Evidências enterradas

Friday, May 11th, 2007

Há um discurso alarmista sobre o aquecimento global que tenta fazer de todo fenômeno climático mais forte uma evidência da catástrofe total que se aproxima. Mas qual vocês acham que foi a maior catástrofe natural da história americana, com recordes de temperatura históricos (até 2006) sendo batidos?

Isso Al Gore não conta para as criancinhas. Aliás, os historiadores keynesianos da grande depressão gostam de esquecer, convenientemente, as violentas tempestades de areia que devastaram a agricultura americana nos anos 30 e deixaram mais de 500 mil americanos sem teto (outros dois milhões emigraram) — tudo em nome de não deixar nenhuma ambigüidade sobre a received wisdom da recessão da década de 30 como produto de uma espiral (deflacionária) endógena de demanda. Sim, a deflação fez com que muitos fazendeiros não conseguissem saldar suas dívidas assumidas em termos nominais e perdessem suas propriedades para os bancos — mas milhares de pessoas tiveram suas fazendas enterradas, e isso nenhum manual de história econômica conta.

É surpreendente que num mundo onde a cultura pop absorveu tantos fatos críticos da história americana na primeira metade do século XX, estes dois fatos aparentemente tão traumáticos (e basta ver a quantidade de romances assinados pelos grandes escritores sobre o assunto) quanto a proibição do comércio de álcool ou a presença da máfia italiana nas grandes cidades do nordeste. A histeria conservacionista (que propõe que o homem não pode interferir na natureza em nenhuma hipótese) e a histeria keynesiana (que tenta ignorar com todas as forças que fatores de oferta importam) parecem estar fazendo um excelente trabalho em apagar as memórias coletivas de milhões de americanos que estão morrendo de velhice agora.

As narrativas simples nunca são tão simples assim.

Tutorial: Pegando um ônibus

Thursday, July 21st, 2005

![Bluesão do busão](http://www.mackenzie.com.br/dhtm/agnoticias/fotoprincipal/foto_onibus_lotado.jpg)

### Introdução

Um ônibus é um veículo rodoviário coletivo encontrado nas grandes metrópoles brasileiras, muito utilizado por aqueles que não são tão pobres que queiram economizar R$2 andando cinqüenta minutos a esmo (isto é, pessoas que não são bolsistas do PIBIC), mas não tão ricas que disponham de opções mais confortáveis como o carro próprio, o táxi, o helicóptero e o tapete voador.

Saber pegar um ônibus é, assim, essencial para uma melhor qualidade de vida assim que o caro leitor se formar, for expulso do PIBIC e tiver os indispensáveis R$2 de sobra. Este tutorial apresenta aspectos teóricos e práticos da sofisticada arte urbana de catar o busão.

### Dramatis personae

* **Roleta**: nos ônibus do período _pré-sorvete na testa_, ficava na porta traseira do ônibus. Este arranjo tem vantagens: o cobrador costuma estar tão informado quanto o motorista sobre o trajeto e logo é de tanta assistência quanto aquele, sem atrapalhar o piloto na sua pilotagem; é possível choramingar e saltar num local mais conveniente que os pontos marcados; as conversas entre o cobrador e o motorista se dão através de gritos, informando todos os passageiros sobre o resultado do jogo do bicho esta semana. Atualmente, a roleta foi movida para a frente. Isto se deve à melhor interação dos personagens 2 e 3 no confronto com o personagem 4. _Importante: rodar a roleta = pagar_. Em não rodando a roleta, não pague.

* **Cobrador**: Funcionário cuja função é reter sua nota de 20 reais pelo máximo de tempo possível sem devolver troco, com isso rendendo para a empresa os excelentes juros da SELIC atual.

* **Motorista**: conhecido também pelos nomes carinhosos de “motor”, “piloto” e “chefe”. Detém a autoridade sobre deixar você entrar pela porta dianteira (nos ônibus _pré-sorvete) ou traseira (nos ônibus _pós-sorvete_), não pagando assim a tarifa de rotação-de-roleta. Dependendo da hora da noite, pode ser persuadido a parar fora do ponto, no esforço coletivo da sociedade civil contra a violência urbana.

As 3 leis dos blogues

Tuesday, April 26th, 2005

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  • Um blog blog journal ue diário é a expressão de uma visão pessoal e intransferível de uma realidade pessoal e intransferível. Blogue-de-pensamento ou não, um blog blog journal ue diário não é uma monografia, em parte pela boa razão de que não cumpre os rituais de um trabalho científico — o botãozinho de Publish aí do lado, sem orientadores, bancas, referees, normas de bibliografia e de linguagem. Além disso, thinking- blog blog journal ou não, o que torna estas coisas fascinantes é como a vida se insinua pelos rebordos, pelas rachaduras entre o pavimento intelectual e cultural construído — a sidenote aleatória de que gosto de calcinhas de algodão branco com slogans engraçados na frente, no meio de uma exposição sobre os problemas de negociação comercial envolvidos no futuro da indústria têxtil.

    Por outro lado, o trabalho científico traz uma obrigação de pesquisa exaustiva que autoriza a se falar de uma “verdade” externa e comum; sem pesquisa, ou com a pesquisa superficial de um post, fala-se de uma experiência de mundo, antes de tudo. Se eu me ponho a falar da queda de Carly Fiorina, falo fundamentalmente dos excessos de uma business philosophy que envolve técnicas “místicas” de marketing, conceitos chochos como “inteligência emocional” para RH, e culminam na escolha de uma mulher sem o menor background técnico ou sem a menor idéia do que é a HP — em suma, de como pragmatismo em inteligência (de verdade, e não apenas política) é suicídio. Mas claro, isso é a visão extremamente carregada de um geek supremacist, coisa que nunca deveria entrar num texto acadêmico de organização industrial ou governança corporativa.

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