À Nelson Mandela (em ordem cronológica reversa)

Monday, July 30th, 2007

A rua Nelson Mandela continua sendo um pedacinho de vida entre a São Clemente e a Voluntários. É difícil que isso mude. A rua enquanto faixa de cimento de duvidosa utilidade para o trânsito pode ser cancelada para a construção de mais de um desses conjuntos residenciais que têm brotado no início da Voluntários, mas eles não a porão num outro lugar porque uma faixa de cimento com placas nas duas pontas não é uma rua, e muito menos a rua Nelson Mandela. E no entanto, eles fecharam a fábrica.

Eu nem lembro que fábrica era. Lembro-me dos cartazes propagandeando o número de dias sem que ninguém perdesse um dedo ou uma perna — com os números em branco, no entanto. E antes dos números em branco havia números, e antes desse terreno baldio havia uma fábrica.

Os aforismos repetitivos dos seguidores de Kundera estão certos: fábricas são efêmeras, bacon é eterno. Eu deveria ter pressentido quando o inefável pipoqueiro a quem eu pedia um saco de bacon com bastante pipoca não tinha troco para a minha nota grande. Este é um pipoqueiro para uma pessoa que contava as moedas e contava com o ônibus do condomínio para comprar aquele bacon borrachudo e quentinho com o qual hoje, sem fome, esperava esquentar os meus dentes gelados.

Não tive a pipoca, porque não era mais o meu pipoqueiro e não vi a fábrica. E sentei-me então no cimento gelado que cerca aquelas grades por onde entra luz do dia ao metrô. Estas eu ainda tinha. E tinha um daqueles lápis com logotipo que fluem como leite na FGV.

Evidências enterradas

Friday, May 11th, 2007

Há um discurso alarmista sobre o aquecimento global que tenta fazer de todo fenômeno climático mais forte uma evidência da catástrofe total que se aproxima. Mas qual vocês acham que foi a maior catástrofe natural da história americana, com recordes de temperatura históricos (até 2006) sendo batidos?

Isso Al Gore não conta para as criancinhas. Aliás, os historiadores keynesianos da grande depressão gostam de esquecer, convenientemente, as violentas tempestades de areia que devastaram a agricultura americana nos anos 30 e deixaram mais de 500 mil americanos sem teto (outros dois milhões emigraram) — tudo em nome de não deixar nenhuma ambigüidade sobre a received wisdom da recessão da década de 30 como produto de uma espiral (deflacionária) endógena de demanda. Sim, a deflação fez com que muitos fazendeiros não conseguissem saldar suas dívidas assumidas em termos nominais e perdessem suas propriedades para os bancos — mas milhares de pessoas tiveram suas fazendas enterradas, e isso nenhum manual de história econômica conta.

É surpreendente que num mundo onde a cultura pop absorveu tantos fatos críticos da história americana na primeira metade do século XX, estes dois fatos aparentemente tão traumáticos (e basta ver a quantidade de romances assinados pelos grandes escritores sobre o assunto) quanto a proibição do comércio de álcool ou a presença da máfia italiana nas grandes cidades do nordeste. A histeria conservacionista (que propõe que o homem não pode interferir na natureza em nenhuma hipótese) e a histeria keynesiana (que tenta ignorar com todas as forças que fatores de oferta importam) parecem estar fazendo um excelente trabalho em apagar as memórias coletivas de milhões de americanos que estão morrendo de velhice agora.

As narrativas simples nunca são tão simples assim.

Política industrial e o ônus da prova

Wednesday, April 25th, 2007

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O ônus da prova é uma das meta-narrativas mais interessantes da ciência, em parte porque tem valor retórico central (de estruturação do discurso), em parte porque não foi adequadamente coberto pelas críticas da meta-narrativa da filosofia da ciência do século passado e em parte porque tem o poder de alcance de uma alavanca: sozinho, o ônus da prova (e o seu análogo de lógica temporal, o método genético) pode inclinar fortamente, a partir de um eixo simples, a compreensão teórica do processo em questão na ponta da gangorra.

Ora, em termos teóricos, a heterodoxia põe o ônus da prova sobre a certeza cientificizante da common wisdom ortodoxa: cabe a nós demonstrar que o mercado fará as coisas que nós dissemos que faria — otimalidades sociais e eficiência alocativa. Por outro lado, em termos de formulação de política, é fácil pôr sobre eles o ônus da prova sobre a efetividade e valor normativo dos métodos de correção local que se propõe colocar para corrigir as falhas percebidas no mercado.

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p>A ortodoxia defende a direção que dá ao ônus da prova por um misto de cientificidade procedimental (e a heterodoxia dificilmente se rebaixa a produzir proposições falsificáveis, contrastá-las contra experimentos naturais e promover um debate claro sobre os méritos relativos das construções teóricas) e prudência (e afinal, como ministro das finanças austríaco Schumpeter gerou uma hiperinflação, e como diretor de um importante banco levou a instituição à falência). A heterodoxia defende a inversão desse ônus por um misto de cientificidade substantiva (e a teoria ortodoxa não é substancialmente científica porque seus primeiros princípios são absolutamente irreais) e urgência (é preciso “desenvolver” o país, para eles).

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