fear & loathing in Barra da Tijuca

Thursday, December 22nd, 2005

Underground, _indie rock_, udigrude mesmo é caminhar pela Barra da Tijuca. Projetado para carros, o bairro exala a fétida evidência do capitalismo da Madison Avenue, do capitalismo dos pessimistas — não o sistema do empreendedor, da Liberdade maiúscula, promotora de um progresso que é humano até as últimas conseqüências, mas o sistema do consumidor abobalhado e desumanizado, homem sem alma que há muito ultrapassou a surrada forma de trocar o ser pelo ter para trocar o ter pelo ostentar.

Não é que o capitalismo deixe de ser _eficiente_, é que deixa de ser _elegante_. Não é que se torne _condenável_, é que **me irrita**.

Há no centro do Rio uma estreita faixa invisível entre a Escola de Música, a Sala Cecília Meirelles e o Municipal na qual transita, sem ser notado, o povo da música clássica. A faixa está contida no centrão mesmo da cidade, cheio de comércio, urina, poluição e mendigos, e contra a onipresença do mainstream do mainstream do mainstream da vida carioca, aquelas vidas humanas acontecem, mastigando partituras e Brahms em meio aos vendedores de pipoca e guaraná em copinho.

Essa “cultura 2″ invisível, no entanto, goza de um senso profundo de _entitlement_. Há o zelotismo e a _self-righteousness_ da comunidade de música clássica; no entanto, mais do que isso é o senso de _intenção_ no projeto do centrão — e em particular, daquela região do centrão. Desde os primórdios de centro de entretenimento de Francisco Serrador (a minha indicação para a série _Rebeldes Brasileiros_ da Caros Amigos), passando pela permanência de uma arquitetura que por se tornar _passé_ se tornou clássica, até a introdução voluntária, mesmo, de elementos como a Sala e a instalação da Escola de Música no prédio do Automóvel Clube. Em outras palavras, embora _outnumbered_ pelo segmento mais vulgar da “cultura 1″ (que talvez devesse por isso chamar-se “cultura 0″), a “cultura 2″ do centrão está em compasso com a evolução de seu entorno; em desarmonia com o panorama humano, a música clássica está em harmonia com a memória material da Faixa.

Tutorial: Pegando um ônibus

Thursday, July 21st, 2005

![Bluesão do busão](http://www.mackenzie.com.br/dhtm/agnoticias/fotoprincipal/foto_onibus_lotado.jpg)

### Introdução

Um ônibus é um veículo rodoviário coletivo encontrado nas grandes metrópoles brasileiras, muito utilizado por aqueles que não são tão pobres que queiram economizar R$2 andando cinqüenta minutos a esmo (isto é, pessoas que não são bolsistas do PIBIC), mas não tão ricas que disponham de opções mais confortáveis como o carro próprio, o táxi, o helicóptero e o tapete voador.

Saber pegar um ônibus é, assim, essencial para uma melhor qualidade de vida assim que o caro leitor se formar, for expulso do PIBIC e tiver os indispensáveis R$2 de sobra. Este tutorial apresenta aspectos teóricos e práticos da sofisticada arte urbana de catar o busão.

### Dramatis personae

* **Roleta**: nos ônibus do período _pré-sorvete na testa_, ficava na porta traseira do ônibus. Este arranjo tem vantagens: o cobrador costuma estar tão informado quanto o motorista sobre o trajeto e logo é de tanta assistência quanto aquele, sem atrapalhar o piloto na sua pilotagem; é possível choramingar e saltar num local mais conveniente que os pontos marcados; as conversas entre o cobrador e o motorista se dão através de gritos, informando todos os passageiros sobre o resultado do jogo do bicho esta semana. Atualmente, a roleta foi movida para a frente. Isto se deve à melhor interação dos personagens 2 e 3 no confronto com o personagem 4. _Importante: rodar a roleta = pagar_. Em não rodando a roleta, não pague.

* **Cobrador**: Funcionário cuja função é reter sua nota de 20 reais pelo máximo de tempo possível sem devolver troco, com isso rendendo para a empresa os excelentes juros da SELIC atual.

* **Motorista**: conhecido também pelos nomes carinhosos de “motor”, “piloto” e “chefe”. Detém a autoridade sobre deixar você entrar pela porta dianteira (nos ônibus _pré-sorvete) ou traseira (nos ônibus _pós-sorvete_), não pagando assim a tarifa de rotação-de-roleta. Dependendo da hora da noite, pode ser persuadido a parar fora do ponto, no esforço coletivo da sociedade civil contra a violência urbana.

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