autor de uma descrição clássica do espírito de supremacismo técnico do final dos anos 50 e início dos 60, no que chamava de “falácia de McNamara”:
> O primeiro passo consiste em medir tudo quanto puder ser medido com facilidade. Até aí, tudo bem. O segundo passo consistem em desprezar tudo aquilo que não puder ser medido ou lhe atribuir um valor quantitativo arbitrário. Isto é artificial e tendencioso. O terceiro é presumir que aquilo que não pode ser medido com facilidade não tem muita importância. Isto é cegueira. O quarto passo é dizer que aquilo que não pode ser medido com facilidade na verdade não existe. Isto é suicídio.
Robert McNamara, o prodígio corporativo, administrador militar e brilhante homem de números não estava, obviamente diretamente associado com estas palavras, mas a escolha é icônica, e é indubitável que McNamara tenha sido enganado por sua própria falácia várias vezes no transcurso de sua vida como administrador de grandes eventos.
A estrutura de Yankelovich pode ser reaproveitada para trazer à tona saltos discursivos que se tornam típicos de uma era pela forma como discurso e senso comum fluem entre si e se fundem. Sem mais prolegômenos, apresento-vos a falácia de Tariq Ali.