Evidências enterradas

Friday, May 11th, 2007

Há um discurso alarmista sobre o aquecimento global que tenta fazer de todo fenômeno climático mais forte uma evidência da catástrofe total que se aproxima. Mas qual vocês acham que foi a maior catástrofe natural da história americana, com recordes de temperatura históricos (até 2006) sendo batidos?

Isso Al Gore não conta para as criancinhas. Aliás, os historiadores keynesianos da grande depressão gostam de esquecer, convenientemente, as violentas tempestades de areia que devastaram a agricultura americana nos anos 30 e deixaram mais de 500 mil americanos sem teto (outros dois milhões emigraram) — tudo em nome de não deixar nenhuma ambigüidade sobre a received wisdom da recessão da década de 30 como produto de uma espiral (deflacionária) endógena de demanda. Sim, a deflação fez com que muitos fazendeiros não conseguissem saldar suas dívidas assumidas em termos nominais e perdessem suas propriedades para os bancos — mas milhares de pessoas tiveram suas fazendas enterradas, e isso nenhum manual de história econômica conta.

É surpreendente que num mundo onde a cultura pop absorveu tantos fatos críticos da história americana na primeira metade do século XX, estes dois fatos aparentemente tão traumáticos (e basta ver a quantidade de romances assinados pelos grandes escritores sobre o assunto) quanto a proibição do comércio de álcool ou a presença da máfia italiana nas grandes cidades do nordeste. A histeria conservacionista (que propõe que o homem não pode interferir na natureza em nenhuma hipótese) e a histeria keynesiana (que tenta ignorar com todas as forças que fatores de oferta importam) parecem estar fazendo um excelente trabalho em apagar as memórias coletivas de milhões de americanos que estão morrendo de velhice agora.

As narrativas simples nunca são tão simples assim.

Crescimento

Thursday, January 25th, 2007

Não há política econômica óptima porque nem todas as políticas são criadas iguais; a intervenção estatal na economia é primeiro um efeito colateral da monetarização das economias nacionais a partir do crescimento do comércio na idade moderna, segundo, da emergência do fenômeno colonial que tem como prioridade submeter o projeto de uma nação ao de outra, terceiro da percepção coletiva de abusos de robber barons quando os rendimentos crescentes de escala da segunda revolução industrial levam a uma concentração industrial desconfortável e, finalmente, da depressão da década de 1930. Em cada um destes momentos,a política econômica tem significados e objetivos diferentes. Apenas dos anos 1980 pra cá, e apenas no Brasil, a política econômica já teve alguns papéis muito diferentes: estimular a produção de bens intensivos em capital, julgados “bons”, administrar a solvência internacional do país, e assim por diante. Um destes modelos de política econômica teve particular sucesso em seus objetivos, o da “estabilização”. Se não resolve muitos problemas, a “estabilização” é ao menos uma questão de bom gosto: em um ambiente mais sadio, a vida econômica pode se processar melhor. Nesse contexto, o anúncio do recente pacote de medidas de política industrial tem um valor simbólico profundo: sai a estabilização e entra esse tal de “crescimento”, vendido pela cultura como uma panacéia para o desconforto econômico. O problema é o seguinte: o crescimento é um mero epifenômeno contábil.

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